10 filmes para entenderes relações, dificuldades e o mundo do trabalho

Do cinema brasileiro ao alemão, sem esquecer obras portuguesas bem actuais ou ícones do cinema como Charlie Chaplin, filmes para te distraírem ou inspirarem, o que preferires depois de um dia de trabalho.

Uma lista sobre o tema que veste a edição deste mês nunca poderia ser demasiado fechada, em géneros ou anos. Porque a forma como trabalhamos e olhamos para o Trabalho nunca foi estanque, foi vítima das eras e evoluções que alteraram condições e direitos, também a forma como foi sendo retratado culturalmente ao longo dos tempos foi mudando. Lutas de classes, histórias de superação pessoais, ambientes de trabalho tóxicos ou desafiantes e histórias metafóricas sobre a o prazer no trabalho, segue-se uma lista de 10 filmes – histórias que vão dos anos 30 ao ano passado, mas são e serão sempre pertinentes. E porque quando a motivação para o trabalho dá sinais de enfraquecimento, o cinema pode ser uma óptima ferramenta de inspiração, aqui tens:

Modern Times

O clássico de Charlie Chaplin mostra a rotina exaustiva e enlouquecedora de um operário numa linha de montagem. Numa das cenas mais célebres, o protagonista persegue uma mulher por achar que os botões de sua roupa são os parafusos que ele costuma apertar no seu dia-a-dia na fábrica. O filme data de 1936, altura mais que pertinente para uma crítica à organização do trabalho nas indústrias da época. A sua visão ácida sobre os efeitos da tecnologia sobre o indivíduo continua muito actual, funcionando como uma espécie de premonição para a obsessão colectiva pelo digital que vivemos hoje.

Baby Driver

Um filme, ou melhor uma playlist, que nos conta a história de Baby, um órfão que se encontra no flow do seu maior talento, conduzir. Este talento acaba por fazer dele um gateway driver, mas é a documentação e dramatização daqueles momentos em que estamos a 1000 à hora, em que estamos no mindset certo, em que alguém nos interrompe produtividade e/ou genialidade, que nos fazem rever na personagem – todos temos uma soundtrack da vida, mais ou menos produzida e curada, mas temo-la. Seja a bezana das Queimas de 2007 ao som dos Xutos, seja o “Eye of the Tiger” do ginásio, seja o Bonobo para completar identidades gráficas nas directas lá no estúdio, seja o Skrillex para bater umas linhas de code à última da hora, todos temos flow. O Baby é driver, connoisseur de música e apaixonado.

High Rise

Uma adaptação do livro de J.G. Ballard, um ensaio sócio-económico sarcástico, do mesmo nome, este filme conta a história de uma uma torre de condomínio idealizada pelo Arquitecto – o seu legado, o seu troféu, a sua carreira – numa Inglaterra pré-Thatcher.  A torre comporta uma escola, um mercado e tudo com o propósito de se isolar do mundo exterior. Uma comunidade, romantizamos de início. No seu desenrolar, os habitantes deparam-se com uns quantos problemas (falhas de manutenção e serviço, etc.) e ‘cegamente’ regrados pelos seus impulsos e preconceitos criam conflito e instalam o caos entre si.

As máscaras caem, os vizinhos deixam de ser vizinhos e a torre acaba por entrar numa guerra de classes (alta, média e baixa) patrocinada por sexo, violência e um q.b. daquele sarcasmo a que os brits já nos habituaram.

Esta guerra é hiperbolicamente ilustrada na penthouse do Arquitecto onde cocktails e passeios a cavalo o distraem do colapso do seu trabalho, da sua ideia, da sua identidade, do seu legado – o seu falhanço.

A Fábrica do Nada

Entre o ensaio e o musical, A Fábrica de Nada é um filme de Pedro Pinho que conta a história de um grupo de operários que tenta salvaguardar os seus postos de trabalho e evitar o encerramento de uma fábrica através de um sistema de autogestão colectiva. Quando se apercebem que a administração está a roubar máquinas e matérias-primas, os trabalhadores decidem organizar-se para impedir o deslocamento da produção. Como forma de retaliação, enquanto decorrem as negociações para os despedimentos, os patrões obrigam-nos a permanecer nos seus postos, sem nada que fazer.

