De Itália à Venezuela: o problema do mundo não é (só) o populismo do Bruno de Carvalho

A reeleição de Maduro na Venezuela e a quase certa formação de Governo em Itália pelo Movimento 5 Estrelas são dois polos opostos de uma realidade política cada vez mais antagónica e polarizada que, por cá, não tem a atenção ou escrutínio que merece.

Bruno de Carvalho problemas

Enquanto estávamos nacionalmente entretidos com a novela criada em torno de Bruno de Carvalho e da sua liderança e o estado (sim, não é um Estado) do Sporting, pelo mundo fora,– apesar da nossa crença na planetariedade do assunto – tudo avançou, sem que cá se prestasse grande atenção. A reeleição de Maduro na Venezuela e a quase certa formação de Governo em Itália pelo Movimento 5 Estrelas são dois pólos opostos de uma realidade política cada vez mais antagónica e polarizada que, por cá, não tem a atenção ou escrutínio que merece. Muito menos das gerações mais jovens.

Se muitas vezes se designa o presidente do Sporting Clube de Portugal como um populista nato, facto é que conquistou a sua popularidade à custa de qualquer pequena acção ou através do facto do mais ridículo comentário no Facebook ser entendido como notícia. Uma espécie de pós-verdade à portuguesa que nos leva a sobrevalorizar os assuntos que nos chocam mais. Aqui não vamos mencionar polémicas, difamar profissionais, nem criticar partilhas em canais de comunicação pessoais; em sentido inverso, damos-te conta de como movimentos populistas triunfam pelo mundo fora recorrendo para isso a dois exemplos perfeitamente díspares e sobretudo actuais: um à esquerda, outro à direita; um na América, outro na Europa; uma reeleição e uma eleição inesperada.

Movimento 5 Estrelas

As eleições em Itália já foram há mais de dois meses e, talvez por isso, a formação do seu Governo não tem sido acompanhada com especial interesse nem rigor mediático. A verdade é que depois da queda do moderado Matteo Renzi que tantas vezes foi mencionado na imprensa como um político ímpar no panorama europeu – por exemplo quando decidiu dar dinheiro aos jovens para gastar em cultura como medida anti-terrorista – a política italiana agitou-se e os movimentos populistas ganharam espaço, abrindo caminho à passagem da Extrema Direita como agora se verifica.

Numas eleições marcadas pelo regresso de Berlusconi, foi o movimento encabeçado pelo outsider político e figura do humor e da televisão italiana quem se destacou, ficando no papel principal. Sob a liderança de Luigi Di Maio que substituiu para estas eleições o comediante Beppe Grillo, o Movimento 5 Stelle foi o vencedor das eleições que decorreram a 4 de Março sem no entanto conseguir a maioria que lhes permitisse formar Governo – algo que pode estar prestes a acontecer como dão conta as últimas notícias.

Em segundo lugar nessa selecções ficava o Primeiro-Ministro demissionário e, feitas as contas, não sendo óbvio adivinhar que Governo se viria a formar, seria expectável que a sua matriz fosse sobretudo anti-sistémica. Assim, sem vislumbrar possibilidade de coligação entre o M5S e partidos de índole tradicional, sobravam poucas hipóteses a desenvolver entre reuniões e acordos com dois nomes a surgirem na pole position desde o primeiro minuto: Liga do Norte ou Força Itália – com 32% das preferências, faltavam apenas 8 ao M5S para poder nomear o primeiro ministro.

Agora e quando passam praticamente 3 meses de conhecidos os resultados do sufrágio democrático, começam a conhecer-se os resultados da diplomacia inter partidária, com um dos cenários sobre o qual sempre se conjecturou a ganhar cada vez mais força – a suficiente para já haver um nome a propor ao presidente.

Giuseppe Conte é o nome apresentado ao presidente Sergio Matarella como candidato a primeiro-ministro de Itália em representação e concordância entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga (3º nas eleições), depois de um contrato de Governo acordado na passada sexta feira.

O jurista e professor universitário, desconhecido até há bem pouco tempo do grande público italiano, pode estar prestes a assumir o cargo corporizando as ideias que permitiram este pacto. Em comum entre os dois partidos está o euro-cepticismo, o combate à corrupção e a defesa de políticas de imigração restritivas – algo especialmente importante num país que se encontra na rota de milhares de refugiados.

A eleição previsível de Conte tem feito correr tinta nos media internacionais sobretudo pela sua consensualidade. Conte, formado em Yale com passagens pela Sorbonne e por Cambridge, não personaliza propriamente o estereótipo de candidato que seria de esperar de um acordo entre um movimento popular e um partido de extrema direita. A mostrá-lo estão as suas declarações sobre sempre ter votado à esquerda até há bem pouco tempo.

Eleições na Venezuela

Depois de meses com as manifestações e filas no supermercado a dar corpo a notícias que criavam a imagem de caos na Venezuela, tiveram no Domingo passado lugar as eleições naquela terra da América Latina com tantas ligações a Portugal e, escrutínio, crítica ou análise pouco se viu. A descrição que temos da Venezuela é sempre mais sensacionalista e menos sustentada.

Se no caso acima descrito, o populismo levou o movimento popular em coligação com a Direita ao poder, este caso não podia ser mais divergente no seu resultado final. No fundo, nem a história é tão rica ou com tantas nuances visíveis.

Na Venezuela, não falamos de eleições para Primeiro-Ministro mas antes para Presidente da República e não falamos de um populismo que se revele nas urnas mas de um que se mantém no poder há décadas merecendo por isso de muitos a designações exclusivas de regimes opressivos e sem respeito pleno pela democracia.

Se até estas eleições Maduro tinha sido eleito em 2013, 40 dias após a morte de Chavez, com relativa tranquilidade internacional e apenas a reivindicação da oposição directa, neste caso vários países estão a juntar-se ao lado dos que não aceitam os resultados anunciados. As denúncias de fraude e as acusações de opressão aos opositores estão entre o rol de queixa que fazem com que, por exemplo, Brasil e EUA rejeitem a reeleição de Maduro.

Se, por um lado – mais teórico –, esta rejeição pode ser lida como uma oposição tácita à filosofia Bolivariana que Maduro continua a implementar no seu país; por outro – mais real e palpável –, complica as contas do país no que concerne as relações internacionais. Ainda assim, embora esta tomada de posição pudesse ditar o corte diplomático total, a interdependência económico deste país produtor de petróleo mantém-no como parceiro das potencias. Pegando no mesmo exemplo, de EUA e Brasil, sabe-se hoje que não o fizeram, reduzindo apenas as possibilidades ao executivo venezuelano mas mantendo, por exemplo, as importações de petróleo.

Importante é para já tomar nota da agudização das várias posições e da tal polarização que se verifica um pouco por todo o globo. De resto, alguns especialistas apontam que o resultado de toda esta narrativa composta por eleições e rejeições pode ser o reforço da índole bolivariana ou, por outro lado, o fortalecimento de relações económicas com China e Rússia, um cenário que provocaria sempre agitação no panorama político mundial.