Porque é que a CP está a cortar comboios?

De norte a sul do país, sente-se a falta de material circulante que a CP reclama por falta de verbas. Ferrovia nacional está em situação crítica.

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Foto de Tiaguito Fonseca via Flickr

O primeiro Alfa Pendular entre Lisboa e Porto vai deixar de circular a partir de 5 de Agosto. Nesse mesmo dia, passarão também a haver menos comboios nas Linhas de Sintra e de Cascais. E existem comboios Intercidades a serem trocados por regionais em várias linhas. Ao mesmo tempo, intensifica-se a pressão em relação à modernização das Linhas do Oeste (que também vai ser afectada por cortes no dia 5), do Algarve e do Vouga, actualmente degradadas e a causar transtornos a quem precisa delas.

Menos oferta à hora de ponta nas Linhas de Sintra e Cascais

A CP tem vindo a anunciar e a realizar diversas alterações ao seu calendário habitual de transporte de passageiros. As mais significativas serão em duas das mais movimentadas linhas urbanas de Lisboa e terão efeito a partir de 5 de Agosto. A saber:

  • na Linha de Sintra, vai acabar o comboio directo entre Sintra e Alverca, que funcionava na hora de ponta, entre as 6h26 e as 9h26;
  • ainda na Linha de Sintra, a ligação entre Mira Sintra-Meleças e o Rossio passarão a existir dois comboios por hora em vez dos actuais quatro;
  • na linha de Cascais, os comboios entre o Cais do Sodré e Cascais e entre o Cais do Sodré e Oeiras passarão a circular de 15 em 15 minutos à hora de ponta, em vez de ser de 12 em 12 minutos. Ou seja, serão menos dois comboios por hora.

Segundo a comissão de trabalhadores da CP, os cortes resultam de problemas existentes na manutenção do material circulante resultantes da falta de verbas. “Nestas linhas é preciso poupar material para que as peças possam servir para outros comboios. Como não há dinheiro para comprar essas peças, é preciso esticar o material que existe neste momento”, explicou José Reizinho, da comissão de trabalhadores da CP, ao Dinheiro Vivo.

Em comunicado, e em resposta à situação noticiada, o Governo referiu estar a “trabalhar no ajustamento dos horários, de forma a que, atendendo ao equilíbrio entre a oferta e a procura e as condicionantes sazonais, possam ser garantidos níveis adequados de serviço, especialmente nas ligações e nos períodos de maior procura, como são as linhas suburbanas e as horas de ponta”. Contudo, não se sabe ainda qual a aplicabilidade prática desta informação.

Foto de Tiaguito Fonseca via Flickr

Linha do Oeste: Caldas da Rainha e Coimbra perdem ligação directa

Quem quiser viajar a partir de 5 de Agosto entre as Caldas da Rainha e Coimbra vai ter de trocar de comboio na estação da Amieira, de uma automotora a diesel para uma unidade tripla eléctrica (UTE), parada há cinco anos. O comboio directo entre as duas localidades, que demorava uma hora e 55 minutos a percorrer o trajecto, vai acabar. Ao mesmo tempo, ainda na Linha do Oeste, passarão a existir menos comboios entre Leiria e Mira Sintra-Meleças e entre Caldas da Rainha e Santa Apolónia serão feitas duas viagens por dia em vez das actuais três.

A Linha do Oeste precisa de ser modernizada e electrificada com urgência. Há relatos de vários comboios suprimidos nesta linha e que nem os autocarros chegam para substituir o serviço ferroviário em falta, segundo o Dinheiro Vivo. A Linha do Oeste está, no entanto, no plano Ferrovia 2020, prevendo-se um investimento de 112 milhões de euros para resolver os problemas dessa ligação. O concurso público para a obra deverá ser lançado nos próximos meses, de acordo com o Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques.

