A inacreditável campanha anti-islâmica paga por milionários norte-americanos

A internet foi o principal campo de batalha para democratas e republicanos — ou democratas e a direita alternativa apoiante de Donald Trump.

 
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Que as eleições de 2016 nos Estados Unidos da América foram discutidas nas urnas mas sobretudo fora delas já não resta qualquer dúvida. Outro ponto assente é que a Internet foi o principal campo de batalha para democratas e republicanos — ou democratas e a direita alternativa apoiante de Donald Trump — medirem forças.

Várias foram as formas de o fazer e, do lado da ultra direita, uma das estratégias mais comuns foi incentivar o medo através de preconceitos racistas. Era esse o propósito de uma campanha que surgiu na proximidade das eleições e que, sabe-se agora, terá sido financiada por um dos maiores milionários dos Estados Unidos — Robert Mercer. O mesmo que terá estado na base da fundação do site Breitbart e nos investimentos feitos na consultora no olho do furacão, Cambridge Analytica.

As peças de comunicação dispensam comentários, especialmente para nós europeus. Em 3 vídeos, cada um deles dedicado a um país — França, Alemanha e Estados Unidos — os símbolos culturais são subvertidos passando a ideia de domínio muçulmano sobre a cultura ocidental de um modo completamente descabido.

É possível encontrar cenários como a Torre Eiffel com o topo modificado, a Gioconda de burca ou bandeiras alemãs com um círculo preto e inscrições árabes em montagens de muito baixa qualidade. A subversão chega ao cúmulo do ridículo de imaginar o Oktober Fest — a festa da cerveja mais clássica do mundo — sem álcool nem carne de porco.

Estes vídeos fazem parte do leque de material utilizado em campanhas ultra-segmentadas para estados específicos com mais votantes indecisos, usando os seus preconceitos e eventuais medos para garantir o seu voto no candidato que prometia fazer da América “great again”.

Num contexto controlado, como neste artigo, as peças de comunicação parecem autênticas sátiras aos próprios preconceitos e dificilmente convencem alguém. Um dos factores de sucesso para este tipo de comunicação é ser apresentada só a pessoas com um menor nível de educação e menor capacidade de discernimento entre mensagens reais e fictícias.

A identidade do milionário norte-americano ainda não tinha sido associada a esta campanha e, de resto, nem a própria campanha ou a empresa que a assina era do conhecimento público generalizado. O facto de os anúncios só serem entregues a uma franja muito específica da população fez com que o mistério se prolongasse até agora. De resto, a Secure America Now — a organização sem fins lucrativos responsável — não tem empregados ou voluntários que a possam identificar.

Os documentos agora divulgados pela OpenSecrets permitiram identificar os principais financiadores da campanha, seguindo a pista do dinheiro até dois grandes grupos — o de Mercer, responsável por 2 milhões de dólares de investimento e um segundo, composto por milionários que preferiram o anonimato.

Ronald S. Lauder, o gestor da fortuna Esteé Lauder, será um dos membros desse segundo grupo. De resto, o presidente dessa associação é o conselheiro político de Lauder há longos anos. Outros investidores terão ainda sido identificados como o antigo CEO do BestBuy.

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