Não leias este artigo sentado

Sentar é o novo fumar? A título da nossa presente edição, dedicada ao tema "Trabalho", convidamos-te debruçar sobre o espaço, o local de trabalho.

Foto de Annie Spratt via Unsplash

Numa altura em que mais da metade da população mundial vive em cidades, onde a indústria (entenda-se manufactura e produção) está a ser robotizada, as cidades são cada vez mais “percebidas como impulsionadoras de crescimento económico, cultura e inovação, resultando em novas necessidades e restrições de espaço” (Gensler, 2013).

Sentar é o novo fumar?

O salto tecnológico sentido nos últimos 30 anos levou-nos de uma economia industrial para uma economia de conhecimento e serviço, afectando radicalmente o como, quando e onde do trabalho.

 

As cidades e a migração (de pessoas, culturas, ideias, competências, tecnologia, etc) produziram novos conceitos de tempo e espaço, tais como o freelancing e o co-working. Nasceram assim novos locais de trabalho, tendo como principal alvo o criativo e o empresário – espaços com a individualidade, a sustentabilidade e a acima de tudo o bem estar na agenda.

 

Contudo, algumas das práticas de hoje ainda “murmuram” os processos da era industrial (Swanberg, 2010). A procura por um espaço (um ponto “X” no mapa) e o fluxo interminável de trabalho levou os humanos, outrora criaturas nómadas, a ficarem sentados horas a fio… em cubículos, ao computador. Nos últimos anos, esse sedentarismo foi colocado em perspectiva e até culpado por questões que vão da saúde à produtividade ou à incapacidade social. Problema que tem vindo a ser abordado de forma diferente por diversas empresas – adopta-se novos produtos como as standing desks ou reestrutura-se por completo o design dos escritórios.

Proponho que analisemos o que acredito ser uma inovação radical, potencialmente com aplicações e implicações em toda a estratosfera de uma empresa (interna e externamente): o “o fim do sentar”.

 

 

O fim do sentar

Nós, humanos, somos uma espécie bípede; aliás, foi isso que impulsionou a nossa marcha evolutiva em comparação com os nossos ancestrais de quatro patas. A evolução deu-nos a capacidade de “andar alto”, permitiu-nos aperfeiçoar não apenas nossas habilidades de caça, mas também nosso estilo de vida nómada e social.

No entanto, ao passarmos de um estilo de vida activo e agrícola para um sedentário, de escritórios e transporte automatizado vimos todos os aspectos de nosso dia-a-dia, desde nossas refeições até ao nosso entretenimento, adaptarem-se com uma prioridade em mente: o conforto.

Foto de Viktor Forgacs via Unsplash

Esta busca pelo conforto através do design influenciou-nos, enquanto humanos, e “calcificou” este nosso comportamento sedentário (preguiçoso?!). Seja em casa, nos nossos trajectos, no trabalho, até mesmo no nosso tempo de lazer (teatros, estádios etc.), descansamos nossos pés e sentamos nossas nádegas – somos sempre ‘convidados’ a nos sentarmos.

Arte e ciência juntas

Quando o arquitecto-chefe do governo holandês desafiou designers a criarem os planos para o escritório do futuro, o estúdio de design experimental holandês RAAAF (Rietveld Architecture-Art Affordances) e a artista Barbara Visser propuseram em conjunto The End of Sitting, instalação a ser apresentada, testada e estudada no espaço de exposições de Amsterdão, Looiersgracht 60.

Foto via RAAAF

“Uma instalação na encruzilhada das artes visuais, arquitectura, filosofia e ciência empírica” ​​(RAAAF)

O projecto começou com a premissa de que passar longas horas – por vezes, o dia todo “preso” à secretária – aumenta a vulnerabilidade a uma série de problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, cancro, diabetes e obesidade. Este princípio levou Erik Rietveld, sócio-fundador da RAAAF, a questionar o ambiente tradicional de escritório e seu mobiliário mais inerente, a cadeira e a escrivaninha.

“Cadeiras e mesas são redesenhadas mais de um milhão de vezes. Mas e se não houvessem mais cadeiras e se oferecessem às pessoas posições de trabalho? E se tivéssemos um ambiente sem cadeiras e mesas, e não pensássemos nesses arquétipos, mas em termos de actividades?”

Foto via RAAAF

O objectivo da colaboração centrou-se assim no desenvolvimento de um local de trabalho conceptual “do qual a cadeira e a mesa não são mais pontos de partida inquestionáveis” (RAAAF, 2014). O processo criativo e a pesquisa de uma solução eficaz passaram pelo estudo da postura do corpo humano e foco no design ergonómico. Conscientes de que o conceito de posições se afastava radicalmente do ambiente de trabalho convencional, a equipa decidiu não enveredar pela criação de estações de trabalho disjuntas (cubículos, secretarias, objectos, de móveis, etc.) e, em vez disso, optar por desenvolver todo um ambiente de trabalho.

