Dealema, um mar de gente em frente ao rio Douro

Foram muitos os que responderam ao apelo e aproveitaram a oportunidade de, sem pagar, assistir ao vivo a um concerto do esquadrão dilemático sobre-lotando completamente aquele espaço bem conhecido dos batidos da cultura hip hop. 

Sábado, 14 de Julho, 13 horas, publico no Shifter a reportagem sobre o concerto dos Enigmacru que apelido, sem hesitação, de “histórico”. Horas mais tarde no Jardim do Morro, em Vila Nova de Gaia, os também históricos Dealema dão um concerto gratuito e em terreno familiar. O resultado é a dúvida sobre a possibilidade de repetir o adjectivo sem o banalizar. Talvez as vezes que na noite descrita na primeira reportagem ouvimos referências a este grupo ou a algum dos seus elementos o ajude a explicar para já.

Dj Guze, Expeão, Fuse, Maze e Mundo formam os Dealema há 22 anos tendo ganho com o passar do tempo um estatuto crescente de banda de culto, sobretudo nas cidades de onde provém, Porto e Gaia. Foi na segunda, mesmo junto à ponte que as une que puderam subir palco para quem os quisesse ver e ouvir. Foram muitos os que responderam ao apelo e aproveitaram a oportunidade de, sem pagar, assistir ao vivo a um concerto do esquadrão dilemático sobre-lotando completamente aquele espaço bem conhecido dos batidos da cultura hip hop. 

O uso do termo puderam duas frases acima não foi causal, e assinala a forma como o grupo se mostrou grato durante a actuação, mantendo o espírito que os distingue de que serem ouvidos é, de certa forma, um privilégio. Os 5 cada vez mais velhos e distantes do momento da escrita de cada letra, continuam a rimá-las com uma convicção inspiradora e uma paixão visível e audível por qualquer um  – típico de quem está confiante de que está a fazer o bem ou no mínimo a tentar com toda a força de vontade.

Numa revisita aos vários discos, com passagem pelos temas mais clássicos do grupo, o publico interagia mostrando conhecer de fio a pavio as letras – mais complexas do que a tendência, diga-se de passagem. Para além do conhecimento, percebia-se a vontade de participar num acto de aproximação e partilha a que os rappers iam tentando responder com a individualização do olhar, um piscar de olho ou um cumprimento. A maior prova desta união foi dada durante “Nada dura para sempre” com o público a corresponder ao pedido e a criar um verdadeiro mar de luzes, em frente ao Rio Douro.

A certa altura, Mundo sugeria que só faltava um pintor para gravar o momento histórico que se ali se criara, numa tirada com tanto de simples como de sensato que acompanhada do sorriso desvendava a genuinidade das palavras. Foi essa a frase que apontei nas notas do telemóvel e desencadeou este artigo tentando responder à dúvida com que o iniciei, sobre a possibilidade de repetir o adjectivo histórico sem o banalizar.

A resposta é simples e acho que até se pode aplicar noutros casos. A sucessão destes momentos, o surgimento destas dúvidas, serve para lembrar que sim, podemos usar o adjectivo histórico sem o banalizar – embora por uma questão de orgulho na diversidade de vocabulário prefira não fazer – porque tudo o que nos marca pode ser parte de uma história de que desconhecemos os próximos capítulos. Quem disse que ali não se inspirou uma pequena revolução? Ou solidificaram sonhos que marcarão o futuro, podendo ficar para a História que se escreve nos livros. Afinal de contas é dessa atitude que o vive o som do grupo.

Quanto à palavra que sintetiza esta reportagem, que não foi preparada (nem feita) como tal, surgiu-me nas primeiras mensagens para o Deck 97 que acompanha o grupo e entusiasticamente disponibilizou as fotografias que pintam o artigo e ilustram emoções e a atitude como as palavras não fazem: Épico. 

é·pi·co

adjectivo

1. Da epopeia ou a ela relativo; próprio da epopeia.

2. Alto, levantado, sublime.

substantivo masculino

3. Poeta épico.

o Épico português

• Camões.

“épico”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa , 2008-2013, [consultado em 16-07-2018].

Com uma obra que impressa facilmente compunha uma antologia poética e personalidades que fazem de cada um dos membros uma personagem única numa história de superação constante a que assistimos nos últimos anos, épico é a palavra certa para descrever o momento de celebração criado espontaneamente entre público e artistas nesta noite em Gaia.

Fotografias de Deck97