Estes dois “meninos rebeldes” querem ensinar-te a programar

Dizem que não se encaixam no ensino tradicional e que devem existir diferentes soluções para pessoas diferentes. Em 2017, decidiram criar uma escola de programação. Chama-se Eddisrupt e o nome não diz “código” porque querem ir além disso.

Eddisrupt
Rui Nogueira e Pedro Bruno, co-fundadores da Eddisrupt (foto de Shifter/DR)

Eddisrupt não é propriamente um nome que diga código, mas a ideia do Rui Nogueira e do Pedro Bruno quando, em 2017, se lançaram a criar esta escola, meio online meio offline, é ensinar quem quiser a programar. Em Setembro, arranca a terceira vaga de bootcamps – serão quatro cursos em simultâneo com duração de 6 meses (ou seja, até Março) que poderás conjugar com o teu trabalho ou as aulas na universidade. Custa 79 euros/mês, tens vídeo-aulas à distância de segunda a quinta para aprender a parte teórica, e acompanhamento presencial com um professor na sexta e no sábado. “Sexta é destinado a esclarecer dúvidas. O sábado é uma intensidade de código até doer a ponta dos dedos e, mesmo assim, para continuares ali a dar forte e feito. Há testes de avaliação ao sábado também”, explica Rui Nogueira, de 23 anos.

Anyone can create technology.

“É uma escola como as outras. Quisemos juntar o melhor dos dois mundos – o online e o presencial –, até porque um dos problemas dos cursos só online é que são bons para complementar os teus conhecimentos mas sozinhos não te dão aquela diferenciação no mercado”, completa Pedro, de 22. “Estamos a tentar descobrir quais os melhores modelos para conseguir dar certificação online mas através de uma cena mista conseguimos preços muito baixos mas também qualidade.”  Os 79 euros/mês são, na verdade, um valor baixo relativamente a um bootcamp equivalente na Academia de Código, por exemplo, mas não é esta a única diferenciação, acreditam os dois jovens.

A Academia de Código nasceu com o propósito de dar às pessoas novas valências que lhes permitam agarrar novas oportunidades de negócio nas tecnologias de informação, uma área com elevada taxa de empregabilidade, em cursos de média duraçao mas um registo muito intensivo. Já a Eddisrupt está aberta a qualquer pessoa, independentemente das suas ambições de carreira e da disponibilidade horária. “Os nossos bootcamps não te obrigam a sair da universidade, do trabalho ou do que for. Ajudam-te apenas a completar a tua educação ou carreira profissional”, explica Rui.

Aprender sem barreiras

“Nós temos como missão democratizar a criação tecnológica”, resume. “Acreditamos que toda a gente deve ter acesso a uma boa educação boa e não ser barrado por um muro financeiro”, acrescenta, referindo-se ao preço da oferta educativa da Eddisrupt.

A Eddisrupt quer ser o mais acessível possível e também versátil e é por isso que os seus cursos foram desenhados para decorrerem a tempo parcial, ao contrário dos bootcamps que exigem total disponibilidade dos alunos durante a sua realização. “ Nós somos diferentes. Temos um desafio que não sei se é mais difícil ou menos. Eu tenho vindo a acreditar que é mais difícil em algumas partes, porque os alunos têm de compatibilizar a vida deles com o bootcamp. Fazer um curso em part-time é complicado, até para estudantes universitários”, refere Pedro.

No sentido de preparar os seus futuros alunos para os bootcamps, a Eddisrupt procede a um processo de tiragem longo e é por isso que as inscrições para a terceira edição que só se inicia no final de Setembro terminam a 20 de Agosto. É fundamental perceber o mindset do candidato, o que é feito através de entrevistas, desafios prévios, etc. “É um processo de selecção ainda longo, de um mês, um mês e meio”, diz Pedro – um processo comum a outros tipos de cursos, seja em escolas mais disruptivas, seja em mais tradicionais.

O sangue da Eddisrupt (foto de Eddisrupt/DR)

Rui e Pedro gostam da cena autodidacta, de um indivíduo adquirir conhecimento por si próprio, por exemplo através da internet, e é essa filosofia que tentam aplicar na Eddisrupt. Dizem que aprenderam muito online e que foi lá que foram buscar muito do conhecimento que hoje têm sobre programação. Gostam também de aprender com outras pessoas e foi por isso que se juntaram aos encontros da Upframe, em 2017, onde se conheceram uns meses antes de arrancarem com a Eddisrupt. A Upframe é, acima de tudo, uma comunidade de jovens que se junta para partilhar ideias sobre as suas ideias de negócio e aprender com malta experiente como podem arrancar com elas.

Malik Piara, o fundador da Upframe, diz que decidiu arrancar com este programa de pré-aceleração em 2016, quando tinha apenas 18 anos, porque queria conhecer e dar a conhecer pessoas como ele, com vontade de empreender algo por si, para que se pudessem conectar. Rui e Pedro parecem ter os ingredientes certos e, apesar de parecidos em alguns pontos, são diferentes noutros, sendo um exemplar perfeito do resultado do trabalho de Malik.

Rui entrou em “publicidade e marketing” e o que sabe de programação e design foi buscar à Internet; já Pedro começou em bioquímica, mudou-se para engenharia informática mas também não chegou a terminar este curso. “Quando entrei na universidade, achei brutal. Depois comecei a perceber que aquilo era mais um secundário. Há pessoas diferentes, temos de ter soluções diferentes. Se calhar algumas pessoas adoram a faculdade, outras que como eu não se enquadram”, comenta Pedro. “Para mim não fazia sentido estar ali cinco anos a aprender uma coisa que queria aprender da minha maneira. Não achava que um curso de engenharia informática me pudesse ser útil.”

