Júlio Pomar: precisamos de mais 90 anos para o perceber

Afastou-se pouco depois do activismo político concreto e objectivo mas, que podemos chamar a tamanha criatividade irredutível concentrada num homem só, num país triste.

Júlio Pomar morte
Foto de Hugo Pereira via Flickr

Homem dos seus 92 anos, e que recordamos sempre na memória com sorriso único e genuíno – nota reforçada pelo descuido dos seus cabelos longos –, Júlio Pomar faleceu esta terça-feira, 22 de Maio, no Hospital da Luz, em Lisboa.

O pintor, escultor, artista-pleno até ao fim dos seus dias, partiu deixando para trás um legado que seguramente demorará anos a ser assimilado por todas as gerações vindouras e que é nosso dever divulgar e ajudar a compreender. Dedicado desde os anos 1940, Júlio Pomar fez do pincel arma enquanto em Portugal era preciso resistir ao Estado Novo. Afastou-se pouco depois do activismo político concreto e objectivo mas, que podemos chamar a tamanha criatividade irredutível concentrada num homem só, num país triste.

Fez da sua criatividade forma de expressão e consequência das suas ideias e da exploração de várias estéticas um exercício de liberdade em excelência. Escreveu poesia sobre quadros e fez quadros sobre poemas, explorou as nuances da líbido noutra série de peças e opôs-se com mestria ao anti-climático regime de Salazar. Falando desta postura anti-Estado Novo, Júlio Pomar viu os seus painéis pintados no Cinema Batalha tapados pela censura do regime – obras que poderão agora ser recuperadas na renovação daquele espaço, em curso.

Júlio Pomar no Cinema Batalha

De resto, Pomar, passou por quase todas as vertentes que a norma consagrou como artísticas: poesia, pintura e escultura. Nos círculos mediáticos acabou por ficar sobejamente conhecido pelos retratos que ia fazendo, com destaque óbvio para alguns que a memória colectiva não olvida como o de Mário Soares ou Fernando Pessoa.

Painel de azulejos de Júlio Pomar retratando Fernando Pessoa

Pelo mundo, viajou e viveu por Espanha e Paris, depois de um curto período de prisão. Nessa fase continuou a reinventar-se aproveitando a inspiração que colhia em França e Espanha junto de grandes nomes da época. Em Portugal, passou os últimos anos, teve direito a algumas retrospectivas e ao aproveitamentos das suas peças noutros contextos – por exemplo, nas belíssimas ilustrações na estação de metro de Alto dos Moinhos, em Lisboa.

A amplitude e magnitude total do artista tornam mais difícil a sua sintetização e torna por isso indispensável uma vistoria das suas obras. Um dos sítios online onde o podemos fazer é no acervo digital da Fundação Calouste Gulbenkian, onde podemos várias peças de vários momentos da carreira do artista. Outro local é no museu do Foz Côa.

Praia – 1953
Campinos – 1963
4 Arlequins
Mulheres na Praia – 1950
Le Luxe – 1979