Cânhamo: quando a lei não aprende com a história

O cânhamo "não bate" porque tem baixo teor de THC mas pode ser bastante forte na indústria.

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Embora não seja do interesse público generalizado ou pelo menos um argumento tão usual na luta pela legalização da canábis, a verdade é que para além do potencial da planta administrada, as restantes matérias derivadas do seu cultivo – ou do cultivo de determinadas espécies de canábis – são ainda mais promissoras do ponto de vista ecológico ao social.

Longe de estarem proibidas por lei – que até prevê apoios à plantação de cânhamo –, as culturas de qualquer tipo de canábis acabaram por ser marginalizadas do ponto de vista popular. A isso junta-se a série de constrangimentos e restrições impostas, algo que acabou por conduzir a uma falência da indústria do cânhamo em Portugal.

Se tudo isto nos parece relativamente normal e uma progressão natural das coisas (à medida que o homem aprende a lidar com novas espécies que vai descobrindo), uma leitura dos principais capítulos da história nacional mostra que não é bem assim, deixando clara como as nossas visões, crenças e preconceitos se circunscrevem a meia dúzia de décadas de conhecimento acumulado e não mais que isso.

O resultado deste desconhecimento generalizado da história a que se sobrepõe o peso simbólico da lei é a marginalização de uma cultura com bastante potencial para servir uma série de indústrias, desde a têxtil à construção civil. Foi, aliás, nessa primeira área, sob a forma de uma espécie linho de cânhamo que a planta terá surgido no radar nacional.

Na época das cruzadas marítimas nacionais e das grandes viagens nas icónicas naus, era o cânhamo de extensos cultivos que fornecia a fibra necessária às velas das embarcações. Supõe-se que o seu cultivo tenha sido iniciado por romanos e que a sua exportação global possa ter começado nas caravelas nacionais. O que se sabe com certeza é que a indústria nunca mais voltou a ter esse fulgor em Portugal, onde reinam os métodos de produção clássicos e menos sustentáveis.

Porque é que o cânhamo é sustentável?

A resposta é simples e a questão não esconde mais um argumento positivista de um qualquer stoner a querer fumar umas ganzas — até porque a cultura de cânhamo está restrita a plantas com menos de 0,2 de THC, isto é, em linguagem comum, que não batem. O cânhamo industrial é uma variedade da planta Cannabis Sativa L., por vezes confundida com o calão “marijuana”, que também é da mesma espécie mas de uma diferente variedade.

A principal vantagem deste cultivo passa pelo seu grau de eficiência e baixo desperdício. Se nas tradicionais matérias primas, como o algodão, a planta tem uma utilização praticamente singular, no caso do cânhamo os diferentes componentes podem servir diferentes propósitos, podendo quase toda a planta ser aproveitada industrialmente. É como o petróleo, que também tem diferentes derivados, com diferentes usos.

A partir do cerne lenhoso pode fazer-se forragem de animais, a partir das fibras pode fazer-se papel, materiais de isolamento ou materiais têxteis e, a partir das sementes, depois de processadas, pode obter-se bioplástico, vernizes, tintas orgânicas, lubrificantes e até biodiesel. A juntar a isso, a fácil produção, a dispensa de pesticidas e o rápido crescimento completa o ciclo de vantagens, a que se opõe sobretudo o estigma.

Estado das coisas, coisas dos Estados

Estas valências do produto não são novidade, como já referimos, e são globalmente conhecidas. Estima-se que o cultivo da planta tenha começado mesmo antes de Cristo no Médio Oriente e na Ásia e que até a declaração de Independência dos Estados Unidos tenha sido redigida em papel de cânhamo, um exemplo que ilustra cabalmente como a proibição de um dos consumos tornou todo o potencial marginal.

Em Portugal, depois dos períodos fulgurosos e de exploração das culturas há séculos atrás, durante décadas a produção cessou quase completamente. Em 2013, surgiu uma cooperativa para tentar reanimar este sector de cultivo, que, como supra referido, tem retomado a sua expressão.

Um ponto importante é que para iniciar o cultivo o proponente deve procurar sementes certificadas pela União Europeia responsável pelo enquadramento legal – e não deve ressemear as suas próprias sementes, para além de estar obrigado a uma série de outros procedimentos legais como a comunicação às autoridades locais.

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