Fazer dropout e criar do zero

Explicar o dropout aos pais não foi fácil nem para Pedro, nem para Rui, que optou por fazer uma pausa nos estudos durante um ano para se dedicar à Eddisrupt. “Nunca disse que não vou acabar a licenciatura”, refere Rui. O pai, que também avançou com o seu próprio negócio, não o incentiva a 100% mas também não o demove, pois sentiu os desafios e dificuldades de criar algo na pele; a situação com a mãe é parecida, mas Rui compreende porquê: “Ela não teve a oportunidade de fazer uma licenciatura. Sempre teve aquela cena de querer fazer. Ela vê que no percurso que tem feito não pode subir por não ter o canudo. Eu nunca gostei muito da escola. Não tenho nada contra ela, não acho que ela seja cancerosa, nada disso. Eu é que não me identifico com essa filosofia.”

Para Pedro, projectos como a Eddisrupt, “vêm desmistificar um pouco a ideia de que tens de ter um curso superior e de seguir um determinado caminho para teres um bom futuro profissional. Mas o importante deveria ser o conhecimento, não o canudo ou a instituição onde estás. Acho que no futuro as pessoas vão simplesmente aprender e quase não vai haver instituições. Aprendem o que querem e o que vai interessar são as skills de cada um”. Rui é muito ágil em conversas e confessa que “sempre teve muito interesse em aprender a falar com outros”; como bom falador que é, tal como Pedro, não lhe foi difícil absorver conhecimento no contexto da Upframe. “Aquilo é sobretudo um programa de pré-aceleração que te dá as bases do que é necessário para seres empreendedor. Aprendemos ou reciclamos o conhecimento sobre como criar um MVP [Minimum Viable Product], o que é necessário numa estratégia-base de marketing, como se faz um plano de negócio… essas cenas”, explica Rui. Na prática, “o que a Upframe me fez foi polir e optimizar partes da minha pessoa”, comenta. “É um empurrão”, acrescenta Pedro, referindo-se à comunidade e ao ambiente da Upframe que acaba por dizer que “existem alternativas à faculdade e não vais morrer a seguir”. Dá uma segurança para arriscar.

Quando Rui e Pedro se conheceram na Upframe, ambos estavam com vontade de criar alguma coisa. Antes da Eddisrupt, não tiveram qualquer experiência profissional de relevo, tirando um ou dois projectos que os ajudaram a entrar no mundo do empreendedorismo. O Rui com um podcast e um projecto parecido com a Eddisrupt que não funcionou por “erros de estruturação de equipa”; o Pedro com uma start-up criada numa maratona Startup Weekend que “acabou por não acontecer”.

Os planos de ambos para a Eddisrupt são ambiciosos e vão para além dos bootcamps, que são o valor mais entregável e onde podem ir buscar receita e lucro que lhes permita apostar noutros vectores. A Eddisrupt “não é para ser só código, mas tecnologia. No geral, digital. Incluindo design”, refere Pedro. “No que depender de nós, a Eddisrupt não vai ser daqui a algum tempo só um curso de programação. Queremos criar algo mais estruturado ainda, é para ser o nosso emprego a tempo inteiro de certeza”, completa Rui.

Foto de Shifter/DR

Uma escola para o futuro

Contam a história de que arrancaram nesta aventura com 20 euros cada um, que investiram no projecto, tendo começar a ver os 40 euros iniciais crescer logo no início. Esta terceira edição é a primeira em que existirão quatro bootcamps a decorrer em simultâneo; serão todos em Lisboa, mas não escondem vontade de chegar a outras geografias. Em Setembro, contam ter três pessoas a full-time, eles e um programador. Quanto aos professores, que acompanham os cursos, conferindo também um título de credibilidade, vêm de start-ups e empresas – Rui e Pedro trabalham, neste momento, com o William Ribeiro, da Talkdesk, e com o João Gomes, da Candor. “O João foi, aliás, a primeira pessoa a acreditar no nosso projecto e a juntar-se a nós, com toda a vontade de ir para a frente”, recorda Rui. Estão à procura de mais professores que também acreditem na ideia. “Procuramos pessoas que partilham a nossa missão de democratizar o acesso à criação tecnológica e sobretudo com o mindset de dar de volta à comunidade, de querer partilhar os seus conhecimentos. Até porque nós não conseguimos pagar de forma milionária, recebem mais das suas empresas”, explica Pedro.

O que a Eddisrupt ensina não é tão focado para o mercado como a Academia de Código, por exemplo. Por isso, optam por ensinar JavaScript em vez de Java e apostar em tecnologias como Node.js ou React. “O Java é uma linguagem mais antiga e por isso há um mercado maior”, sobretudo no seio de grandes empresas, explica Pedro. “Estamos a educar mais para o futuro e para as start-ups”, que podem ser as grandes empresas do futuro, prossegue Rui na mesma linha de raciocínio. Os dois mostram-se atentos ao que está a surgir, referindo inclusive o desejo de um dia terem um curso de Solidity. “O Solidity tem mais a ver com blockchain, outra área em que temos muito interesse, mas um programador que saiba Solidity é mais caro que um que saiba JavaScript”, aponta. “Nós temos planos megalómanos como qualquer um tem e vamos tentar começar por algum lado.”

Ter quatro bootcamps em simultâneo é para os dois jovens de 20 e poucos anos um passo de expansão assinalável. “Estivémos em fase alpha e beta como start-up, a testar coisas. Agora vai ser mesmo a sério, em que tentaremos trabalhar com empresas maiores”, remata Pedro.