FMM: 20 anos de multiculturalidade organizada

Porto Covo e Sines comemoram 20 anos de FMM e mostram qualidade na programação e organização.

Mário Pires/FMM

O medievalismo do castelo de Sines foi novamente ocupado com os últimos dias do Festival Músicas do Mundo (FMM). Um festival que preza pela mistura de notas culturais de vários cantos do mundo e que atrai guerreiros medievais, nómadas de tendas e auto-caravanas que de uma forma organizada se juntam em grupos na praia ou seguem em procissão até às muralhas do castelo.

O Shifter passou pelo os dois últimos dias do FMM Sines 2018 e foi o suficiente para experienciar estilos e cantigas para todos os gostos. Pela grande dificuldade de sair de Lisboa e alguns atrasos naturais de um verão no Alentejo, a chegada tardia ao festival impediu-nos de ver uma artista rara do Bahrain. A frustração passou assim que chegamos ao ambiente do castelo, repleto de pessoas e músicas de todos os estilos.

A organização do FMM conta com uma experiência de 20 anos e isso consegue-se sentir em todos as áreas do evento. Sorrisos e um sentimento de paz passam por nós nos transeuntes à medida que circulamos por toda a vila de Sines.

A experiência é única e sentimo-nos verdadeiros cidadãos do mundo. De todos os festivais de verão podemos afirmar que FMM é ainda um dos únicos que consegue passar uma experiência internacional em harmonia com as culturas de cada banda em sintonia com os espectadores.

A seleção das bandas por parte da organização não segue tendências mas o objectivo de criar uma experiência mundista. E de facto consegue pôr as pernas a dançar desde a música mais tribalista de Zimbábue a músicas com conteúdo político, provenientes do médio oriente.

As músicas

Como era de esperar, foi possível ter um gostinho de qualquer tipo de estilo musical ou dança. O FMM mostra especial cuidado com a diversidade em qualquer uma das noites e as passagens das bandas são sempre intercaladas com vídeos editados de outros concertos, não desviando atenções do próprio festival.

Tivemos acesso a  música da actualidade popular brasileira com Tulipa Ruiz; ainda representando as terras tupiniquim no palco surgiram também, não tão encantadores como esperado, os batuques folclóricos e as mensagens subliminares dos Cordel do Fogo Encantado. Seguiu-se uma viagem até ao médio oriente, muito bem representado com o indie rock experimental de Yasmine Hamdan. A sua presença de palco é bem expressiva e fez todo o público apreciar com curiosidade a voz sensual, o discurso político e o rock alternativo da Libanesa.

Mário Pires/FMM

A maior surpresa foi mesmo o Jazz moderno e alegre dos Sons of Kemet de Shabaka Hutchings. Vieram ao FMM apresentar os The Comet Is Coming, projecto com toque de música caribenha de que Shabaka tem muita influência. A banda apresentou-se forte e explosiva através com duas baterias tocadas em simultâneo, sem tréguas, a causar euforia aos espectadores. Os momentos altos foram vários, sempre que o líder estendia sobre o restante quarteto o saxofone forte e melódico. Dias antes do festival, a banda tinha sido nomeada para o prémio Mercury fazendo do concerto um dos maiores e mais especiais do 20º Festival Músicas do Mundo em Sines.

Mário Pires/FMM

Em sentido inverso, a maior desilusão foi o cancelamento do concerto dos Inner Circle no FMM Sines – Festival Músicas do Mundo 2018, marcado para a última noite no palco da praia. A razão do cancelamento foi uma quebra de segurança registada no aeroporto de Munique em última hora, que suspendeu a operação do aeroporto durante algumas horas e causou o caos na sua reativação.

A experiência FMM

Além da música o festival segue as tendências ambientais para um melhor ambiente e menos desperdício. O uso do copo reutilizável do FMM Sines 2018, ou até mesmo de outras edicões, era obrigatório e não havia outra forma de consumir bebidas nos bares. No andar de baixo, na Av. Vasco da Gama, o copo era facultativo, mas sempre recomendado. Os comerciantes em redor do festival também mostravam sensibilidade e também aceitavam o copo na venda de bebidas.

Quando os concertos no castelo acabam, toda a enchente de pessoas se junta aos já presentes no palco do andar de baixo na Av. Vasco da Gama em Sines. O espetáculo continua com fogo de artifício que celebra nada mais do que as Músicas do Mundo e a fusão delas para um mundo melhor. Já não existem tribos e sim uma união da música dançante a atingir todos os espectadores com um sentimento de nunca querer sair verdadeiramente de lá.