Facebook cai a pique, estabelece recorde, mas tem muito que se lhe diga

Apesar do estrondo da queda e se poder afirmar que: 1) é um recorde de perdas diárias e 2) é o pior dia da história da valorização do Facebook, é preciso contextualizar os números e apontar aquele que pode ser o seu sentido.

Que a empresa de Mark Zuckerberg não tem tido um 2018 nada fácil não é novidade para ninguém. Contudo, apesar das sucessivas polémicas e consequentes audições, a valorização no mercado bolsista da empresa detentora da maior rede social do mundo tinha-se mantido estável até ao dia 26 Julho, que com certeza ficará na sua história como um dos dias mais negros.

As acções da Facebook, Inc. cotadas no principal mercado norte-americano, o NASDAQ, caíram num só dia cerca de 19% o que significa uma desvalorização da empresa em cerca de 120 mil milhões de dólares. Um valor impressionante ao ponto de estabelecer um novo record como a maior perda bolsista para uma empresa americana num só dia – marca que se registava nos 91 mil milhões de perda da Intel em  2000, seguidos dos 77 mil milhões da Microsoft.

A queda a pique provocou agitação no mercado levando ao dobro volume de transacções de acções do Facebook. No total, estima-se que tenham sido transaccionadas 34 milhões de acções em contraste com a média do último mês de 17 milhões.

Apesar do estrondo da queda e se poder afirmar que: 1) é um recorde de perdas diárias e 2) é o pior dia da história da valorização do Facebook, é preciso contextualizar os números e apontar aquele que pode ser o seu sentido.

Facebook INC não é o investimento perfeito

O primeiro ponto a considerar é que a queda contraria claramente a tendência de crescimento que tem marcado o ano da Facebook Inc, devendo-se a um momento singular que foi a apresentação dos Resultados do Segundo Trimestre de 2018.

Neste documento e como é habitual o Facebook revelou os dados de utilizadores mensalmente activos e esse terá sido um dos pontos a provocar a desilusão que se fez sentir nos mercados. Segundo dados recolhidos pela FactSet junto de analistas, os investidores previam 2,25 mil milhões de utilizadores mensalmente activos (UMA) e 1,49 mil milhões de utilizadores diariamente activos (UDA) dados acima dos 2,23 mil milhões de UMA e 1,47 mil milhões de UDA apresentados no relatório.

Outro ponto a considerar neste aspecto é a proporção da queda em relação à história recente da empresa. Olhando para o gráfico é fácil perceber que os valores agora atingidos com a perda, por acção, na casa dos 46$ colocam as acções da empresa num valor próximo do que apresentava no final de Abril deste ano. Isto é, por altura de apresentação do relatório do 1º Trimestre.

Nesse relatório o Facebook apresentava um crescimento de UDA 3,42% e a diferença com o valor agora apresentado é outro dos ponto que explica esta descida. Com uma taxa de crescimento de apenas 1,44%, a mais baixa pelo menos desde 2015. Algo que podendo ser alarmante para Zuckerberg não parece assim tão estranho atendendo aos 2,5 mil milhões de pessoas que utilizam uma das apps da companhia: Whatsapp, Instagram, Messenger ou Facebook itself. Este foi o argumento utilizado pelo Facebook para contrapôr os maus resultados e merece atenção, sobretudo o Instagram – falamos mais à frente.

Fonte: Techcrunch

Instagram é jovem promessa

Em 2012 o Facebook comprou o Instagram por mil milhões de dólares (cerca de 700 milhões de euros). Na altura a aplicação tinha “apenas” 31 milhões de utilizadores diários e nada que se assemelhasse a um modelo de negócio. Agora o cenário é bem diferente.

Instagram tem agora um mil milhões de utilizadores activos todos os meses. Aquela que inicialmente era uma app simples para partilhar fotos foi-se complexificando: passou a ter vídeos no feed, depois Stories, agora canais de TV. Se com as Stories “matou” o Snapchat, com os canais não vai provavelmente matar o YouTube (que é bem maior que mil milhões de utilizadores) mas poderá ser uma nova casa para criadores partilharem conteúdos ou um formato para instragammers aka influencers continuarem a espalhar as suas mensagens.

Com as rápidas mudanças que se vêm na aplicação e a tendência de crescimento que tem apresentado é provável que se intensifique a sua importância no negócio da Facebook INC – com o aumento dos modelos de publicidade disponíveis e a sua frequência que, aliás, já se verifica. Isto pode ser algo como tornar o Instagram mais Facebook, replicando um modelo de negócio com sucesso comprovado. Desde o momento da compra a app para partilhar fotos em quadrado como era conhecida na altura já valorizou 100 vezes – analistas dizem que vale 100 mil milhões de dólares – e prevê-se que continue a valorizar.

Apesar de geralmente vermos associadas a estas notícias headlines de que o Facebook está morto é preciso não esquecer que a composição da empresa é bem mais vasta, sendo a rede social azul apenas o produto desenvolvido e trabalhado há mais tempo daí que seja o mais rentável –marketeers, tudo a pensar no ciclo de vida de produto. 

Consequências e Conclusões

A ideia com que se fica depois desta queda é uma: ao contrário das expectativas dos investidores que mesmo com as polémicas que marcaram o arranque do ano da gigante rede social – e principal fonte de negócio da Facebook INC – continuaram a investir valorizando a empresa, a Facebook INC, não é a empresa perfeita nem tem um potencial de crescimento infinito.

Para além disso os dados revelam também alguma necessidade de acerto no modelo de negócio vigente até aqui. Seja pela regulação imposta por normas como o RGPD ou em sequência de das audições de Zuckerberg nos diferentes parlamentos para falar sobre as políticas da plataforma. Facto é que este trimestre foi também aquele em que o crescimento da Receita Por Utilizador foi mais baixa, especialmente na Europa.

É interessante também perceber que entre as empresas que figuram na lista de records de quedas abruptas na bolsa estão grandes tecnológicas e não maus exemplos da banca ou doutra área de risco. Outro dos dados que confere alguma normalidade ao caso.

Quanto a consequências. Apesar do alarme não é provável que o tombo faça muita mossa na empresa ou na sua operação. Há dois dias valia 630 mil milhões de dólares pelo que perder 120 sendo muito não é escandaloso, como se lê num artigo da Bloomberg: é preciso tê-los para os perder. Quem detém acções da empresa e depende da sua transação para realizar mais valias financeiras é que poderá ter dias mais complicados. Não é o caso mas Mark Zuckerberg serve de exemplo. A confirmar-se este market cap e preço por acção, a fortuna do norte-america desce uns mil milhões afastando-o do pódio dos homens mais ricos do mundo, até ao 6º lugar.