Extrema-direita em Itália contra migrantes, ciganos… e o escritor de Gomorra

Salvini, líder da extrema-direita, sugeriu que a escolta policial feita ao jornalista e escritor Saviano não se justificava e que “é justo perceber como é gasto o dinheiro dos italianos”.

Depois de ter ameaçado a comunidade cigana não-italiana, mas residente naquele país, a última declaração, das muitas polémicas, de Matteo Salvini, ministro do Interior italiano, foi uma mensagem contra um dos mais activos e reconhecidos críticos da política anti-imigração italiana, Roberto Saviano, o autor da série Gomorra. Salvini, líder da extrema-direita, sugeriu que a escolta policial feita ao jornalista e escritor Saviano não se justificava e que “é justo perceber como é gasto o dinheiro dos italianos”.

“Serão as entidades competentes a avaliar se [Saviano] corre algum risco, embora me pareça que passa muito tempo no estrangeiro”, disse Salvini ao canal Rai Tre. Em resposta, o escritor considera que o dirigente máximo da Liga se trata de uma ameaça ao Estado de direito italiano e acaba por lhe chamar “palhaço”, num vídeo publicado no Facebook“Pensas que me agrada viver sob escolta há mais de 11 anos?”, perguntou Roberto Saviano no vídeo, direccionando a questão ao ministro do Interior.

Roberto Saviano non le manda a dire a Matteo Salvini

Publicado por Strill.it em Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

Depois de publicar o livro Gomorra em 2006, uma obra baseada no tempo que passou infiltrado na máfia napolitana, o jornalista de investigação tem vindo a receber várias ameaças. Saviano é um dos, pelo menos, cem jornalistas italianos e investigadores a receber segurança policial. 

Roberto Saviano tornou-se um dos mais duros críticos dos acordos anti-imigração feitos entre o ministro do Partido Democrata Marco Minniti com a Líbia, de forma a impedir a chegada de imigrantes à Itália e as declarações de Salvini parecem mais do que outra coisa uma vingança por essa posição.

atteo Salvini, para além de elogiar o fecho dos portões italianos aos refugiados que aí chegam, quer começar uma “limpeza” étnica no país. Nos últimos cinco anos, cerca de 600 mil imigrantes chegaram à Itália e, desses, 500 mil ainda se encontra em situação irregular. A solução de Salvini é simples: expulsá-los. A primeira acção de reconhecimento desta posição foi o impedir do desembarque do MS Aquarius, que levava a bordo 629 requerente de asilo resgatados no Mediterrâneo.

O programa da Salvini está, assim, a tornar-se no programa do Governo Italiano, com cunho marcadamente xenófobo. Não fosse a recusa imediata do seu parceiro de coligação, o ministro do Interior teria já posto em prática a sua proposta de realizar um censo à comunidade cigana a residir no país, com o fim de deportar todos os ciganos “não-italianos”.