São Jorge

Jorge é um pugilista desempregado que tenta a todo o custo encontrar formas de garantir o sustento da mulher e do filho. Quando ela, emigrante brasileira, decide fugir da crise financeira que se instalou em Portugal e regressar ao seu país, Jorge fica sem saber o que fazer. Como último recurso, aceita um trabalho numa empresa de cobrança de dívidas. Usando o seu corpo e forma física, passa a intimidar pessoas que, tal como ele, se encontram numa situação desesperada. De um momento para o outro, vê-se a atravessar a fronteira da moralidade e a entrar num mundo de criminalidade gerada pela pobreza e pela falta de alternativas. É um filme realista e extraordinariamente honesto, em que Nuno Lopes interpreta sem mácula um Jorge que somos capazes de reconhecer e identificar. Sem ser minimamente moralista, nem propriamente conclusivo, é um registo que vale pela genuinidade no seu todo resultado da forma orgânica como foi desenvolvido. Ao longo do filme cruzam-se deixas com improvisos, actores com desconhecidos, ficção com retratos da realidade.

Ladri di Biciclette

A história passa-se logo após a Segunda Guerra Mundial, numa Itália destruída. Ricci consegue um emprego depois de tanto o desejar. Mas como na maioria das vezes, esse trabalho tem um problema iminente. O seu emprego é colar cartazes na rua, mas para tal tem de ter uma bicicleta. Ricci e a sua mulher Maria conseguem dinheiro para comprar uma, através da penhora de uma série de objectos pessoais. Tudo em prol do emprego. A bicicleta é-lhe roubada no primeiro dia de trabalho, segue-se a luta de Ricci para a encontrar, numa aventura acompanhada pelo filho. O filme de 1948 de Vittorio De Sica foi vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e caracteriza-se por ter um elenco composto por actores não profissionais.

The Pursuit of Happyness

Pai solteiro e com um filho, Chris Gardner tenta usar a sua habilidade de vendedor para conseguir um emprego melhor. Consegue um estágio numa importante corretora de acções, um sonho antigo. Mas o estágio não é remunerado, e Chris tem de sobreviver, sempre com a esperança de que, no fim do estágio, seja contratado e possa, assim, ter um futuro promissor na empresa. No meio de tantos problemas, Chris é despejado e passa a morar com o filho em abrigos, estações de comboio e casas de banho públicas, sem perder a compostura ou a ideia de que melhores dias virão. Filme de domingo à tarde, de fazer chorar as pedras da calçada, mais ainda porque se trata de uma história verídica.

Glengarry Glen Ross

Baseado numa peça de teatro homónima, o filme mostra quatro vendedores submetidos a um método radical de “motivação” na empresa onde trabalham. Ao fim de uma semana de treino intensivo, os dois homens que fecharem mais negócios ficam na empresa, os outros dois serão demitidos. O drama explora a ambiguidade dos programas de motivação nas empresas, os problemas da gestão de Recursos Humanos e como a competição interna pode chegar até às últimas consequências, sobretudo em clima de recessão económica. O filme de James Foley data de 1992 e tem um elenco de luxo, entre Al Pacino, Alec Baldwin, Jack Lemmon, Kevin Spacey e Ed Harris.

Metropolis

O filme alemão de ficção científica lançado em 1927 pelo realizador Fritz Lang viajou 100 anos no tempo para nos mostrar um 2026 bastante futurista – ainda que a preto e branco – com problemas do passado. É nesse ano que, segundo o argumento, a população mundial se divide em duas classes: a elite dominante e a classe operária; esta segunda condenada desde a infância a habitar os subsolos, escravos das monstruosas máquinas que controlam a Metropolis, a cidade futurista. Quando o filho do criador da Metropolis se apaixona por Maria, a líder e profeta da classe trabalhadora, que prevê a vinda de um salvador para mediar a diferença os dois grupos, tem início a luta de classes mais simbólica alguma vez registada pelo cinema.

São Paulo S.A.

Este filme de 1965, do realizador Luis Sérgio Person, foca-se no Brasil entre 1957 e 1961. Mostra-nos a vida e trajectória de Carlos, um homem normal, que pertence à classe média. Guiando-se pelas oportunidades que lhe vão sendo dadas pela sociedade, é contratado por uma grande empresa. Depois desse emprego surge outro, numa fábrica de peças de automóvel, da qual acaba por se tornar gerente. A certa altura vê-se na pele de um chefe de família, que trabalha muito, ganha bem, mas vive infeliz. Sem um projecto de vida ou perspectivas de se opor à condição que rejeita, só lhe resta fugir.

Se para além destas recomendações te interessa explorar ainda mais o tema, fica sabendo que existe um indice online que lhe é totalmente dedicado. The Labor Films Database é um site que apesar de não ser constantemente actualizado reúne alguns dos filmes que se debruçam sobre esta temática tão importante e por vezes desprezada.