Auto-Sabotagem? Nerve aproveitou o pretexto e fez o contrário

"Isto é só o processo de filtragem", certo, Nerve?

Ines Sousa Vieira/Shifter

É altura de pânico à conta dos exames. Portugal acabou de empatar com Espanha. A comum letargia de ir a um gig a uma sexta-feira à noite a pagar 10 paus. Nem isso impediu uma sala praticamente cheia no Lux Frágil, invocada, como se se tratasse de um culto, para ver ao vivo a Auto-sabotagem de Nerve. Calma, é um EP. Talvez algo mais, mas isso fica entre linhas.

Uma quase meia-hora depois do suposto “pontapé de boas-vindas”, Notwan corta com a playlist-default-de-espera-de-concerto e lá bombardeiam decibéis pelo sistema de som para aquecer e pôr a mexer a malta (na minha opinião, talvez altos demais, mas a responsabilidade pertence à casa; falemos do gig). É todo um momento para percebermos que Nerve faz questão de vir bem acompanhado, quando não sozinho. Rapidamente a música se torna um suspense, deixando o público a salivar pela aparição do “Não-Rapper” (se rappa dá-te a coça).

Entra a sample de Lenda…Vocês abram aí caminho, por favor… (…)” e o anti-herói é recebido com salvas de uivos, tal e qual o habitat natural criado ao longo da sua discografia. Sem dar muito tempo para respirar, Nerve ataca de seguida com Monstro Social, uma favorita dos fãs, como dá para perceber pela adesão a cantar o refrão. O concerto começou forte, projectado com animações no fundo, contando com outras amostras do Trabalho & Conhaque, passando por Nós & Laços, Grainsbourg e Subtítulo. Houve também oportunidade para passar pelo EP Água do Bongo, com a faixa homónima e a Pobre de Mim. Não houve espaço para saudosismos e o Eu Não das Palavras Troco a Ordem ficou de fora, porque a festa tinha outro foco. Mas já lá vamos.

 

Dava para perceber pelo vulto que circundava pelo escuro atrás do palco que ainda havia um convidado surpresa. Era facilmente perceptível que se tratava de Mike El Nite, com o qual o Funeral foi feito poucos minutos depois. Topa-se à légua a irmandade entre os dois colegas de carreira e se não estivéssemos atentos à letra, pareceria uma celebração. Props trocados e ânimos levantados, é altura de fazer erguer o novo registo.

Ainda antes de se dar a Auto-Sabotagem ao vivo, Nerve declama a última parte de ’98, salientando a linha “(…)Mas sei dedilhar um clitóris que nem um Paredes na guitarra / E também não sei como se toca”, entrando de seguida uma sample de guitarra portuguesa, num live debut de uma nova canção chamada Ingrato – um registo fora do habitual do repertório, esticando o leque musical e comprovando a flexibilidade artística de Nerve. Como havia dito antes por redes sociais, não havemos de a ouvir tão cedo assim, mas é suficiente para despreocupar os fãs com a ideia de que a Auto-Sabotagem não é de todo o seu fim.

Como foi? Na íntegra. De uma ponta à outra. É ouvir o EP. É perguntar à malta que foi ver. É ver as instastories e construir memórias coleccionadas. É ver a malta boquiaberta a venerar a tragédia no máximo. É “observar o peixinho a ficar grande”. É pagar o bilhete e ir ao próximo. Foi assim tão bom.

Fotografias: Ines Sousa Vieira/Shifter