Da preguiça à felicidade: 12 livros sobre a questão do trabalho

Livros de todos os estilos e géneros que ajudam a reflectir a impactante questão do trabalho.

A Feira do Livro de Lisboa arrancou mas nem por isso queremos deixar de te dar conselhos de literatura sobre o nosso tema do mês de Maio – o Trabalho. Assim, juntamos o útil ao agradável e damos-te uma série de sugestões de livros de todos os estilos e géneros que ajudam a reflectir sobre esta impactante questão, a tempo de os poderes procurar nesse encontro das letras onde se encontram tantas pérolas.

The Antidote: Happiness For People Who Can’t Stand Positive Thinking, Oliver Burkman

Colunista do The Guardian, Oliver Burkman traz-nos o livro de auto-ajuda que até os mais pessimistas aceitam ler. Numa época em que a busca da felicidade parece a maior das obrigações, em que termos como mindfulness e outros que tais chegam a nós a velocidade louca, diária, Burkman apresenta-nos um caminho alternativo para a felicidade e o bem estar, um que abraça todo o stress de uma vida louca de trabalho e a ansiedade de conjugar carreira com vida pessoal. O livro fala sobre o falhanço, o pessimismo, a insegurança e a incerteza – termos que estamos mecanicamente habituados a tentar evitar. Uma maravilhosa síntese de bom senso, que serve tanto para o pessimista que se recusa sequer a abrir o olho para a luz do fim do túnel como para o “self-help-junkie”, em jeito de desintoxicação de uma felicidade desmesurada e impossível de manter diariamente.

The Bell Jar, Sylvia Plath

Esther Greenwood consegue um estágio numa revista de moda em Nova Iorque. Exultante, acredita que começará a chegar mais perto do seu sonho de ser escritora e de uma vida independente, fora das lides domésticas a que se sente fatalmente destinada. Mas entre dramas de trabalho e vida, começa a ver a vida fugir do seu próprio controlo. Um relato da procura de independência profissional e criativa, das peripécias da vida de estagiário numa grande empresa numa Nova Iorque dos anos 50 e, acima de tudo, do peso e da condição de viver com uma doença mental. The Bell Jar aborda também a questão da identidade socialmente aceitável, examinando a busca de Esther para forjar a sua própria identidade enquanto mulher independente, destacando também problemas com uma sociedade patriarcal opressiva na América de meados do século XX.

As Vinhas da Ira, John Steinbeck

Um dos mais famosos e ovacionados livros de Steinbeck, vencedor do Prémio Nobel de 1962 e clássico escritor americano, que tratou temos como a injustiça, o destino e o fatalismo como ninguém. Relata a história de uma família pobre de Oklahoma que é forçada a abandonar as terras que ocupou durante décadas pela seca, por problemas económicos e pela mecanização agrícola que tornou obsoleto o trabalho manual de aragem e plantação da terra. Um clássico incontornável da literatura americana que se debruça sobre os efeitos da grande depressão de 1929, do trabalho manual, do amor à terra e a espiritualidade que dele advém e de uma identidade pessoal e familiar de gerações.

O Direito à Preguiça, Paul Lafargue

“Numa era em que a religião do trabalho exige dos seus fiéis crescentes sacríficos laborais em troca na santa comunidade de cidadãos honestas ler O Direito à preguiça é cometer um salutar pecado capital.” Assim versa a lauda posterior à capa deste pequeno livro, numa nota que não podia ser mais sincera e desafiante. O Direito à Preguiça é uma obra de Paul Lafargue, genro de Karl Marx, editada em 1880 mas que ganha importância com a crescente onda produtiva que inunda a sociedade. É uma autêntica pedrada no charco, agitando as águas ao reclamar o direito de parar.

Utopia Para Realistas, Rutger Bregman

Um dos mais promissores e influentes jovem filósofos, o holandês Rutger Bregman, debita em forma de receita/doutrina a razão e justificação para que nós, os já convencidos de que um futuro livre dos podres de hoje em dia (desigualdade, populismo, etc) é possível, consigamos distribuir e fazer compreender utopias aos demais ‘formatados’ e convencê-los que utopia é direcção, é sonho realizável. Lembra-nos que muitos dos grandes marcos progressivos da civilização (ex: o fim da escravidão, a democracia,  etc) já foram considerados fantasia utópicas. Fala-nos de cenas como o Rendimento Básico Universal, da semana de trabalho de 15 horas, dum mundo sem fronteiras, da automação do trabalho, entre outras coisas. Desafia-nos a reconsiderar as rotinas e empregos que por muitas vezes nem gostamos e nos roubam dias inteiros, as coisas que compramos e não precisamos. Um must-read fácil, sem pretensão e estimulante.

