10 anos depois de um ano de transição para a música nacional

Os sinais já vinham da temporada 2006/7 (Linda Martini, JP Simões, Buraka Som Sistema) mas é em 2008 que o abanão é definitivo.

Agora sim damos a volta a isto!

Tantas vezes anunciado como ano da crise, 2008 é, para a música portuguesa, um ano de transição. Os sinais já vinham da temporada 2006/7 (Linda Martini, JP Simões, Buraka Som Sistema) mas é em 2008 que o abanão é definitivo e transforma a música portuguesa. Foge Foge Bandido, Deolinda e Feromona na 1.ª parte de 2008: Tiago Guillul, Os Pontos Negros e Manuel Fúria, enfim, a FlorCaveira e a Amor Fúria no 2.º semestre.

Foge Foge Bandido

Incluir Foge Foge Bandido neste artigo pode ser discutível, admitimos. Manel Cruz já levava bem mais de dez anos disto e nunca cantou noutra língua que não a portuguesa. Mas Cruz e os seus Ornatos também terão sido modelo para muita desta gente e a sua presença nesta listinha sempre ajuda a reforçar a quantidade de edições fortes cantadas em português. Além disso, a sua singularidade, torna O Amor Dá-me Tesão / Não fui eu que o Estraguei num disco impossível de omitir em qualquer artigo sobre a música em Portugal e em 2008 que se preze. Espécie de versão longa e portuguesa de um disco dos Guided By Voices ou de um álbum conceptual à Magnetic Fields – Mas não é nada disso. Estamos só a tentar localizar este som e este modelo que se traduz em mais de 60 faixas, várias com menos de 20 segundos, que são samples e/ou interlúdios ou esboços/amostras de canções. Talvez as canções que não são bem canções, tivessem como 1.ª intenção chegar a esse ponto: em que se tornam canções. Ou não. Provavelmente não. Ou, coisa mais provável, este disco é mesmo um evento tão pessoal quanto possível, um pouco egoísta até, em que o Manel se está a marimbar para todos nós e faz aquilo que quer, até porque, no final das contas, a edição é de autor e isso é o quão independente poderás ser. Daí que todo o culto à volta deste registo seja um pouco estranho. Não há canções pop, não há singles, não há coisas orelhudas. E no entanto, as palavras, as melodias e os jeitos do Manel tocaram tanta gente. Não são apenas as edições esgotadas ou as centenas de likes em publicações que partilham estas canções. É uma ideia partilhada por muitos, a de que este disco (vamos chamar-lhe assim) é importante para uma data de gente. Foi preparado em casa, desde o tempo dos Ornatos, ao longo de quase dez anos, entre 1998 e 2007. A edição incluiu ainda um livro ilustrado de 140 páginas. Singular, diziamos nós? Especial.

Deolinda

Há um título de uma canção de Foge Foge Bandido, “Ninguém é quem queria ser” que, de alguma forma, associo a uma frase de “Contado Ninguém Acredita”, cantiga do álbum de estreia dos Deolinda, Canção ao Lado. É ela: “não sou idolatrada por quem mais admiro”. Sem esta “revolução” que se deu ali entre 2008 e 2010, não teríamos grande margem para discutir estes maneirismos da língua portuguesa e compará-los. Sabe bem e faz-nos sentir perspicazes. Os Deolinda do início queriam (e conseguiram) de certa forma subverter a fórmula tradicional do fado, seja lá o que isso fôr, mas criar algo inegavelmente português. Ainda que, paradoxalmente, a banda de Benfica tenha acabado por cair várias vezes nesse rótulo, vítima de resenhas mais preguiçosas. Fado moderno, por exemplo, chegou a ser uma etiqueta muito popularizada na altura para descrever coisas como os Deolinda e A Naifa. O termo acabou por ficar esquecido. As canções escritas por Pedro da Silva Martins para a personagem fictícia que dá nome ao projeto foram tão bem interpretadas por Ana Bacalhau que a vocalista acabou por ser confundida com a tal Deolinda. Há muita Lisboa, mas também o resto do país e só nomeamos a Capital porque são os próprios que a nomeiam em “Lisboa não é a cidade perfeita”. “Fon Fon Fon” e “Movimento Perpétuo Associativo” são canções que vão durar para sempre.

Feromona

Os Feromona são os dignos representantes do rock cantado em português deste artigo. Auto-denominado “power-trio” que esbanja neste disco de estreia, Uma Vida a Direito, referências sanguinárias como quem bebe copos de água. Pelo menos é a ideia com que fico agora que aqui regresso e talvez, admito, incentivado pela sugestiva capa do álbum. Mas em relação aos Feromona, mais vale deixar a coisa bem resumida por um dos protagonistas desse aqui celebrado ano, Tiago Guillul: “Quem conhece a Feromona sabe-a frenética. É por isso com alguma surpresa que se escuta pela primeira vez estas 12 canções. Só à quarta faixa é que o pedal de distorção se pisa. Continuamos a falar do Barata e dos manos Armés? Certamente.” E cá estamos, dez anos depois.