A equipa rapidamente se apercebeu que parte da resposta seria o supported standing (de pé mas apoiado) – esta inclinação vertical “exercita” os músculos passivamente, o suficiente para evitar a queda de enzimas que queimam gordura que ocorre durante longos períodos em que se senta.

Foto via RAAAF

O resultado foi um espaço preenchido com uma estrutura tridimensional labiríntica, construída com contraplacado e um material secreto não revelado mas “tão duro como o betão” e que fazia um icebergue, na qual o trabalhador era encorajado a explorar e encontrar o seu lugar, com liberdade para “vaguear” e mudar de posição ao longo do dia. A tridimensionalidade e geometria do espaço criam uma série de opções posicionais virtualmente infinitas – ora meio de pé, ora inclinado, ora empoleirado, ora deitado, etc –, de forma a incentivar o gasto de energia e actividade física, promovendo assim o bem-estar e a socialização.

Vemos-nos assim imersos num puzzle de “superfícies angulares, recessos e degraus que transformam cada objecto em uma peça de mobília ambígua que os usuários são convidados a interagir como bem entenderem” (Dezeen, 2014). Este desenvolvimento permite-nos responder naturalmente ao espaço enquanto ligados às ferramentas do escritório moderno, como computadores e tablets. O espaço, além disso, tem a capacidade não apenas de enquadrar o trabalho em grupo, mas de isolar quem procura um espaço só seu nos cantos mais cavernosos e ocultos da estrutura.

Aquando a sua idealização e criação, não foram estabelecidas quaisquer restrições ao uso do espaço de modo a entender o “conforto” de um prisma diferente e mais pessoal. Os participantes desta experiência – desde designers a filósofos, artistas a escritores – foram monitorizados por uma equipa da Universidade de Groningen, liderada pelo psicólogo Dr. Rob Withagen, que com a ajuda de câmaras, estudaram e compararam os níveis de movimento (gasto de energia, etc) e produtividade com trabalhadores de escritórios tradicionais. Segundo o especialista, os participantes relataram que se sentiram mais energéticos e espera que esta experiência inspire uma mudança radical na forma como projectamos o local de trabalho do futuro (Dunne, 2014).

Uma questão de inovação

Até à data as soluções mais próximas e mainstream são as standing desks, solução estudada e ligada ao conceito que aqui apresento. Estas produzidas em massa por “empresas de catálogo” como a IKEA e a Steelcase estão lentamente entrando nos escritórios do século XXI.

Mas nada radical a este ponto. O que ambiciono e tento evangelizar é um espaço que atenda às necessidade de que nós, Homo Sapiens, temos em ser activos fisica, mental, espiritual e socialmente e dentro de um ambiente que actualmente nos suprime e nos força a… esperar sentado.

Um artigo recente intitulado “A New Set of Metrics for High-Performance Workspaces” enfatiza a importância de “configurações de trabalho que privilegiem a actividade e que não a função dos cubículos”, permitindo que as pessoas se movimentem. Esta promoção do bem-estar e do bem-estar no trabalho é, mais do que nunca possível, visto que temos a “mobilidade tecnológica para fazê-lo mais livremente com conectividade e telefones sem restrições” (Miciunas, 2014).

Como Verganti argumenta, “novos produtos – especialmente aqueles que são radicalmente inovadores – não estão em conformidade com os padrões existentes. Tentam impor novos” (Verganti, 23). Esse é exactamente o caso de The End of Sitting como proposta para o local de trabalho do futuro. Verganti acrescenta que a inovação radical cria todo um novo regime sócio-cultural, enquanto a inovação incremental (isto é, de melhoria apenas) ocorre dentro de um regime sócio-cultural já existente (Verganti, 54).

Assim, projectos como o The End of Sitting não seguem tendências. Tendências existem no presente. Quando o objectivo é a inovação radical, pesquisam-se “novas possibilidades que sejam consistentes com a evolução dos fenómenos sócio-culturais”, isso é “dar um passo atrás e investigar a evolução da sociedade, economia, cultura, arte, ciência e tecnologia” (Verganti, 54). Portanto, The End of Sitting está a tentar romper com a estrutura de design tradicional do local de trabalho, usando a evolução da boa prática de estudar o passado para criar tendências futuras.

Certamente há aspectos relativos ao futuro do local de trabalho que permanecem sem solução, como a proporção entre espaço para colaboração e espaço para foco. Um inquérito feito entre 2010 e 2012 e publicado em 2013 (o Gensler 2013 U.S. Survey), dava conta que o metro quadrado médio por pessoa baixou de 21 para 16, prevendo chegar a 9 metros quadrados em 2017. Além disso, 53% dos trabalhadores admitiu ter-se distraído com os outros quando tentavam concentrar-se; e 77% dos inquéritos disse preferir silêncio quando o foco é necessário (Gensler, 2013), dados que talvez questionem completamente a tendência do escritório de plano aberto.