Entra na imensidão melódica do pianista brasileiro Vitor Araújo

Pianista e compositor brasileiro traz experiências de várias influências e marca como um dos grandes destaques na nova música brasileira.

pianista Vitor Araújo
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O pianista e compositor brasileiro Vitor Araújo surgiu como menino-prodígio com toques de anjinho erudita do piano mas também de revolta a tocar/pisar Radiohead no piano. Começou a tocar aos 9 anos de idade e lançou seu primeiro álbum aos 18, resultado de um gosto musical ecléctico, que transita entre a música contemporânea, o popular e o erudito. Em 2008, recebeu o Prémio de Revelação, da Associação Paulista de Críticos de Arte.

O reconhecimento de seu talento fez o músico viajar por todo Brasil, seja com apresentações solo ou com a banda Seu Chico, que fazia versões de Chico Buarque.

Aos 17 anos, ele já lançava seu primeiro disco, o DVD Toc – Ao vivo no Teatro de Santa Isabel (2005, Deck), em que aparecia basicamente como intérprete de releituras de Luiz Gonzaga (Asa branca), de Villa-Lobos (Dança do índio branco) e até de Radiohead (Paranoid Android).

Quatro anos depois, Vitor reaparece com disco Levaguiã Terê (Natura Musical) que o consolida como o compositor que todos esperavam. Lançado em 2016, surge como um dos grandes destaques dos lançamentos do ano na nova música brasileira.

Inicialmente o álbum foi idealizado como um estudo do candomblé, entretanto passou por metamorfoses durante seu longo e trabalhado processo de composição e orquestração. Hoje é uma obra criativa e inovadora e o próprio músico define como uma ideia de sincronia entre o indígena, o africano e o europeu.

Levaguiã Terê surgiu com a experiência do cantor e sua namorada no Parque Nacional do Catmbau, onde conheceram um guia descendente de indígenas. Ao passar uma noite numa gruta nessa montanha, o tal guia contou a história do pássaro Levaguiã Terê – um pássaro subterrâneo que voa por debaixo do mundo, aonde é noite quando no mundo é dia e aonde é dia quando no mundo é noite.

A estrutura narrativa do álbum está dividida com 12 faixas em dois grupos de seis (toque e canto), que conversam entre si. Vitor Araújo refere que as músicas estão em diálogo e que pretendem transformar o disco numa unidade indissolúvel, então trouxe essa divisão do toque e canto. O músico explica em entrevista com jornal O Globo que a música folclórica, seja indígena, europeia ou iorubá, não existe o canto puro nem o toque puro.

Não existe um canto ou um toque separado. Não existe um sem o outro. A música popular de rua não pode ser tocada sem ser cantada. Isso está em “Ciranda cirandinha” e em todas as manifestações populares.

As três primeiras faixas do novo álbum são quase paradigmais, porque resumem todas as origens do disco. A primeira tem muito candomblé, música indígena e Villa-Lobos; a segunda é experimental com uma pegada meio Steve Reich; a terceira faixa entra com bateria eletrónica, synth, guitarra, baixo, voz…

Há uma influência clara e quase que sem vergonha de Villa-Lobos e Radiohead. Vitor Araújo cita também outras influencias em sua composição: Ígor StravinskyMaurice Ravel, os impressionistas franceses, e também uma pequena referência a Richard Strauss.

O sentimento directo ao ouvir o álbum é que o cantor abriu pouco a pouco as partituras eruditas e incluiu referências modernas de Bjork, Radiohead, Knife. Juntam-se a isso uns toques eletrónicos, post-punk e afro, tudo numa canção que basta fechar os olhos para compreender e abraçar.

Levaguiã Terê é, em síntese, um álbum de música erudita contemporânea. Os temas foram escritos para orquestra e gravados com uma sinfónica. Mas é a combinação de elementos de universos distintos como a cultura afro, as batidas electrónicas, as vozes suaves e a electrónica controlada que cria uma solução musical interessante e mostra um crescimento natural de Vitor Araújo como artista, consequência dos caminhos percorridos pelo músico nos últimos anos.
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