Mark Zuckerberg no Parlamento Europeu para nos mostrar para que este serve

O passo seguinte e lógico é continuarmos a exigir mais audições do género ao fundador do Facebook.

Mark Zuckerberg

Zuckerberg começou a audição com um pequeno monólogo. Tentou arrancar com um sorriso e uma frase simpática sobre estar de volta à Europa mas sem retorno voltou a ficar-se no essencial. No discurso inicial, voltou a sublinhar a missão do Facebook de conectar pessoas ao longo do globo.

O monólogo inicial de Mark Zuckerberg

Num discurso que começa a soar repetido, Zuckerberg deu outra vez destaque à ferramenta de Safety Check, apontando-a como um bom exemplo de utilização do Facebook mas não se ficou por aí, mencionando, em abstracto, os refugiados que usam a rede social para se manter ligadas a casa e, em concreto, os 80 milhões de pequenos negócios que usam o serviço. Foi também no monologo que enquadrou problemas como a desinformação, a utilização indevida de dados por parte de programadores e, a possível interferência estrangeira em eleições – sim, o fundador do Facebook disse “estrangeira”.

Zuckerberg pediu desculpa e apontou a narrativa para as soluções em que estão a investir – por exemplo, a contratação de mais pessoal para o departamento de segurança da empresa –, antes de se dedicar a explicar o caso que o trouxe aqui, os Cambridge Analytica Files que bem conhecemos, bem como, as medidas adoptadas para prevenir que semelhante volte a acontecer. Neste ponto, Mark, destacou os pilares do RGPD que diz subscrever por completo bem como a ferramenta para apagar o histórico de dados do Facebook.

Sobre as eleições, tópico seguinte na sua prelecção, Mark Zuckerberg voltou a ser repetitivo face ao que já disse em comunicados e no Congresso norte-americano, assumindo a inércia durante 2016 e referindo sempre e quase exclusivamente a influência russa na eleição de Donald Trump – como que fazendo deste caso o bode expiatório para uma falência evidente e potencial perigosa do sistema que criou e destacando sempre o seu lado utilitário. Neste caso, Zuckerberg dirigiu-se aos interlocutores questionando-os retoricamente, sem parar nem demandar resposta, se não tinha facilitado o contacto com os eleitores. Agradeceu e deu-se início às perguntas em série.

Mark Zuckerberg

Did you miss the meeting between Parliament's leaders and Facebook CEO Mark Zuckerberg? Watch our highlights and the full recording here ➡️ http://epfacebook.eu/qebF

Publicado por European Parliament em Terça-feira, 22 de Maio de 2018

As perguntas do Parlamento Europeu

A primeira, complexa e composta, mostrou bem como este Parlamento difere do norte-americano. Um membro do People’s Party Europeu agradeceu os elogios ao RPGD, mas não fugiu ao tom crítico e parecia conduzir a discussão para uma área de interesse – questionando sobre o monopólio de Zuckerberg e afins. O modelo de questões foi, neste caso, o grande obstáculo para uma discussão rica e interactiva, isto porque os parlamentares europeus expunham as suas questões em série ao fim da qual Zuckerberg dava as suas respostas, formato que lhe deu espaço para se evadir às principais questões e remeter explicações para mais tarde e… por escrito.

Ainda assim houve espaço para bons momentos e discussão acesa. Os principais sinais de novidade vieram sobretudo e surpreendentemente dos legisladores europeu que tão poucas vezes nos prestámos a ouvir. Transversal aos vários grupos parlamentares representados na discussão é a ideia de que o Facebook precisa, das duas uma, de ser regulado ou de assumir severas responsabilidades, algo não tão claro no homólogo norte-americano que, como sabemos, tanto difere.

“É triste que hoje em dia o único competidor [do Facebook] seja o Instagram, que também faz parte do seu império”, começou por dizer Manfred Weber, líder do European People’s Party, que não foi de todo o mais contundente mas abriu o flanco para as questões sobre o Facebook enquanto plataforma única e sem concorrência. “De onde me sento parece que surgem concorrentes todos os dias”, respondeu Zuckerberg.

