Expo 98: 20 anos depois todos guardamos alguma memória

10 milhões de visitas, 146 países representados, 5 mil milhões de investimento. À imagem de todos os outros eventos há quem se queixe do muito dinheiro "dos contribuintes" e há quem diga que a Expo 98 lançou o futuro do novo Portugal.

Pouco me recordo da Expo 98. Tinha 12 anos, enfrentava a transição do 6.º para o 7.º. Lembro-me de ser tida como O acontecimento, mas a memória guardou melhor os intervalos da escola, em que, ainda sem telemóveis, os meus colegas combinavam “curtes” e jogavam (brincavam?) ao Bate Pé. Já desse verão guardo bem mais viva a memória do Mundial francês (francês em todos os sentidos), esse que até está na ordem do dia. Guardo a atitude “anti-praia” que ainda hoje prevalece. Numa semana de férias no Algarve, com os pais, achava mais piada aos pubs cheios de escoceses, “Guinesses” e um Brasil-Escócia que à possibilidade de escaldão. Preferia ter ficado no hotel a ver os jogos na Eurosport, mesmo que não fossem transmitidos em direto. Guardo também os Jogos Sem Fronteiras, o Mundialito de Futebol de Praia que os Estados Unidos (!) venceram e que a malta do Perú (!!!) perdeu, da Volta a Portugal em Bicicleta e de ansiar pelo regresso às aulas.

Mas a Expo 98 não me traz muito. Nem sei se visitei uma ou duas vezes. Lembro-me que, morando no subúrbio, era obrigado a apanhar o comboio com destino à recém-inaugurada Gare do Oriente. O problema é que, há 20 anos, já tinha muita gente nessa mesma condição e a viagem foi apertada a um nível que nunca mais consegui repetir: pessoas a mandar vir dentro e fora do comboio, empurrões, pessoas entaladas na porta, mochilas a viajar da parte de fora da carruagem. Já na Expo recordo o Pavilhão de Andorra que me levou a uma experiência de alegada realidade virtual em que um grupo de pessoas experimentava a sensação de descer uma montanha, de ski. Do lado de fora, apercebi-me que não seria muito diferente daquelas máquinas destinadas a entreter crianças e que frequentemente encontramos à porta dos cafés. Subia, descia, abanava. E, sim, lembro-me da Praça Sony e do Gil. Quem não?  

Não me lembrando de mais nada e desafiado a escrever sobre o assunto, decidi fazer duas coisas: pedir testemunhos a um círculo próximo e espreitar as reportagens da RTP alojadas no YouTube.

“Os carimbos, o boneco e os V.I.P.s a passarem à frente”. E pronto, está despachado o testemunho do meu pai. Palavra à minha mãe: “não me lembro de muita coisa. Eram muitas novidades. Lembro-me do calor, da sede e de vocês a queixarem-se das pulgas.” Pulgas?! “Sim, a tua irmã diz que sim, que veio de lá toda mordida”. A minha mulher recorda um pavilhão em que fabricavam um livro de contos personalizado, ou seja, “davam-te um livro já preenchido, com o teu nome na capa”, recorda uma ação da Swatch que consistia em jatos de água, as filas para tirar fotografias juntos dos vulcões e uma visita entusiasmante ao pavilhão do futuro para uma experiência 3D pelo espaço. Por fim, os meus padrinhos de casamento: Ele diz que se recorda da “pala, dos Olharápos, do Gil, do Pavilhão do Conhecimento e das filas para a casa-de-banho.” Ela estende-se um pouco mais e lembra que o “último dia parecia o apocalipse, estava tanta gente que não conseguias andar. Não havia água nem rede de telemóvel por estar sobrecarregada e lembro-me de fugir de um Gil que me queria abraçar. Lembro-me de ficar maravilhada com um pavilhão onde vi, pela primeira vez, um holograma e fiquei a sentir que tinha tocado no futuro, de me sentir mto orgulhosa de Portugal, isto porque tinha ido à de Sevilha 92 e o meu pai disse que a portuguesa ia ser uma trampa, comparada com a espanhola. E não foi. Foi brutal”.

A reportagem da RTP ao 1.º dia ajuda-nos a perceber que é provável que isto não tenha mudado assim tanto. Começa com dezenas a correr em jeito de celebração por se tornarem nos primeiros a entrar no recinto. Por outro lado, é de salientar a quase extinção dos bonés de pala para trás. Outro ponto que nos permite perceber que isto não mudou assim tanto: António Costa é o responsável pelo evento, há comboios do metro avariados, José Rodrigues dos Santos conduz a emissão e há um Presidente da República consensual: Jorge Sampaio. Mas também há o inverso, momentos que nos mostram que afinal tudo mudou. Eventualmente para pior: uma café é 100 escudos e já está sobrevalorizado, uma água pequena é 200 escudos, fast food fica pelos 1.000 e um bom restaurante entre os “2 e os 4 contos”, os bilhetes de barco de ida e volta são 500 escudos, os testemunhos estrangeiros contam com tradução em locução e nunca legendas e, por fim, direto ainda se escreve “directo”.

Os números para arrematar: 10 milhões de visitas, 146 países representados, 5 mil milhões de investimento. À imagem de todos os outros eventos há quem se queixe do muito dinheiro “que veio dos contribuintes”. Há quem diga que lançou o futuro ou que foi a 1.ª pedra lançada para um novo Portugal que, mal ou bem e brincadeiras à parte, muito mudou a partir daí.