AnarchaPortugal, uma conferência lost in translation

Em suma foram dois bons dias de pensamento que mesmo que não tenham tido sempre a profundidade necessária criaram contrastes suficientes para nos deixar a pensar e, de certo modo, destruir alguns preconceitos.

A notícia do evento chegou-nos ao e-mail como dezenas de outros nos chegam por dia. O prefixo do nome – Anarcha – despertou-nos a atenção pela surpresa de receber uma nota de algo que se auto-identificava, sem preconceitos nem distrações como anarquista. Estava criado o interesse em saber aquilo que se ia passar e sobre o qual se iria falar durante dois dias na Alfandega do Porto.

Os nomes dos oradores não eram propriamente sonantes, tirando um ou dois com os quais já nos tinhamos cruzado online. Ainda assim, as suas descrições sustentavam a sua relevância no contexto e faziam-nos crer em dois dias de conversa fortuíta, disruptiva e sobretudo desalinhada.

O primeiro indício de que provavelmente o significado de Anarcha se tivesse perdido na tradução foi na confrontação com os preços dos ingressos na conferência. Os cerca de 300 euros para o público em geral e 90 para estudantes estabeleciam que ainda que pudesse ser para anarcas, não era para qualquer um.

O foco, dentro da abrangente temática anarquista, era explicito – cripto, psicadélicos, sustentabilidade – e os sonantes títulos das talks e keynotes criavam expectativa para alguma aprendizagem e sobretudo uma discussão profunda mas o que acabou por se passar não foi bem isso. O evento foi rico mas as conversas nem por isso – salvo excepções, e cada vez que a conversa deixava emergir objectiva ou subjectivamente o entendimento de anarquismo de cada um dos presentes, a noção com que ficávamos era clara: ficou lost in translation.

Esse era de resto uma das principais reservas à partida para o evento. Com uma organização composta por uma série de entusiastas deste nu mundo vindos do outro lado do Atlântico, sobretudo dos Estados Unidos da América, acaba por ser previsivel embora indesejável que esta confusão se estabelecesse. Usemos um exemplo clássico para o explicar: Noam Chomsky. Chomsky é um dos mais conhecidos assumidos anarquistas, uma verdadeira living legend que por assim se identificar vai mantendo uma certa equidistância à esquerda e à direita pragmáticas – embora tenda claramente à primeira –, criticando o sistema como um todo e cultivando posições radicais sobre os principais temas da agenda mediática – desde a crítica aos media no manufacturing consent, até pequenas pérolas como ‘Donald Trump is a distraction’ atirada numa das suas últimas entrevistas. Chomksy não se preocupa a agradar em Reps nem Dems (nomenclatura americana) sendo por isso tão interessante. Assim, não podia ser mais ilustrativo que numa das primeiras intervenções, Walter Block, o tenha superficialmente criticado e associado aos anarquistas-bombistas-de-esquerda.

Tirando isso, tudo se parecia alinhar numa conferência daquilo que por cá conhecemos como Libertarians – ao bom estilo americano, evangelistas das liberdades individuais, profetas do mercado livre mas com pensamento distante de questões sociais ou mesmo globais. Exemplo: as raras vezes em que se ouviram algumas palavras-chave: sustentabilidade (2 vezes se não me falha a memória), pobreza (0), desigualdade social, filtro de bolha ou até, imagine-se, open source. Em vez disso reinavam expressões do campo da psicologia e da emancipação individual como ego e expressões prosaicas como ‘be yourself’, ‘express your most extravang thoughts’ e ‘we are doing [insert-some-crypto-experiment-here]’

Uma coisa é de assinalar, nenhum outro espaço de conferência ou debate conseguiu atingir níveis tão altos de boas energias e descontração – por vezes até exagerada. Se no primeiro dia ainda havia quem mantivesse os sapatos, no segundo, andar descalço parecia ser regra e, a pintar o cenário geralmente muito aborrrecido por fatos e gravatas, havia chapéus de palha, vestidos coloridos, calções e camisas completamente fora.

No meio de tudo isto uma das melhores surpresas acabou por ser mesmo Gary Lacanche, o promotor da Decentralized Dance Party que por trazer um tema tão distinto e tão simples – a festa – acabou por estabelecer relações conceptuais novas e sem dúvida interessantes. Não leiam isto como um preconceito mas como um elogio: americans always know how to party.

