Um festim em Águeda

Omar Souleyman esteve em Águeda – sete anos depois do concerto em Paredes de Coura e do início do conflito na Síria. Um espectáculo que, para nós, foi também um pretexto para conhecer esta cidade do distrito de Aveiro.

Águeda Festim

“Havia pessoas a dizer que só queriam ouvir o Omar Souleyman. O resto é mais do mesmo.” As palavras eram de um senhor de pele envelhecida e cabelo longo mas grisalho, que deveria ter uns 70 anos. Estava sentado ao nosso lado na esplanada do restaurante. “É música árabe.” O restaurante onde estávamos é aquilo a que podemos chamar de ‘restaurante típico’. Bife de vitela grelhado e febras também grelhadas e acompanhadas por batata frita eram os únicos dois pratos disponíveis à hora do jantar. Já não havia sobremesas. Deverá ter sido um dia concorrido.

Estamos em Águeda, uma cidade no distrito de Aveiro mas para o interiorao contrário de Ílhavo. O dia tinha sido de sol mas terminara com algum frio. Era também um dia de festa. Decorria o Agit’Águeda, um festival organizado pela Câmara Municipal que todos os anos pela altura de Julho anima as ruas da cidade. Guardas-chuva coloridos pintam algumas ruas no centro histórico, há música a sair incessantemente de altifalantes e actividades para as famílias aproveitarem fora de casa ao longo de um mês inteiro, desde um encontro de estátuas vivas a um desfile canino, ou também a um Carnaval fora de horas ou a concertos da mais variada espécie.

Uma Águeda agitada

A agitação do Agit’Águeda alinha-se bem com o resto da cidade. Os guardas-chuvas viam-se noutras ruas e bares que não os do centro, e também a enfeitar candeeiros. Há arte urbana por todos os cantos, seja revestindo edifícios inteiros ou só uma parte deles, mas também em bancos ou caixas de electricidade. Supomos que sem Agit’Águeda haja menos animação em Águeda, mas nem por isso que esta seja um ponto morto. É uma cidade inteligente, que tem vindo a usar a tecnologia para melhorar a vivência das pessoas e a gestão urbana. Há um “centro de comandos” onde é possível receber as incidências que os munícipes reportam e encontrar soluções imediatas, bem como monitorizar o que se passa em tempo real na rua. Há uma rede de wi-fi pública, uma app que permite explorar animações escondidas na arte urbana da cidade, há tablets na sala de aula, há um laboratório gratuito onde gratuitamente é possível imprimir em 3D ou cortar a laser, há bicicletas partilhadas. Estas são, talvez, o projecto mais visível na cidade por quem a visita.

As docas são iguais às do sistema GIRA, em Lisboa, e as bicicletas também. Mas não vimos nenhuma na rua – Águeda já tinha tido um sistema de bike sharing, que aparentemente começou a ser renovado em 2017 e que será composto apenas por veículos eléctricos, não devendo estar ainda terminado. Está a ser montado pela Órbita, uma empresa de bicicletas que nasceu em Águeda em 1971, exporta mais de 80% da produção para todo o mundo e tem-se renovado com uma solução de bicicletas partilhadas – contratada já por cidades como Benavente ou Pombal, além de Águeda e Lisboa. O hostel em que ficámos é também sinal do dinamismo comercial de Águeda. Tinha sido inaugurado há um ano: “Fizemo-los há duas semanas”, contava-nos uma das funcionárias que também deveria ser dona, enquanto nos entregava as chaves. O espaço ainda cheirava a novo: havia vários quartos com beliches com uma cortina cada, um bar com um jardim exterior, pequeno-almoço “faz tu mesmo” e uma decoração entre o vintage, o moderno e o jovem.

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Publicado por AgitÁgueda em Quinta-feira, 19 de Julho de 2018

Esperávamos encontrá-lo mais cheio, é certo, principalmente com o Agit’Águeda a decorrer e com Omar Souleyman à noite. Mas depressa percebemos, olhando à volta, que quem participa nestes festivais é sobretudo de Águeda mas também há quem venha de fora – chegar ali é meia hora de comboio de Aveiro, seguido de uma hora do Porto ou de Coimbra; ou um total de três horas até Lisboa, tudo de comboio. Ainda assim, não deixa de ser um ambiente que se sente familiar, mas que, no meio dessa familiaridade, vai tendo algumas surpresas. Municípios como o de Águeda procuram com este tipo de iniciativas atrair pessoas de fora – são como que um convite para conhecer a aldeia, a vila, a cidade, a região; quem sabe se não ficamos a gostar e com vontade de voltar. De outra forma, que pretexto teríamos para ir a Águeda?

