Momento histórico para quem tem “credencial underground”

DJ Abon, Dekor e Minus preparam as hostes para a catarse final na apresentação do disco de EnigmaCru, Emperfeito Equílibrio.

A promoção não foi muita, nem esclarecedora. No Facebook não havia milhares de pessoas com interesse e o evento não aparecia ad nauseum partilhado pelas outras redes sociais. O horário estava parcialmente errado e o alinhamento do cartaz deixava mais dúvidas do que certezas sobre a programação da noite. Ir contra tudo isto mas com a expectativa intacta era a condição de entrada ou como diria Chek num grito de boas vindas à subida ao palco,  a “credencial underground” que certificava cada um dos presentes e os autorizava a estar presentes num momento histórico. A raridade e intensidade com que se vivem momentos como este não deixa que a coisa seja por menos, e volta-nos a fazer crer que a história não precisa de se subjugar a instituições e ajuntamentos desproporcionais que nos tornam menos humanos. Foi praticamente entre amigos e num ambiente em que mesmo os desconhecidos ganhavam esse estatuto que DJ Abon, Dekor e Minus foram preparando as hostes para a catarse final que se daria na apresentação do disco de Enigma Cru, Emperfeito Equílibrio.

Dj Abon & Dekor 

O nome do DJ Abon era o primeiro e maior do cartaz e fazia crer que seria a fechar. Ao contrário das previsões, o Dj abriu com uma seleção de hip hop e foi o primeiro general a comandar as tropas na invasão à pista. O exército não era grande mas estava bem coordenado e juntou-se em prol do objectivo de se divertir com alto sentido de missão.

Seguiu-se Dekor, o homem dos sete ofícios que conhecemos quer das líricas quer dos beats — por exemplo para Puro L – o primeiro MC da ocasião. Com rimas a fazer lembrar outros tempos e uma atitude nostálgica, sem ser saudosista, de quem quer construir o futuro com peças do passado, apresentou alguns dos temas do seu EP Som de Fundo e outros inéditos prestes a sair, onde sobressaiu uma irónica crítica ao sistema e ao progresso e uma homenagem clara aos grandes do hip hop do Porto.

Minus 

O último lançamento de Minus foi “Man With a Plan”, um registo exclusivamente instrumental lançado pela estreante editora Kids Alone, mas foi com rimas que o ‘agora-mais-produtor’ presenteou o público. Autor de um disco que cada vez que se ouve renova e consolida o estatuto de clássico — Árvores, Pássaros & Almofadas – foi numa revisita ao seu repertório que conduziu a multidão entusiasta e… cada vez mais emocionada. Nem brancas nem breaks em beats estragaram o tom da actuação. A proximidade oferecida pela sala e ditada pelas letras tornava o momento intimista e elevava as falhas com pequenos momentos extraordinariamente humanos, daqueles que sabem melhor que uma voz imaculada à força de algoritmos. Com os homies na primeira fila, Minus estava em casa e abriu-nos a porta para entrar e mostrar que não perdeu o jeito, nem a vontade, por muito tempo que passe fora dos palcos.

Enigmacru

O entusiasmo era tanto que não houve pausa entre Minus e os senhores que lhe seguiam, os anfitriões da noite, Enigmacru. À saída do primeiro, Each e Chek apressaram-se a subir ao palco e a começar o seu espetáculo com a potência máxima. O pretexto da noite era a apresentação do disco e foram directos ao assunto. O seu repertório não é o mais extenso porque, como dizem numa das barras “fazer algo coeso custa”, e depois desta sexta-feira 13 não restam dúvidas sobre a coesão implícita no seu trabalho. Each e Chek são mais do que dois rappers, os escolhidos d’entre nós para verbalizar o que muitos pensam – uma categoria que tantas vezes associamos a escritores. Sem exageros, cantam frases que parecem poesia com uma atitude que parece teatro e uma naturalidade que parece improviso.

Ainda se desviaram do disco, para surpreender Minus e convidá-lo a regressar a Árvores, Pássaros & Almofadas, a uma faixa em que são convidados. Rapidamente voltaram ao alinhamento mas bem podiam ter feito mais paragens fora do percurso para esticar o concerto que só pecou por curto. Mais uma vez e tal como no concerto de Minus reinou o descomprometimento e a proximidade entre público e artistas e mesmo entre chapéus para trás, tatuagens hardcore e algum fumo no ar, se viram lágrimas na plateia.

De resto, para a última faixa, ficara reservado o momento que melhor ilustra toda a noite. Each apresentou o tema, sem dizer o nome, convidou quem quisesse a juntar-se em cima do palco e revelou a intenção que se preparava para concretizar: “Eu vou dar esta deitado, a olhar para as estrelas, foi assim que a escrevi”. Foi então deitados no palco, cada um para seu lado que Each e Chek entregaram a última faixa da noite, o single do disco, criando um momento que dificilmente veremos repetido. O desaparecimento dos músicos à linha da vista convidava à aproximação à introspecção numa decisão que ficava ao critério de cada um porque, tal como os MCs mostravam pelo exemplo, cada um curte como quer.