Elisa Rodrigues: “Cantar e escrever passa por saber expressar essa empatia”

A artista portuguesa lança-se ao seu primeiro álbum de originais

Vamos saltar o óbvio de dizer que Elisa Rodrigues é uma jovem promessa, artista revelação, ou quaisquer outras palavras-chave que costumam virar cabeças. Seria também injusto para com o arranque que a sua carreira já teve. Na verdade é um nome que ainda agora começou a surgir no radar mas que ainda assim já conta com um CV intrigante. O álbum As Blue as Red conta com dois singles lançados, e tivemos a oportunidade de trocar umas palavras com a artista, pouco depois de ter lançado cá para fora o mais recente “Vai Não Vai”.

Qual é a origem do nome do disco? Red surge em oposição a Blue, ou é algo novo que queres fazer erguer do Jazz?

No meu primeiro disco quis ter um nome que mostrasse o que é, para mim, cantar. Neste, preocupei-me em encontrar um nome que pudesse definir a minha identidade enquanto cantora. Sou bastante melancólica, gosto de melodias e letras tristes o que associo ao azul. Por outro lado, a minha voz é quente e revelo sem pudor a minha sensualidade, o que associo ao vermelho.

No entanto, posso dizer que o disco tem muitas influências Blues e Pop, que são quase opostas, e me fazem lembrar estas duas cores.

Já tinhas participado numa canção com a Luísa Sobral no 2º disco dos KOLME. Como é que surgiu a ideia de trabalhar com a Luísa neste disco?

Comecei por lhe pedir que escrevesse uma música. Já a tinha no meu e-mail quando o meu agente me falou da hipótese de convidar a Luísa a produzir. Apesar de não ter sido ideia minha, fez-me sentido de imediato e hoje sei que foi a escolha mais natural e certa que podia ter feito.

Assim que ouvimos a ‘Vai Não Vai’ ficámos com pena de não te encontrarmos mais vezes neste registo em português. O que te dá preferência a escrever em Inglês?

No jazz o inglês é soberano. Mas o jazz é um género musical especialmente vivo. Uma espécie de gigante que se vai movendo e engolindo tudo à sua volta para poder crescer. Podemos assim fazer jazz em todas as línguas e pedir emprestado quase tudo a quase todos os outros géneros musicais. Aprendi a ter esta liberdade quando penso em música. Mas acabo por fazer sempre o que me é mais natural e nas minhas canções o que me surge mais naturalmente é o inglês. Lentamente começo a fazer o exercício de escrever em português mas sem qualquer tipo de expectativa ou obrigatoriedade. Faço sempre o que me é mais natural.

Cimentaste no teu primeiro disco a tua capacidade de erguer canções de qualquer espectro pelas tuas regras. Neste novo disco lançaste-te naturalmente às canções originais. Como é que nasce uma canção pelas tuas mãos?

Todas me chegaram de maneiras diferentes. Não tenho uma fórmula, ainda. Posso lembrar-me de uma melodia e ir para o piano procurar a harmonia adequada ou posso começar pela harmonia. Muitas vezes começo por escrever a letra. Neste disco conto com a Luísa Sobral na co-composição de três temas e nem assim houve uma fórmula.

Conta-nos como é que se sucedeu a tua recruta para cantar com os These New Puritans. E como foi a experiência de gravar e partir em tour com eles? 

Eles viram um vídeo meu no YouTube, adoraram a minha voz e a minha maneira de cantar. Decidiram convidar-me e eu, depois de ouvir o que estavam a preparar para o disco, aceitei de imediato.

Foi uma experiência muito rica em todos os sentidos. São músicos de excelência, muito apaixonados pelo que fazem. Procuram soluções invulgares em tudo e isso foi desafiante para mim e para a minha maneira de pensar e cantar. A tour com eles foi absolutamente maravilhosa, fiz coisas que nunca sonhei fazer. É duro. Mas aprendi muito e tenho uma visão diferente da internacionalização.

Fora da música, o que contas como as tuas maiores influências?

As pessoas que me rodeiam. A maneira como pensam e sentem. Gosto de entender o mundo dos outros e encontrar pontos tangentes ao meu. Gosto do exercício da empatia e acho que cantar e escrever passa por saber expressar essa empatia. Somos todos tão diferentes mas tão parecidos e isso fascina-me.

Partilhar o apelido da mais ilustre cantora portuguesa significa carregar o fardo com responsabilidade ou apenas mais perguntas sobre parentesco em entrevistas?

Nunca me fizeram perguntas sobre parentesco, mas confesso que escolhi assumir o nome Rodrigues precisamente porque é o nome de Amália. Sou Jordão Rodrigues. Jordão é um nome bem mais invulgar, mas ter o nome da Amália dá-me força. Sou mesmo muito fã.