Now You See It and Other Essays on Design, Michael Bierut

Michael Bierut, um dos “olímpicos” da indústria criativa e parceiro da icónica Pentagram, compila neste livro mais de cinquenta ensaios curtos, inteligentes e acessíveis de uma variedade fascinante e enriquecedora, indo da história, prática e processo do design, ao design urbano e arquitetura, à cultura pop através da perspectiva de quem trabalha tudo isso e mais. Relata-nos em primeira pessoa os altos e baixos do que é trabalhar (n)a indústria criativa, o que se aprende e desaprende – o ciclo virtuoso da vida criativa, fail harder, estar errado e ser feliz com isso – e o que se sabe e não sabe. A jeito de teasers, o Michael toca na sua experiência enquanto designer do logótipo e da campanha presidencial de Hillary Clinton em 2016; e no seu próprio mentor, o lendário Massimo Vignelli.

Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han

O livro Sociedade do Cansaço de Byung-Chul Han faz o diagnóstico da violência neuronal contemporânea a que o trabalhador é exposto quotidianamente e os efeitos nocivos que tal exposição produz no corpo social, extirpado de um sistema imunológico capaz de o defender da progressão patológica de uma condição servilmente auto induzida. Um ensaio sagaz que procura reativar a nossa capacidade de saber dizer não aos imperativos categóricos  alto rendimento.

Pastoralia, George Saunders

É um pequeno livro de contos que nos entretém sem desafio, que nos faz questionar os vícios da sociedade contemporânea com um sorriso na cara, enquanto nos perdemos nos universos suavemente distópicos criados por George Saunders. Pastoralia reúne 6 contos publicados originalmente na revista New Yorker que sem cair em radicalismos inócuos ou em críticas objectivas e incisivas revela uma espécie de olhar do futuro sobre os nossos tempos. Não é uma distopia profética, nem um mau presságio – é, como reforça no prefácio Rogério Casanova, responsável pela tradução, a constatação de que os piores cenários já se verificam, só ainda não parámos para o constatar.

A Educação de um Estoico, Barão de Teive

É uma pérola pouco conhecida, contudo, mais acessível do que é normal. A Educação de um Estoico ou A Impossibilidade de Fazer Arte Auperior ou A Profissão do Improdutor é mais uma peça no complexo puzzle que é a vida e obra de Fernando Pessoa. E uma peça pouco conhecida. A edição em Portugal é de Richard Zenit, um dos especialistas na obra do poeta que aqui se dispôs à difícil tarefa de reunir e conferir sentido a um conjunto de textos mais ou menos soltos. O resultado é uma visão do poeta a que raramente acedemos, próxima do que lemos no Livro do Desassossego, mas onde se sente a dúvida de um dos maiores poetas portugueses que morreu sem perceber o estatuto que atingiu. Uma reflexão sobre a relação entre o tempo e o valor, demonstrando a sua assincronia.

O Capital, Afonso Cruz

A humanidade acredita que os livros infantis são pensados para crianças. Ora, para nós, isso é um mito urbano, sobretudo se falarmos dos livros do Afonso Cruz. Passar os olhos por este livro provoca-nos o pensamento para coisas como: “quem é que decide a nossa vida: o trabalho ou nós?”“o que podemos fazer para que a economia seja algo sustentável?”“quem produz, o quê e em que condições?”.

A Arte Subtil de Saber Dizer que se F*da, Mark Manson

O título é apelativo – o conteúdo, ainda mais. Encontram o livro nas prateleiras do desenvolvimento pessoal, mas não se enganem: não se fala aqui de “quão fabuloso és” e de que “basta acreditares em ti para isso acontecer”. E o autor também não nos aconselha a ignorar, a ser indiferentes perante as coisas. As histórias partilhadas reforçam a ideia de que a realidade é algo que, tantas vezes, nos dá murros no estômago. Não serve para pensar, exclusivamente, em trabalho, mas sim na nossa vida, na tomada de decisão, naquilo que toleramos ou não.

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Pensar, Depressa e Devagar, Daniel Kahneman

É um livro para se ler sem pressas. A cada vinte páginas preciso parar, para pensar, para voltar atrás e organizar o meu próprio pensamento. Não sendo um livro sobre trabalho, ensina-nos a lidar com as fraquezas e forças do pensar. E precisamos de pensar todos os dias, até no trabalho! Nota para o facto não-casual de ser a segunda vez que te aconselhamos esta obra, como mostra do peso da nossa recomendação.

Menções honrosas: Arte da Guerra, Sun-Tzu; Príncipe, Nicolau Maquiavel; Todos os Nomes, José Saramago; 1984, George Orwell; A Metamorfose, Franz Kafka.