Porque não trocar estas redes sociais por algo construtivo?

Em suma, pode dizer-se que o problema (se é que permitem chamar-lhe problema) das redes sociais não é a sua existência mas as dinâmicas de valorização que as hierarquizam sem estabelecer uma relação entre construtividade e valor.

“No princípio era o verbo” é o começo do Evangelho de João e de uma música dos Da Weasel mas serve sempre com pretexto para uma reflexão profunda de como as coisas evoluíram e no caso da Internet não é excepção. Se no princípio existe O ou UM verbo, “navegar”, agora é bem mais do que isso e a força desse verbo perdeu-se na imensidão de utilizações que lhe arranjámos e na centralização de todas essas acções em seis ou sete portais de três ou quatro empresas.

Assim, o espaço que se desbravava e que pela lei da navegação, os internautas iam edificando, tornando habitável para os demais, deixou de se expandir. A Internet, à imagem do universo, em eterna expansão, viu o seu ritmo de crescimento desacelerar, à medida que os utilizadores se perdiam e fechavam em ciclos nos mesmos locais, desprezando O verbo.

Se outrora a Internet, este mundo paralelo criado pela ligação de diferentes pontos do mundo real, era especialmente apelativo para criativos reivindicativos de um modo diferente de ser e um site diferente para estar, o surgimento e aperfeiçoamento dos redes sociais acabou por se revelar contra a natureza do terreno onde cresceram. Esquecido o verbo e o seu signo construtivo, acomodámo-nos às palavras e aos seus desígnios, pessoais e expositivos, reduzindo grande parte da utilização da web a publicações efémeras e muitas delas fúteis.

Notícias falsas, câmaras de eco…

Embora se possa sempre argumentar sobre o carácter subjectivo destas publicações, facto é que sem ter uma utilidade propriamente construtiva que vá para além do consumo e produção de conteúdo em formatos tipificados, as redes sociais chegaram e tomaram grande parte do tempo livre, agora em vias de extinção. Com elas chegaram uma série de agradáveis conquistas, sobretudo a nível individual, como prova por exemplo a facilidade que hoje temos em nos mantermos próximos de família ou amigos distantes, mas também uma série de problemas e estes a um nível mais abrangente, social.

Falamos das sobejamente conhecidas notícias falsas, mas de outras problemáticas menos mediatizadas, como as câmaras de eco ou as espirais cognitivas em que entramos, reduzindo progressiva e exponencialmente o leque de temáticas e a abrangência de opiniões com que somos confrontados todos os dias. Problemas não só identificáveis pela vivência individual como corroborados por experiências sociais amplas e inequívocas, reveladoras de como a nossa entrega a redes sociais curadas por algoritmos agudiza e reforça preconceitos e crenças mostrando geral e quase exclusivamente artigos, publicações e imagens nesse sentido.

Notícias falsas, câmaras de eco…

Se estas problemáticas parecem inevitáveis, como a ditadura da existência online traduzida em expressões populares como “se existe está no Google”, “e aconteceu está no YouTube” ou “se não tens Facebook, não existes”, é imperativo re-afirmar que não, que todas estas normas são construções sociais frágeis, falíveis e sobretudo resultado de complexas estratégias de marketing e design, que em nada substituem as dinâmicas da vida real, por muito que a sua velocidade, facilidade e normalidade o faça parecer.

Pode ser arriscado e aparentemente refutável com exemplos pontuais, mas não é de todo errado dizer que não estamos a viver mais, simplesmente estamos a contentar-nos com menos. A ilustrar este ponto está, por exemplo, o surgimento de novas profissões e carreiras, altamente lucrativas, em que o principal mérito é a adequação ao algoritmo ou a exploração da ambiguidade entre vida real e ficção comercial (sim, youtubers; sim, instagrammers) .

Em suma, pode dizer-se que o problema (se é que permitem chamar-lhe problema) das redes sociais não é a sua existência mas as dinâmicas de valorização que as hierarquizam sem estabelecer uma relação entre construtividade e valor. Os likes, loves, retweets ou shares servem antes como mecânicas que, mais do que democráticas, reforçam tendências simplistas e populistas. E as evidências são mais do que muitas, podendo por exemplo ilustrar-se numa comparação simples dentro das redes sociais. Basta, por exemplo, pensarmos em comparação entre as várias redes sociais (ou medias sociais, termo mais correcto) que a sua utilidade, popularidade e facilidade da reflexão evidencia-se.

Wikipédia, Open Library ou GitHub são redes que se baseiam no mesmo principio colaborativo de que Instagram, Facebook ou Twitter e que evidenciam a discrepância que se promoveu na Internet entre a construtividade e a interactividade. Comparando o valor gerado entre a conta de Instagram mais seguida ou o maior produtor de artigos no Wikipédia, a diferença é muito evidente. Se todos, em algum momento das nossas vidas – especialmente académica –, usufruímos da imensidão de conteúdo que alguém disponibilizou online, o mais provável é que nem tenhamos dado ao autor desse pedaço de Internet – tão voluntário como qualquer “publicador” de Instagram.

Esta prática – que se tornou normal – promove, por força do exemplo do sucesso (dos elogios aos seguidores, aos likes e por aí adiante), uma desvalorização tácita daquela que pode ser uma postura mais construtiva da web, de criação ou digitalização de conteúdo único. Se no Instagram podemos partilhar uma fotografia da capa do livro que estamos a ler, gerando apenas o significado simbólico para o indivíduo que o partilha – e raramente algo mais profundo –, o mesmo podemos fazer no Open Library, adicionando ao maior portal aberto de livros um exemplar potencialmente único ou acrescentar numa entrada pré-existentes, citações ou informações relevantes sobre a obra. O mesmo exemplo é válido numa série de outras situações; o desafio aqui é percebermos que tipo de Internet e de internautas queremos promover e louvar.