Omar Souleyman a agitar ainda mais

Omar Souleyman não ia actuar no Agit’Águeda, mas antes no Festim, um festival de músicas do mundo que corre os municípios de Águeda, Albergaria-a-Velha, Sever do Vouga, Estarreja, Ílhavo e Oliveira do Azeméis ao longo de vários fins-de-semana. Águeda já tinha recebido concertos de La Yegros e de Waldemar Bastos, e preparava-se para receber o encerramento desta 10ª edição do Festim com Omar, músico da Síria aclamado no mundo ocidental.

A primeira vez de Omar Souleyman foi em 2011 no festival Paredes de Coura, regressou a Portugal em 2017 com álbum novo – To Syria, With Love –, que apresentou em Vila Nova de Gaia. Em Maio deste ano já tinha estado em Lisboa. A Síria de 2011 não é a mesma Síria de 2018. Foi há sete anos que começou um conflito sem fim – “começou com uma revolta contra o ditador Bashar al-Assad mas que depressa se tornou numa longa e brutal guerra por procuração”, escreve o Observador. De acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), órgão das Nações Unidas, desde 2011 a Guerra da Síria já provocou 511 mil mortes e obrigou 5,6 milhões de pessoas a deixarem o país em busca de segurança – a tornarem-se refugiados.

To Syria, With Love é, como o título elucida, uma prenda para os sírios. Um disco que diz transparecer a dor que aterroriza o seu país (sem, no entanto, abordar política), mas que também tem temas bonitos porque os sírios são, acima de tudo, um povo positivo. Omar vive actualmente na Turquia porque a sua vida exige estar constantemente a viajar e na Síria não existem voos internacionais desde 2012. A sua carreira começou nos anos 1990 em casamentos e foi nessa vida e no seu país (fora do qual não imaginava ter sucesso) que gravou mais de 500 álbuns ao vivo. Em 2007, uma editora norte-americana descobriu Omar e mostrou-o ao mundo – desenvolveu-se um certo de culto indie. Foi assim que Omar chegou à Europa, ao Canadá, à Austrália, a Paredes de Coura, a Águeda. Foi assim que tocou no festival britânico Glastonbury em 2011 ou na cerimónia de entrega do Nobel da Paz em 2014; foi assim que colaborou com Björk ou Four Tet.

Há qualquer coisa em Omar Souleyman que nos prende – a nós do Ocidente. Não é aquele tipo de “músicas do mundo” que rapidamente aceitamos, que se encaixa de certa modo nos padrões a que estamos acostumados, como escreve o The Guardian. Não é pelas letras, que essas nem todos compreendem. Por isso, só podem ser os ritmos – quer aqueles que foi buscar à tradição Síria e que saem dos sintetizadores, quer os que o músico sírio tenta arrancar à plateia sempre que pede palmas. Em Águeda, num palco junto ao Vouga, Omar conseguiu o mesmo que tinha conseguido há sete anos, em Coura: colocar o público todo a dançar. Houve direito a uma versão do “Macarena” espanhol. E no final houve quem – quase todos – pedisse mais, mas Omar não fez encore.

Regressámos a Lisboa depois de uma tarde e noite em Águeda. Fizemos a viagem de comboio, como na ida, através da Linha do Norte e depois da Linha do Vouga, uma das ligações ferroviárias mais desprezadas em Portugal. Tão desprezada que é interrompida a meio por um serviço de táxi. Comboios cheios de grafites que não deixavam ver a vista, mas que, ainda assim, circulavam a uma velocidade aceitável. Meia hora até Aveiro é uma viagem curta, feita a ler a imprensa regional para matar a curiosidade pela zona – o Região de Águeda e o Jornal da Bairrada. Este último recebeu o “Prémio Gazeta Imprensa Regional 2013”. No primeiro, encontrei uma entrevista a Luís Fernandes, da associação d’Orfeu, que organiza o Festim, e na qual dizia: “Nas salas e recintos de todos os municípios se sentiu a mescla da comunidade local com uma franja itinerante de espectadores que percorreu os concertos, estivessem eles onde estivessem.” O responsável referia também que o Festim “inaugurou uma filosofia de trabalho em rede na nossa região” e lembrou que o festival integra uma rede internacional de festivais de músicas do mundo, “o que lhe confere reconhecimento a uma grande escala junto dos artistas e permite oportunidades inigualáveis de programação”. Noutro artigo, falava-se da cerveja do Agit’Águeda, a Mahou – uma marca espanhola comercializada e vendida nos vários bares, bancas e outros espaços do festival em regime de exclusividade, o que deixou a Super Bock e a Sagres de fora; uma adjudicação que gerou alguma controvérsia política e por parte da Super Bock Group e da Central de Cervejas.