O Presidente da CP, Carlos Gomes Nogueira, já admitiu que começar a utilizar oficinas fora de Portugal para reparar os comboios, uma vez que a EMEF, a sucursal da CP que repara o material circulante da empresa ferroviária, não tem capacidade financeira para tal. A transportadora acredita que, sem estes problemas de manutenção, seria possível aumentar bastante o número de passageiros; ainda assim, a CP estima um aumento de 6% no número de passageiros em 2018 para 130 milhões face ao ano anterior.

Intercidades trocados por regionais

Os clientes compram viagens em Intercidades, mas o comboio em que andam é um regional. A CP tem vindo a trocar comboios Intercidades por regionais – menos confortáveis e mais lentos. A justificação da CP é a mesma: avarias e problemas na manutenção do material circulante. A transportadora diz devolver a diferença no preço dos bilhetes aos clientes.

A troca de Intercidades por regionais não é propriamente nova e tem vindo a acontecer em várias linhas, como na Linha da Beira Alta ou na Linha do Alentejo. Segundo o Diário de Notícias, entre 22 de Maio e 1 de Julho, a troca de comboios aconteceu em 31 viagens. A norte, houve dez viagens em que os passageiros que vinham de Alfa Pendular de Santa Apolónia para Braga e tiveram de trocar para um Intercidades ao chegar a Campanhã; também também duas viagens de Alfa entre Lisboa e Porto que foram feitas em comboios Intercidades.

Foto de Tiaguito Fonseca via Flickr

Primeiro Alfa entre Lisboa e Porto desaparece

Na Linha do Norte, o comboio Alfa Pendular que partia diariamente de Santa Apolónia às 6h00 para chegar a Porto Campanhã às 8h44 vai deixar de circular a partir de 5 de Agosto. O primeiro Alfa entre as duas maiores cidades do país passará a partir da capital às 7h00, chegando à Invicta às 9h50. A hora de chegada já inclui os 6 minutos adicionais que vai afectar todas as ligações entre Lisboa e Porto por causa de reparações na Linha do Norte.

Assim, ir de Alfa Pendular de Santa Apolónia até Campanhã passará a demorar 2h50 em vez de 2h44; de Intercidades a viagem passará a ser de 3h16 em vez de 3h08. O minutos adicionais devem-se a obras de renovação, a cargo da Infraestruturas de Portugal (IP), que estão a decorrer no troço de caminho-de-ferro entre Ovar e Gaia. “Por decisão da IP, são definidas limitações de velocidade à circulação dos comboios nos troços em obra”, justificou fonte oficial da CP ao Dinheiro Vivo.

Quanto ao cancelamento do Alfa Pendular das 6 da manhã, a CP explicou ao Dinheiro Vivo que a procura era baixíssima (menos 46% que a média dos comboios Alfa), com “a mais baixa taxa de ocupação média ao longo do percurso, uma vez que a sua partida de Lisboa ocorre muito cedo, motivo pelo qual uma parte significativa dos clientes viaja apenas no troço Coimbra B – Porto Campanhã”. Assim, quem quiser chegar cedo ao Porto, terá o Intercidades das 6h30, que a CP acredita que “dará uma resposta mais adequada à procura existente, uma vez que a sua lei de paragens e horário são mais atrativos”. Passará também a existir uma nova ligação de Alfa Pendular a partir de Lisboa às 9h00.

Linhas do Algarve e do Vouga degradadas

Comboios de qualidade e regulares, sem supressões, não são uma realidade também nas Linhas do Algarve do Vouga. Aliás, a sul, a electrificação da linha está feita apenas entre Faro e Tunes, não abrangendo os ramais de Tunes a Lagos ou de Faro a Vila Real de Santo António. Já a Linha do Vouga é a única linha de via estreita do país, onde se circula a 10 km/hora; está aberta apenas no troço entre Espinho e Oliveira de Azeméis e entre Aveiro e Sernada do Vouga (entre Oliveira de Azeméis e Sernada do Vouga não tem serviço de passageiros).