Um documentário para recordar o mestre neorrealista Júlio Pomar

Sempre que morre uma figura de relevo, no panorama social, político ou artístico, o interesse por ela revela-se subitamente.

É uma atitude ingrata mas inevitável e quase que se podia inscrever como lei, pelo menos numa página de Wikipedia que a sintetizasse – sempre que morre uma figura de relevo, no panorama social, político ou artístico, o interesse por ela revela-se subitamente. Até nós, media, cedemos a tendência natural e, nos dias, semanas, meses, após a morte de um destes nomes damos por nós a navegar por referências sobre estas figuras que nos impelem à partilha.

Júlio Pomar é uma destas figuras e uma sobre quem podemos encontrar acessível online e gratuitamente algumas pérolas. Partilhamos duas: o documentário de António José Almeida (o mesmo realizador da série 2077) Júlio Pomar: O Risco –, e a entrevista conduzida por Aurélio Gomes para o Canal Q, em 2011.

No documentário de 59 minutos, o percurso de artista é traçado e recordado por alguns dos que o viram emergir no universo cultural português. Críticos de arte, galeristas, escritores e até donos de alguns dos seus mais míticos quadros como “O Almoço do Trolha”, testemunham o génio inflexível de Pomar que também contribui com passagens para o enriquecimento da peça audiovisual.

É uma entrevista que, apesar de já ter sete anos, se pode considerar actual comparando aos 92 de Pomar – é também nestas alturas que percebemos que a intensidade da juventude se tem de prolongar e que afinal de contas ainda não vivemos nada. Não é o último registo do artista – esse parece ser a entrevista ao Expresso dada em 2017 –, mas é uma curiosa intersecção de vários agentes: um jovem e irreverente canal, um jornalista em maturação e o artista consensual com a solenidade que os anos de experiência e as milhares de histórias lhe conferem.

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