O muro de Trump não divide só humanos. É também uma barreira para animais e plantas

É sabido que a Natureza não é o alvo das barreiras políticas. No entanto, com a sua construção, também os animais vão sofrer as suas consequências.

Nos dias que correm, discute-se, do outro lado do mundo, a construção ou não de uma barreira física na fronteira entre os EUA e o México. Alguns dos projectos apresentam muros com fendas para os guardas verem o outro lado. Outros, um topo liso para impossibilitar a amarração de cordas. Uns são de ferro maciço, outros preferem outra constituição.

Independentemente dos seus materiais, os muros são construídos para manter as pessoas longe. Mas o que é que acontece ao mundo natural, quando abraçamos projectos destes?

Actualmente existem cerca de mil quilómetros de barreira física na fronteira EUA-México. Os restantes 2 mil quilómetros livres continuam a permitir a movimentação de várias espécies entre os dois países, com o crescimento de uma grande biodiversidade nestes troços. É exactamente nesta região de fronteira política que se encontra uma grande variedade de anfíbios, répteis e mamíferos que, com os novos desenvolvimentos, se encontra agora ameaçada.

“Terra de ninguém”

No caso do Rio Grand Valley, no Texas, a construção prevista de barreiras terá de se desviar da fronteira natural – o rio – para território americano. Significa isto que, todo este novo fortificado vai atravessar várias zonas protegidas, criando quase 6500 hectares de área não acessível por humanos: uma “Terra de ninguém”.

Esta questão coloca um conjunto de problemas muito particular para a movimentação de animais.

Cheias

O problema imediato da existência de hectares de “Terra de ninguém” prende-se com as cheias. No Rio Grand Valley existem regiões pantanosas que se enchem com a subida dos níveis de água. Quando isto acontece, répteis e mamíferos têm que se mover para terra segura. Ao criarmos uma barreira impermeável, criamos também uma verdadeira armadilha para estes animais, que ficam encurralados entre o muro e o rio, sem escapatória possível.

Redução da diversidade genética

A longo prazo, estruturas que limitam a migração de animais, podem levar a consequências muito graves para a sua sobrevivência. Quando uma população é separada por uma barreira física, a sua carga genética é dividida. Este fenómeno leva a uma redução da diversidade genética em cada uma das populações, culminando num aumento da consanguinidade e num elevado risco de extinção da espécie.

E se existirem pequenas passagens ao longo do muro?

Alguns indivíduos defendem que a construção de muros com pequenas passagens vai permitir que os animais atravessem esta barreira. Contudo, este tipo de projectos não leva em conta o comportamento animal.

Tipicamente, para construir uma barreira é necessário limpar a vegetação da área envolvente por forma a construir estradas onde a brigada fronteiriça possa circular e as “aberturas” são comummente equipadas com equipamentos de iluminação muito forte para facilitar a visualização de humanos que se aproximem. Para animais acostumados a deslocar-se durante a noite, camuflados na vegetação, este tipo de ambiente não é propriamente apelativo.

Os humanos facilmente conseguem descobrir formas de atravessar, pular ou contornar uma fronteira, os animais, por sua vez, não o conseguem. É sabido que a Natureza não é o alvo das barreiras políticas. No entanto, com a sua construção, também os animais vão sofrer as suas consequências.