Combateram os terroristas, agora fogem sozinhos do terror imposto pela Turquia

Em todas as notícias de libertação de cidades sírias, é difícil encontrar uma que não ressalve o papel importante do povo curdo.

Curdos Turquia
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É escusado dizer que todas as guerras tem particularidades que põem em evidência a polarização do mundo e uma certa hipocrisia global. Foi assim nas Grandes Guerras com alianças e desavenças, foi assim no Iraque com pactos dúbios a sustentar uma intervenção desmedida e, assim está a ser na Síria, com uma complexa rede de relações entre todos os intervenientes no terreno. O conflito que começou na teoria como uma revolta popular contra o regime de Assad, já mostrou na prática ser uma montra do conflito global, mais do que uma simples revolução local.

Foi neste contexto global e de relações sensíveis entre várias forças ofensivas que se notabilizaram os curdos. Povo menosprezado durante décadas por algum desconhecimento generalizado, chegaram aos noticiários por se prestarem a combater na linha da frente contra o inimigo nº 1 do ocidente, o Daesh ou auto-proclamado Estado Islâmico.

Em todas as notícias de libertação de cidades sírias, é difícil encontrar uma que não ressalve o papel importante deste povo sem Estadoo maior povo sem Estado de todo o mundo. Os curdos alinharam tanto ao lado de russos – por exemplo, na região de Rojava –, como, por tradição, ao lado de americanos – isto é, da chamada Coligação Ocidental.

Com uma organização social diferente e um espírito de revolução permanente, os curdos tornaram-se mais do que importantes combatentes na primeira linha contra o ISIS, um símbolo de que é possível um posicionamento neutro, equidistante e, diga-se, em prol do bem da humanidade. Fizeram-no muito provavelmente na tentativa de conquistar, ou merecer, um território onde edificar a sua nação, mas quando finalmente se começaram a estabelecer, perderam todo o apoio da comunidade internacional e viram a sua principal cidade invadida pelos turcos.

A relação entre curdos e turcos é antagónica desde os tempos do Império Otomano e da revisitação história que os governos recentes da Turquia têm promovido. Na constituição do país de Erdogan, ser curdo é visto como ilícito condenável. E, desta feita, nem na fronteira com a Síria, os turcos permitiram a existência e permanência do povo curdo. Em causa está o entendimento dos turcos de que a YPG (Unidade de Proteção Popular) é um grupo terrorista, ideia paradoxal ao seu papel no conflito sírio até à data.

Nos últimos dias o caso tornou-se especialmente grave, com as tropas turcas a consumar o seu plano, invadindo e conquistando a cidade de Afrin, numa ofensiva que cria mais uma frente de batalha, numa guerra que já vitimou milhares de pessoas.

Os ataques a esta província síria na fronteira com a Turquia começaram no dia 20 de Janeiro e, apesar do conhecimento generalizado do conflito por parte das Nações Unidas e dos Estados Unidos, não houve medidas que mitigassem a escalada de violência, com Erdogan sempre assertivo e dominante da sua posição.

Os últimos dias ficam marcados pela fuga dos curdos daquela província, já sem condições de segurança e habitabilidade, embora prometam continuar a sua retaliação ao inimigo turco. Estima-se que 200 mil pessoas possam estar à procura de refugio após este conflicto.

No total, e fazendo as contas ao conflito, calcula-se que já tenham morrido pelo menos 65 civis do lado curdo. Do lado turco, as baixas, segundo a agência noticiosa do país, são dois feridos resultantes de um míssil lançado da zona de conflicto. No rescaldo do conflicto, fica a desilusão patente nas declarações das altas figuras curdas por, após sucessivos apelos às organizações internacionais, nada ter sido feito.

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