Finalmente, chegou o álbum de estreia de Jorja Smith

São 12 faixas de música jazz com alma e qualidade intemporal e, curiosamente, sem colaborações.

Jorja Smith álbum

Esperávamos por isto há muito tempo. Dois anos e meio depois de se ter estreado com “Blue Lights”, Jorja Smith apresenta-nos Lost & Found, o seu primeiro álbum. Porque se impõem sempre as perguntas sobre a escolha do nome de um primeiro trabalho a solo, Jorja explica que a ideia lhe veio de uma vez que se perdeu em Londres. Da experiência desse dia, aplicada à sua vida de hoje, com 20 anos, Jorja refere: “Eu nunca me encontrei realmente no álbum, e ainda me sinto muito perdida neste mundo. Mas eu sei que quero cantar e escrever músicas. Eu sei definitivamente o que quero fazer.” 

Todos estes lost & founds da britânica contribuem para nos deixar a nós totalmente perdidos nas suas certezas. Numa entrevista à Crack Magazine, a cantora sublinha que reconhece o presente que lhe foi dado e que sabe o que quer fazer com ele. Esse presente – a sua voz irrepreensível – é a corda (sedosa e matura) que segura as 12 canções que compõem a sua estreia.

Os dois anos passados entre o lançamento da sua primeira música e o do primeiro álbum foram tudo menos chatos. Jorja tem tido uma carreira repleta de singles sonantes, covers orelhudos e colaborações curiosas, suficientes para se ter erguido como uma espécie de menina de ouro da cena musical britânica – Jorja foi a vencedora dos Brit Critics’ Choice Awards 2018. Se a isso juntarmos um culto online fervoroso que depressa espalhou a sua fama para o outro lado do mundo e já a levou a festivais como o Coachella ou a marcar presença em alguns dos talk shows norte-americanos mais famosos, será Jorja a personificação da receita para o sucesso contemporâneo?

“Jorja é o tipo de mulher que nos arrebata a alma”, “Esta mulher é uma deusa”, “Nunca pensei gostar tanto de alguém como gosto da Jorja Smith” são três exemplos representativos do tipo de comentários aos vídeos de YouTube da artista, entre os outros que se focam na qualidade da sua pele. Não é assim tão estranho ler este tipo de hipérboles nas redes sociais, mas Jorja é daquelas artistas raras que justificam os exageros. Há uma qualidade na sua música que não parece actual – a sua voz profundamente ressonante seria a banda sonora perfeita de um bar de jazz renascentista em Harlem, da disco soul dos anos 70 ou dos tempos áureos do UK Garage – se pensarmos na sua colaboração com Preditah “On My Mind”.

Aliás, as músicas que só ficámos a conhecer com o lançamento do álbum encaixam-se exactamente onde singles como “Teenage Fantasy”, “Where Did I Go?” ou “February 3rd” nos deixaram. Sente-se a reminiscência de Amy Winehouse e são fáceis de apurar os interesses e preocupações de uma jovem britânica de Walsall, West Midlands, uma pequena cidade industrial a mais de duas horas de Londres. A maior parte do álbum dissolve-se numa mancha de R&B não demasiado rápido nem demasiado lento (midtempo, não é?). As letras vão desde a de “Blue Lights”, sobre dois jovens negros que temem o som de uma sirene da polícia quando não fizeram nada de errado, que assume uma questão social de forma nada forçada, ao mais recorrente tema do mundo (que é também o mais recorrente na sua música). Mas Jorja arranjou a forma ideal de falar de amor: é a forma como consegue ser expressiva sem recorrer a ginásticas vocais que a faz sobressair.

Uma das maiores surpresas de Lost & Found é a falta da presença de features, para uma cantora que em tão pouco tempo de carreira fez tantas e tão grandes. De Drake (que a pôs nas bocas do mundo), a Kendrick Lamar que a chamou como responsável pela banda sonora de Black Panther, a Stormzy que, ao seu lado levou “Let Me Down” às rádios de todo o mundo, a Kali Uchis que a convidou para “Tyrant” e é combustível à sua fama online, Jorja tem feito o seu caminho rodeada de amigos. Numa entrevista para a Apple Music diz que foi uma decisão consciente e que, sendo o seu álbum de estreia, queria que fosse só seu, brincando que assim fica com material de sobra para lançar um segundo trabalho em breve.

Podes ouvir um dos melhores lançamentos do ano até agora (e arriscaríamos dizer, até Dezembro) no Spotify, enquanto limpas as lágrimas de uma visita cancelada ao Super Bock Super Rock.

Destaque para três músicas:

  • “3rd February”: xilofones discretos e padrões de bateria delicada, “3rd February” tem uma vibe meio nocturna inegável, cheia da quantidade perfeita da sensualidade de Jorja e letras conflituosas.
  • “Lifeboats (Freestyle)”: uma das faixas mais libertadoras do álbum, “Lifeboats (Freestyle)” mostra a habilidade de Smith para o rap e para entrar e sair de géneros. Sobre riqueza, impostos e a futilidade do dinheiro, é tão revigorante como “Lost & Found”.
  • “Goodbyes”: esta balada de guitarra no final do disco é uma canção pura e carregada de arrependimentos sobre a perda da vida e sobre não ter a possibilidade de dizer adeus às pessoas de quem gostamos. Por mais gasto que esse caminho conceptual esteja, Jorja encontra originalidade no seu tom e letras penetrantes.