Alemã quer pôr lisboetas a beber em copos reutilizáveis para acabar com os descartáveis

“É uma questão de sensibilização, de chamada de atenção para um problema que está aqui e diz respeito a todos. É importante que se perceba isso e haja uma verdadeira mudança de mentalidade nesta matéria.”

Lisboa copos reutilizáveis

Bianca Beyer, 33 anos, alemã a viver em Lisboa há quatro anos, tem na aparente indiferença de muita gente relativamente ao impacto ambiental do uso generalizado de embalagens descartáveis de plástico algo que lhe tira o sono. E não vai descansar enquanto não sentir que se caminha para a erradicação de tal hábito. Para atingir o objectivo, fundou a associação Lisboa Limpa e com ela lançou agora uma campanha para substituir o uso dos copos descartáveis por outros reutilizáveis de plástico. O projecto está em teste em cinco estabelecimentos de Lisboa e, em breve, deverá ser alargado a outros. “Isto tem pernas para andar”, diz a activista ambiental. Cada copo custa um euro, permite múltiplas utilizações e pode ser reembolsado nos estabelecimentos aderentes.

O caminho foi iniciado por Bianca pouco tempo depois de ter chegado à capital portuguesa. A assistente social, que trabalhava na Escola Alemã, em Telheiras, lembra-se de ter ficado espantada com as enormes quantidades de lixo causado pelo uso de copos de plástico descartáveis nas ruas da cidade, sobretudo associados aos consumos de cerveja nas zonas de diversão nocturna. “Isto do lixo e do plástico é algo que sempre mexeu comigo”, confessa, lembrando a orientação que sempre teve por parte da mãe para evitar os consumos excessivos e o desperdício. “O plástico começou a ser utilizado de forma intensiva a partir dos anos 50 e o seu uso tem aumentado de forma exponencial. A cada segundo que passa, há 20 mil garrafas de plástico a ser vendidas. E o pior é que muito desse plástico não é sequer reciclado. O plástico está aqui connosco, não desaparece, e vai para os oceanos”, alerta a ambientalista, que aposta tudo numa mudança generalizada de mentalidade e de comportamentos.

Enquanto isso não acontece, há que fazer algo. E Bianca Beyer não só não perde tempo à espera que outros façam, como quer ajudar a acelerar a transformação de paradigma. Depois de ter criado a Lisboa Limpa, em Setembro de 2015, com a qual começou a desenvolver actividades pedagógicas junto dos mais novos, tentando sensibilizá-los para a necessidade de combater o desperdício, pensou atacar de frente o problema dos copos descartáveis. Vinda de um país em que o consumo de cerveja é hábito profundamente enraizado, acabou por ir lá buscar a ideia para a sua proposta, mas olhando para o que se faz com outra bebida: o café. Na cidade de Freiburg, foi implementado há alguns anos um sistema de copos reutilizáveis, que se tem demonstrado popular. Algo que Bianca pensa poder replicar aqui com os copos para a cerveja. “Aqui, há muita gente a beber cerveja na rua, usando copos de plástico, mas na Alemanha isso não é tão comum”, constata, antes de lamentar a aparente indiferença da comunidade em relação ao problema.

“As grandes cervejeiras fomentam a proliferação do plástico, porque o tornam disponível de forma generalizada. Ou seja, não custa quase nada e, depois, o que acontece é que estas grandes quantidades de lixo vão para o chão e são recolhidas como lixo que vai ser queimado. Ou seja, o preço do copo de plástico não corresponde ao seu custo ambiental, afirma a activista, lamentando ainda que a muitos dos jovens que saem à noite não lhes ocorram as consequências do uso imoderado de copos descartáveis – cujo custo unitário rondará os dois cêntimos, já com os impostos, sabe O Corvo. “Não têm consciência”, lamenta, ao evocar os momentos em que tem saído pela noite lisboeta para promover a iniciativa dos copos reutilizáveis da Lisboa Limpa e alertar quem com ela se cruza para os enormes danos ecológicos resultantes do uso de recipientes descartáveis. Há, por isso, um imenso caminho a percorrer até que se abandonem tais hábitos. O ideal, considera, seria a proibição de copos de plástico descartáveis ou a “criação de taxas gigantescas”, defende. Opção tomada já em várias cidades do mundo. E mesmo no nosso país, já há quem se esteja mexer nesse sentido, como a freguesia Cascais e Estoril, que acaba de anunciar planos para abolir palhinhas, sacos e garrafas de plástico.

Na verdade, a acção da Lisboa Limpa corre em paralelo aos planos da Câmara Municipal de Lisboa, revelados em Janeiro passado para “encontrar soluções que possam levar ao abandono desta solução para venda de líquidos na cidade”. A alteração legislativa tem estado a ser estudada em conjunto pela autarquia e pela administração central e dá seguimento a uma recomendação aprovada, em Novembro de 2017, na Assembleia Municipal de Lisboa, na qual se salientava que “a utilização de copos de plástico pelos estabelecimentos de diversão nocturna como bares e discotecas consiste numa transferência do risco ambiental da esfera destes privados para a esfera pública, pois a utilização de copos descartáveis reduz os custos da actividade, reduzindo simultaneamente o valor arrecadado em sede de Taxa de Resíduos (calculada em função do consumo de água)”.

Enquanto não chegam tais mudanças no quadro legal, iniciativas como a criada pela Lisboa Limpa vão tentando contribuir para alterar o paradigma. Por agora, são apenas cinco os locais aderentes: o café Quatro Estações, no Largo de São Paulo; a associação Crew Hassan, nos Anjos; a Associação Renovar a Mouraria; o quiosque do Melhor Bolo de Chocolate do Mundo, na Avenida da Liberdade; e o Café Dias, em Alcântara. São dois meses de fase de testes, durante a qual deverão ainda aderir outros estabelecimentos. “Isto só funciona bem se houver novos cafés e bares associados. As pessoas não devem ter medo de experimentar, os copos são laváveis e perfeitamente higiénicos. Valem um euro e são reembolsáveis, em qualquer altura. Os que estão partidos são substituídos. Não queremos fazer dinheiro com isto, queremos é acabar com o lixo e os custos ambientais a ele associados”, garante Bianca Beyer, que tem investido parte das suas poupanças neste projecto.

Texto de Samuel Alemão

(Nota: este texto foi originalmente publicado n’O Corvo, jornal digital dedicado à cidade de Lisboa, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)