Mas vamos por partes, que é como quem diz, por dias, passar em revista o que ficou do que se passou ao longo destes dois dias.

No primeiro dia a conversa debruçou-se sobretudo sobre as raizes da ideia anarquistas e sobre como as criptomoedas a podem sustentar.

Walter Block foi, por skype, o convidado com maior destaque acabando por até ser criticado por monopolizar o debate em torno das suas ideias. O colega de escola de Bernie Sanders – o tal que criticou superficialmente Chomksy – elencou alguns dos princípios que tem como fundamentais para o estabelecimento do anarquismo. Nesse debate, a que se juntaram 4 painelistas, gerou-se uma das questões mais interessantes da conferência para qual a discussão ficou curta: nascemos biologicamente estadistas ou anarquistas? Block defendia a primeira atirando a solidariedade interpessoal como uma forma de estado enquanto o painel, na sua maioria, se opunha. Outro ponto interessante deste debate foi a menção à Somália e à forma injusta e paternalista como se mede o sucesso do seu projecto político anarquistas; Block evidenciou a discrepância das comparações que muitas vezes se estabelecem ressalvando que para ter noção do real sucesso de um sistema tem de se comparar com sistemas próximos, com as mesmas condições.

Outros dos protagonistas do dia foi Griff Green. Subiu ao palco de perna partida e com uma camisola com a bandeira Catalã – sim, ainda – para abordar algumas questões interessantes e estrear algumas buzzwords que tanta falta fizeram no decorrer do evento. Griff Green falou sobre plutocracia e tecnocracia para criticar o distanciamento entre governos e populações na aplicação das políticas, apontando como um dos maiores problemas a falta de entendimento que os cidadãos têm do mundo que os rodeia quer em termos de dinâmicas de poder (plutocracia) quer em termos tecnológicos (tecnocracia). Esta entrada promissora serviu de introdução para nos paresentar dos dois seus projectos que não sendo, de todo, desinteressantes, também não são propriamente disruptivos ou inovadores. Falamos da Giveth.io, uma DApp (Dapps’ são aplicações que funcionam de modo descentralizado, por exemplo na rede ethereum) que pretende facilitar a forma de doar dinheiro a instituições de caridade, e da Guifi, um projecto para criar uma mesh network em Barcelona. O único problema subjacente a esta apresentação foi mesmo a falta de conhecimento geral sobre os projectos que já se fazem nesta área. Griff Green destacava a singularidade da sua ideia quando se ouviu do público um grito ‘Holochain is also doing that!’ e quando se ouvia na minha cabeça https://wirelesspt.net. A sério, sigam o link. Griff Green também deu a conhecer outro dos seus projectos, The DAO, uma organização descentralizada criada na rede Ethereum e amplamente conhecida especialmente desde que uma vulnerabilidade de segurança no seu código foi explorada, em 2016, tornando-se num caso de estudo para quem quer reflectir sobre criptos e a sua segurança – recomenda-se a leitura  1

Depois destas dois painéis, interessantes q.b. mas que iam sempre deixando fome de um pouco mais: um pouco mais de cultura, um pouco mais de profundidade. Foi tempo de subir ao palco uma das personagens – no pun intended – mais mencionadas ao longo de todo o evento, Matt McKibbin. A talk até foi das mais interessantes para os iniciáticos da descentralização mas o substracto revelou-se quase puramente comercial. Matt é um dos rostos da empresa Decentranet que promete providenciar soluções blockchain ready-to-use para start ups e empreendedores que vão desde a criação de tokens à… presença em eventos como este a que assistimos.

Feita que estava a introdução à temática anarquista – com os deslizes que já notámos – e ao segundo atractivo do evento, as cripto, faltava apenas introduzir o terceiro pilar em discussão: as drogas. O debate foi interessante e profícuo apesar das reações entusiásticas do público se reservarem aos momentos mais superficiais. Sublinhou-se a ideia, amplamente difundida nos últimos anos, de que os psicadélicos podem ter um papel importante no tratamento de doenças do foro mental e psicológico, remantando com uma ajustada analogia com a descentrlização provocada pelas cripto: ‘os psicadélicos descentralizem o cerébro’ e sem deixar os avisos sobre a importância do contexto ‘o que interessa não é a moca, é a sua assimilação’.

