A Tropicália e o seu quarteto fantástico fazem 50 anos

"Chegamos então a 1968 e à maioridade de um movimento criado por jovens que não se fica pela música. Estende-se também ao cinema, artes plásticas e ao teatro."

Ao contrário de outros géneros que conseguimos datar a partir de determinado álbum ou acontecimento, a Tropicália não faz 50 anos num dia específico, mas decidimos recordá-la como um acontecimento essencialmente de 1968, ano em que são editados os discos mais importantes: Tropicália/Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tropicália ou Panis et Circencis.

Algum contexto: 1967 terminara e com ele o sonho hippie. 68 acorda com um rock progressivo e orquestral. O Brasil enfrenta uma ditadura militar desde 1964, altura em que o então presidente João Goulart é deposto. Entra o General Costa e Silva. Paralelamente, o Cinema Novo continua a explorar ideias que fogem à matriz Hollywoodiana (à qual se opõe) e fecha a sua 2.ª fase (1964-68), com obras essenciais como O Bravo Guerreiro (Gustavo Dahl) e Terra em Transe (Glauber Rocha), este último tido como basilar para o movimento tropicalista. Para melhor entender o Cinema Novo, vale a pena ler este documento.

 

Já definimos a discografia essencial Tropicalista, mas temos que referir dois momentos aos quais vamos situar na pré-Tropicália, que também fazem parte de dois desses desses registos. Chamam-se “Alegria, Alegria”, canção de Caetano Veloso, e “Domingo  no Parque”, de Gilberto Gil, ambas claramente influenciadas pelo rock britânico, com Beatles à cabeça. Esta referência será assumida mais tarde, embora tanto Caetano como Gil tenham deixado claro que, numa fase inicial, não conheciam os Fab Four assim tão bem. Estas canções são apresentadas no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, momento essencial para perceber o confronto que existiu entre a MPB, a chamada música brasileira, e a “jovem guarda” (Nelson Motta dixit), a música apelidada de jovem. O confronto vai ao extremo de ser convocado uma manifestação de 400 pessoas anti-guitarra elétrica em tempos de ditadura militar,  manifesto anti-americano, anti-imperialismo. E, pasme-se, Gilberto Gil participa para mais tarde se mostrar arrependido. Regressando novamente ao festival e à rivalidade estimulada pela TV Record, quão irónico é ver Sérgio Ricardo, ele que se apresenta com uma interpretação de “Beto bom de bola”, incorporando a tal música MBP aka “música brasileira” ser vaiado e sair sem fechar a canção e com a atitude mais rock ‘n’ roll do evento? Partiu o violão e atirou-o para a plateia, qual Pete Townshend dos The Who.

 

Chegamos então a 1968 e à maioridade de um movimento criado por jovens que não se fica pela música. Estende-se também ao cinema (Glauber Rocha, como já vimos, mas também Ruy Guerra, Pedro Andrade, Carlos Diegues, Paulo César Saraceni e Luiz Carlos Barreto são mencionados como agentes tropicalistas), artes plásticas (Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e Ivan Serpa) e ao teatro (José Celso). O que os guia é uma fuga ao nacionalismo e do velho fazer novo. O foco é o Brasil, mas o Brasil enquanto esponja que incorpora as suas influências rurais e urbanas, com Oswald de Andrade como referência base, mas também Godard, os Beatles, os Jefferpson Airplane, Mahalia Jackson, Mothers of Inventon, Jorge Ben, John Lee Hooker, Pink Floyd, The Doors e James Brown. Os contantes estrangeirismos comprovam toda essa multiculturalidade. Tom Zé sintetizou-o: “sou brasileiro, mas também forasteiro.”

Embora os intervenientes neguem a conotação política como génese do movimento, o contexto político também é indissociável: Maio de 68, a Passeata dos Cem Mil no Rio e a Decretação do Al 5 (já em dezembro), para além, claro, da ditadura inerente. Quando cai “É Proíbido Proíbir”(slogan do Maio de 68), de Caetano Veloso mais Mutantes, já poucas dúvidas sobram.

O movimento conta com vários nomes: Torquato Neto, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes, Rogério Duprat e Tom Zé, mas são Gil e Veloso, sempre próximos, as peças-chave. Rogério Duprat tentou sintetizar a relação entre os dois: “Gil era o profeta, Caetano o apóstolo”. Mas é injusto subjugar um perante o outro, ainda para mais sendo tão diferentes. Caetano parece pegar muito nas ideias dos Beatles (a capa estilo Rubber Soul, os títulos e referências a nomes de mulher, as referências psicadélicas), mas o músico foi oferecendo outros caminhos em entrevistas e na autobiografia: James Brown e Janis Jopin. “[Joplin] simbolizava liberdade, aventura e rebeldia”, coisas caras ao movimento. Sobre o tão citado Sgt. Peppers disse que foi a celebração do movimento psicadélico, enquanto o seu registo é o arranque do género, com tudo o que este “arranque” tem de relativo. Na edição de 1968 do Festival da TV Record, pouco tempo antes de ser preso, causa polémica, mas desta vez não é só pelo som que oferece (“É Proibido Proibir”), mas também pelo discurso inflamado. Já Gil declara-se fã de Hendrix e de Jorge Ben. À imagem de Caetano é também influenciado pelo cinema: “Domingo no Parque” é pensada como se se tratasse de um filme. Godard. Banda de Pífanos de Caruaru mais Beatles é o seu manifesto de intenções. Dos quatro discos, o que terá chegado a mais gente, terá sido o homónimo d’Os Mutantes, tantas vezes apelidade de Sgt. Peppers brasileiro, mas tão mais que isso. Casaram de forma perfeita o tal ponto de partida lá no passado (bossa, samba) que aponta para uma ideia de modernidade (psicadelismo). O melhor que se pode dizer para reforçar esta ideia é que, mesmo que fosse cantado em inglês, desconfiarimos que teria sido criado por brasileiros. Em “Panis et Circencis”, a banda haveria de confessar ser inspirada em “Penny Lane”. De John Lennon a Beck e Kurt Cobain, o mundo nunca mais esqueceu o Brasil. Por fim, Tropicália ou Panis et Circencis, disco-compilação editado por toda a malta que tocou a “Tropicália”, ou seja, Caetano, Gal Costa, Gil, Nara Leão, Os Mutantes, Tom Zé, Canipam, Torquato Neto e Rogério Duprat. Curiosamente sai depois de todos os outros registos como que sintetizando o movimento. É tão importante que faz parte das “leituras obrigatórias” para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Gil e Veloso acabaram o ano presos e, simbolicamente, o movimento terá terminado o seu período de ouro aí.