Do storytelling ao story yelling – para lembrar que nem tudo dá uma boa história online

Pessoas e marcas querem partilhar tudo, a todo o momento. Do telling para o yelling é um passo muito pequeno. Gritamos, mas sem aumentar o volume da voz.

O “era uma vez…” dos nossos tempos (também) acontece nas mais diversas redes sociais. E de dupla forma: pelos formatos que as plataformas disponibilizam (as Stories, esse conteúdo importado do querido snapchat) e também pelo conteúdo em si. No LinkedIn, no Facebook, nos blogs: tudo é palco para histórias. Todos temos histórias para contar. Somos todos storytellers #sqn.

A ansiedade versus o slow content

Por via do algoritmo e afins vemo-nos obrigados a comunicar mais. Na verdade, não é uma obrigação, é mais uma ilusão. Cria-se a ideia de que temos que estar sempre a comunicar para sermos ouvidos; pode ser que, desta maneira, consigamos captar 4 segundos da atenção do nosso seguidor para aquilo estamos a dizer. Perdão, a contar. As histórias não se dizem, contam-se – verdade?

Pessoas e marcas querem partilhar tudo, a todo o momento. Do telling para o yelling é um passo muito pequeno. Gritamos, mas sem aumentar o volume da voz. Gritamos com a partilha constante de tudo – e mais um par de botas. E os seguidores que se aguentem – ou então, que deixem de seguir (oh não!).

O público e o privado

E de repente tudo é uma história: falamos do passarinho que nos acordou de manhã e de como isso se revelou uma verdadeira epifania. Depois há o acidente que vimos no IC19 e que nos fez lembrar como a vida é preciosa e yada yada yada. Não se esqueçam de mencionar o momento em que o café se acabou lá em casa.

The thing is: as nossas vidas não são assim tão interessantes. Pelo menos, a cada momento que passa. Pelo menos, para os outros.

Abrimos portas e janelas para a nossa vida. E depois ficamos admirados pois parece que a malta sabe tudo sobre a nossa vida: “eu sei, vi no teu instagram” ou “ah, está bem, li esse tweet”.

Qualidade e relevância: yes, we can!

Sejamos nós pessoas ou marcas (ou pessoas que querem ser marcas, vá) há um pormenor (mas grande, em tamanho XXL) fundamental: a qualidade bate a quantidade. Confiem em mim: partilhar tudo e a toda a hora não é solução para ter mais seguidores. E ter mais seguidores também não é solução, por si só. Uma comunidade não é melhor por ser maior. Aliás, um número grande pode ser difícil de gerir, em termos de respostas e de interacções que essa comunidade vai esperar. E se espera e não tem esse feedback, desanima. Daí a caregar no unfollow é um gesto simples.

Carregar no stop quando se insiste na vertigem do storytelling a toda hora, na partilha constante, na cegueira pelo número de visualizações ou de RT’s – esse já é um gesto mais complicado. Depois de inflamado, o ego precisa de tempo para voltar ao normal.

Já para não falar do ser e do estar nas diferentes redes sociais

Costumo dizer que as redes sociais são aquilo que as pessoas fazem delas. É por isso que lemos histórias de cancro no LinkedIn ou vemos gatinhos no twitter (hey, toda a gente sabe que o lugar dos gatinhos é no Facebook!). Há um propósito em cada uma das redes: estar em todas é fácil, basta criar perfis. Ser, de acordo com o propósito de cada uma delas, respirar de acordo com a sua estrutura: isso já é outra história.

Creio que tudo não passa de uma confusão momentânea e que em breve tudo voltará ao normal. Não foi isso que acabou de acontecer com a Eurovisão? O Salvador Sobral foi só uma anomalia, um outlier. Um gatinho que apareceu no twitter, por engano. Uma história sobre cancro que apareceu no linkedin, quando deveria estar num blog. Com “Toy”, da Netta Barzilai, já se pode ouvir a harmonia das esferas celestes (cof, cof, cof).

Esperemos que isso também acontece ao (ab)uso do storytelling por essas redes foras.