 

Por falar em mocas, a conferência que se seguiu não podia ser mais ajustada. Gary Lacanche apresentou o seu conceito de festas descentralizadas que, com ou sem drogas, são uma verdadeira moca. Com a benção do Deus Doge (google it), Gary e companhia promovem festas por aí proporcionadas por um transmissor rádio e pequenas mas potentes colunas de que se fazem acompanhar, propondo uma alteração do conceito de resistência para aceitação. Sem ser rocket science, foi um momento interessante em que se falou sobre um conceito, ou uma forma de o aplicar realmente inovadora e nunca antes vista.

Para o segundo dia ficaram reservadas as palestras mais debruçadas sobre a psique e a relação humano-natureza e para o finalzinho os grandes momentos do certâme. O dia começou com uma apresentação sobre o panorama de startups nacional a que se seguiu um debate sobre permacultura e diferentes estilos de vida, os únicos painéis com intervenção portuguesa. A partir voltou a ser necessária a tradução.

Depois do almoço foi a vez da discussão sobre sociedades sem estados com a presença de Vit Jeladicka, presidente da Liberlândia em discussão sobre a sua ideia pioneira, em debate com Griffin e um interessante estreante, Travis Duncan. O debate estava a ser bom e a entrar por campos interessantes mas acabou por ficar curto. O presidente da Liberlândia revelou a suaintenção em abrir a possibilidade para que empresas se estabeleçam no seu território enquanto que, por sua vez, Travis Duncan contrapunha com ideias que foram apelidadas de “utópicas” mas que o canadiano corroborava sustentando com a sua experiência pessoal: “eu também não acreditaria se não tivesse visto” – essas ideias estão quase todas aqui. 

Às 15:25 fala-se de fake news mas a introdução feita pela organizadora Jessica Zartler mostrava o interesse na temática. “Acho que devíamos arranjar outra palavra já estamos tão fartos desta” e foi mais ou menos isso que aconteceu no debate em que pouco se discutiu a problemática das fake news. Trocaram-se algumas ideias sobre a visão dos participantes sobre o mundo online, mais algum praise à blockchain e.. Não passou daí com a conversa a soar a aquecimento. Mais tarde revelar-se-ia que foi mesmo.

Depois da apresentação da Bitnation, num momento ligeiramente estranho protagonizado pelos seus dois criadores e em que ficámos a conhecer o projecto sem perceber a sua aplicação prática e actual, tempo para as três melhores palestras. Samir Bandali, da Coinpayments, falou do sucesso que a ideia da sua empresa de apenas 9 pessoas tem feito ao tentar levar o mundo das criptomoedas para o mercado real numa talk inspiradora e sobretudo realista em que se podia sentir a aplicação prática daquilo que estava a ser falado. Seguiu-se um debate sobre Inteligência Artificial com um painel bastante equilibrado que proporcionou uma conversa profícua embora dispersa e que abria para a keynote em nome próprio de Daniel Jeffries. O jornalista falou momentos depois a solo e proporcionou, provavelmente, o momento mais reflexivo de todos, como revelaram as reações dos presentes, o silêncio absoluto e a atenção de cada um.

Em suma foram dois bons dias de pensamento que mesmo que não tenham tido sempre a profundidade necessária criaram contrastes suficientes para nos deixar a pensar e, de certo modo, destruir alguns preconceitos. Em nota final sublinhar apenas o título do texto e a importante reflexão que daí podemos conceber. Porque as palavras não podem simplesmente significar uma coisa para cada um e o conceito de anarquismo aqui foi tão diferente do que o que habitualmente se assume em solo Europeu, não adianta adornar o texto com assunções pessoais dos presentes sobre o que significa para cada um o livre pensamento – porque isso seria outra coisa – ou com nomes de profissões que nunca antes se ouviram para parecer inovador. O Web Summit é caro mas a AnarchaPortugal também e não basta um prefixo para tornar mais acessível a conferência aos interessados, muito menos aos locais.