Seguiram-se outras questões pertinentes e respostas, de certo modo, insuficientes. Por exemplo, Udo Bullman, do Progressive Alliance of Socialists and Democrats, revelou a sua preocupação com as eleições de 2019 na Europa — preocupação essa que Zuckerberg foi incapaz de rebater totalmente: “Encaramos adversários sofisticados e bem financiados que estão constantemente a evoluir. Mas estamos comprometidos em continuar a investir e a melhor as nossas técnicas para garantir que estamos à sua frente.”

Os momentos mais acesos, por assim dizer, ficaram a cargo de deputados com tradição mediática no hemiciclo Europeu. Guy Verhofstadt, líder da Aliança Liberal Democrática Europeia, foi assertivo e muito incisivo, começou por dizer a Mark Zuckerberg que aparenta não ter controlo sobre a empresa, que na última década já pediu “15 ou 16 vezes desculpa” e que “sempre que algo de mau acontece ou há algum problema com o Facebook, [o Mark] encara a realidade, vem pedir desculpa e dizer que vai corrigir”. “No ano passado foram duas vezes, este ano já vai em 3 e ainda vamos em Maio”, disse o liberal que sublinhando essa sua base defendeu regulação pública para a rede social (sim, leram bem, liberal e regulação). Para enquadrar a situação e estabelecer um paralelo, Guy comparou as redes sociais aos bancos que durante anos afirmaram-se (ou julgaram-se) capazes da auto-regulação.

Nota ainda para as críticas do belga ao formato da audição subscritas por vários membros da reunião, que criticaram Zuckerberg por a sua recusa em ter uma audição realmente pública e aberta não se coadunar com os valores de transparência que diz priorizar. Nigel Farage foi o outro dos mediáticos a fazer furor na audição de ontem, ressonando as dúvidas do Senado norte-americano e perguntando a Mark Zuckerberg sobre o “liberal bias” da sua plataforma, queixando-se de ter perdido audiência desde Janeiro, algo a que Zuckerberg respondeu reiterando que os filtros não são baseados em ideias políticas.

🔴 LIVE: Parliament’s leaders are discussing with Facebook CEO Mark Zuckerberg about data privacy

Publicado por European Parliament em Terça-feira, 22 de Maio de 2018

Em conclusão

No fundo, Mark Zuckerberg veio ao Parlamento Europeu mas o mais surpreendente que ouvimos veio da boca dos parlamentares. Weber no principio começou por enunciar uma ideia única e praticamente inédita que nos dá indícios sobre os legisladores encarregues do assunto, perguntando ao fundador do Facebook se algum dia pensou tornar públicos algoritmos tão complexos. Esta questão que do ponto de vista comercial pode – e parece – ser desastrosa, seria a assunção de facto da política de transparência única, mostrando aos utilizadores não só o conteúdo mas também como este é seleccionado até chegar até eles.

A audição de Zuckerberg perante os vários representantes da política europeia se tinha como objectivo escrutinar o jovem multi-milionário não obteve resultados surpreendentes. Por outro lado, permitiu ouvir preocupações e declarações que habitualmente só vemos severamente editadas ou cortadas, ganhando uma maior noção da discussão que se tem naquele espaço de decisão europeu sobre o qual o nosso interesse raramente é desperto. No fundo, e como nota o título, o director executivo da gigante rede social azul lembrou-nos mais para que serve o Parlamento Europeu em questões como estas do que nos deu pistas do que pode resolver os problemas.

O passo seguinte e lógico é continuarmos a exigir mais audições do género a Mark Zuckerberg, para que não volte a esquecer o seu papel social e, de caminho, que nos debrucemos com mais atenção sobre o Parlamento Europeu, especialmente num momento em que as listas para as próximas Eleições Europeias – a 26 de Maio – começam a ser apresentadas e começam a encontrar algumas lacunas indesejáveis como a impossibilidade de apresentação de listas transnacionais.

I'm in Europe this week meeting with government and business leaders about the future of technology and how we can make…

Publicado por Mark Zuckerberg em Terça-feira, 22 de Maio de 2018