Vida de médico: quais as condições de trabalho em Portugal?

Neste artigo vamos tentar descortinar alguns dos motivos pelos quais os médicos continuam a fazer greve, com exemplos da vida real, narrados na primeira pessoa.

Actualmente muitos se questionam acerca dos motivos pelos quais os médicos ainda fazem greve. Não recebem “balúrdios”? Não é verdade que andam cansados porque trabalham muitas horas no privado e poucas no público?

A grande maioria da população portuguesa continua a achar que os médicos são uma classe extremamente privilegiada, com orçamentos exorbitantes. Mas será que a verdade é mesmo esta?

Nos últimos meses muito tem sido o” burburinho” em redor da classe médica e da greve convocada pelos sindicatos. Neste artigo vamos tentar descortinar alguns dos motivos pelos quais os médicos continuam a fazer greve, com exemplos da vida real, narrados na primeira pessoa… por uma médica. 

Revisão das carreiras médicas e descongelamento da progressão da carreira

Este é um ponto que penso que a maior parte dos funcionários públicos entenderá, pois trata-se de uma situação transversal à maioria das carreiras públicas.

É natural que ao longo dos anos de trabalho o profissional vá adquirindo cada vez mais competências, executando tarefas de responsabilidade acrescida. Tal como para as outras carreiras públicas, também a classe médica acredita que quem é competente deve ser recompensando, sendo a progressão dentro da sua carreira motivo de empenho e motivação de todos os profissionais.

Na classe médica, esta questão de progressão na carreira adquire uma importância particular uma vez que, qualquer médico especialista, tem necessariamente que possuir um orientador durante os seus anos de internato da especialidade. Se não temos médicos que evoluam, se diferenciem e progridem, como podemos ter “professores” para os mais novos?

Redução das horas de trabalho suplementar anual e limite de 12 horas de trabalho semanal em serviço de urgência

Este é um dos pontos fulcrais de descontentamento dos médicos de hoje em dia e que enfrenta maior desconhecimento e compreensão por parte do resto da população.

A realização de 12 horas (ou mais) de trabalho no serviço de urgência, também conhecido na classe médica como “banco”, é sem dúvida uma actividade que requer muito empenho, dedicação e espírito de sacrifício. Arrisco-me a dizer que só quem já fez “bancos” consegue perceber o que quero dizer com “muito empenho, dedicação e (sobretudo) espírito de sacrifício”.

Tal como em muitas outras profissões, existem determinadas tarefas e serviços que exigem uma atenção e empenho redobrados, motivo pelo qual devem ser realizados por profissionais competentes e em posse de todas as suas faculdades. Como será isto possível com as actuais condições de trabalho?

Já imaginaram o que seria um professor a dar aulas durante 24 horas seguidas, muitas vezes sem parar sequer para almoçar ou jantar? Ou como seria o atendimento ao público se o trabalhador por trás do balcão estivesse a trabalhar há mais de 20 horas? Ou que artigo estaria eu a escrever se estivesse na hora 23 de um turno de 24 horas sem parar?

Todas estas realidades nos fazem imaginar desfechos, no mínimo, maus. Agora imaginem tudo isto sabendo que o profissional de que estamos a falar é um médico. Quantos de vós gostariam de ter um familiar a ser observado numa situação de urgência pelo médico que está na hora 23 de um turno de 24 horas? Acredito que muito poucos… E situações destas ocorrem actualmente no Serviço Nacional de Saúde, numa base regular.

É por este motivo que os “bancos” são um dos pontos fundamentais de descontentamento na classe médica. Porque os médicos são pessoas como as outras, sendo que a única diferença, é que um erro no seu trabalho não termina apenas com uma aula secante, um cliente insatisfeito ou um artigo de muito má qualidade.

Abertura de mais vagas para o internato da especialidade

Este é um dos pontos sobre o qual posso falar com mais confiança e conhecimento de causa: a conclusão do curso de medicina e a posterior fase de entrada para o internato da especialidade.

Na verdade, qualquer jovem que pretenda ser médico, tem de passar por longos anos de aprendizagem e estudo, começando com a faculdade. Este percurso inicia-se na faculdade com 6 anos de curso. Após estes 6 anos, o jovem médico é colocado num hospital público onde realiza o chamado “Internato do Ano Comum”. Neste internato passará por vários serviços e contactará com várias especialidades. Durante este período terá também que se preparar para uma prova de seriação nacional, conhecida por muitos como o “Harrison”. Este exame pretende seriar os jovens médicos, por forma a que estes possam escolher a especialidade que pretendem seguir. Até há alguns anos, este exame era utilizado para aquilo que realmente deveria continuar a servir: seriar. Infelizmente, hoje em dia tal já não acontece. Se antigamente era garantido que qualquer médico que terminasse o chamado “Ano Comum” continuaria a sua especialização e formação, não é isso que ocorre actualmente. Todos os anos, mais e mais médicos indiferenciados ficam sem possibilidade de continuar a sua formação, sendo que muitos deles acabam por decidir repetir o exame, enquanto outros decidem emigrar.

Face a esta realidade, já tive a oportunidade de ouvir várias pessoas dizer: “Acontece o mesmo que acontece com os outros cursos! Acabam o curso e ficam sem trabalho. Em que é que eles são mais que os outros?” A diferença é que o terminar do “Ano Comum” não corresponde ao chamado “final do curso”. Hoje em dia, um médico indiferenciado é um médico que não pode concorrer de igual forma para o mercado de trabalho. Muitas pessoas acham que um médico indiferenciado é um médico de família, mas essa não é a realidade. A Medicina Geral e Familiar também é ela uma especialidade. Sendo assim, cada vez mais, existe um número crescente de jovens nos quais o estado investiu durante 6 anos (porque as propinas não cobrem, de todo, o custo de formação de um médico) e que chegam a meio da sua formação e vêem-se forçados a parar, sem rumo definido. É como um jovem engenheiro que após 4 anos dos 5 de curso ouve dizer que agora não há vaga para ele tirar o seu último ano de formação. É uma situação inadmissível e incomportável que todos os portugueses continuam a sustentar.

Alguns destes jovens médicos que vêem a sua formação interrompida, vêem-se forçados a lançar-se no mercado de trabalho fazendo algumas horas no serviço de urgências (um dos únicos trabalhos que podem fazer com a sua actual formação) o que leva à degradação progressiva do Sistema Nacional de Saúde. Em vez de permitirmos a continuação da formação de médicos especialistas, estamos a cair numa zona cinzenta cada vez maior de médicos indiferenciados com grande prejuízo para o sistema de saúde nacional.

Sendo assim, muito há ainda a fazer para a melhoria das condições de trabalho na classe dos médicos com posterior melhoria do nosso Sistema Nacional de Saúde. As condições de trabalho adquirem um papel central, não só na classe médica como em todas as outras classes, para que o trabalho realizado seja de qualidade. Resta-nos continuar a lutar para que estas condições evoluam e o trabalho passe a ser para todos um privilégio e um prazer.