Paz comercial ou guerra económica? O comércio global está a mudar

O jogo de pressões e contra-pressões está aceso e a China é o jogador mais falado.

O Shifter tem acompanhado atentamente as questões do comércio internacional e os avanços e recuos de tratados transnacionais promovidos pelas maiores potências do mundo. Há mais de 2 anos, explicámos aqui o TTIP, um acordo negociado entre os Estados Unidos e a União Europeia e também o que iria mudar na génese do tratado na transição Obama-Trump.

Desde o final de 2016 até há cerca de uma semana, o cenário parecia determinado. Os EUA de Trump estavam de costas voltadas a uma zona de comércio livre com a UE. Se as ideias comerciais eram antagónicas, pior ficaram quando existiram ameaças de aumento de tarifas de parte a parte relativamente a produtos como o aço, ferro ou automóveis. Cecilia Malmstrom, comissária europeia para assuntos comerciais, reiterou, por diversas vezes, que o assunto TTIP estava congelado e hibernado até provas em contrário.

Nesta lógica global, os players dos dois lados do Atlântico procuram estabelecer alianças com outras potências de modo a colmatar o arrefecimento comercial existente. A União Europeia alcançou um acordo histórico com o Japão, que se arrastava há alguns anos. Também na América do Sul, importantes parcerias foram firmadas. Os Estados Unidos da América, por seu lado, piscaram o olho ao Reino Unido, no âmbito de toda a dinâmica Brexit mas também reactivaram com mais vigor uma plataforma de entendimento com a Rússia.

Este artigo podia terminar por aqui não fosse a última semana. No final do mês de Julho de 2018, o mundo assistiu a uma inversão total dos acontecimentos. No inicio do mês, a UE era o “principal inimigo” dos EUA, no momento actual as duas unidades políticas e económicas são novamente amigas. O que mudou é impossível dizer com exactidão. O que virá a seguir é igualmente difícil de prever. Porém é possível traçar um esboço daquilo que se convencionou chamar “trégua ou paz comercial”.

Acima de todas as medidas de acção, estão as posições anuladas. Os Estados Unidos comprometeram-se a deixar cair as tarifas aduaneiras que se preparavam para agravar, colocando um ponto final nesta questão. Se este ponto será uma virgula disfarçada, só o tempo o dirá. Na visita de Juncker à Casa Branca, evento este que terá desbloqueado este impasse, ficou a ideia dos dois lados que o comércio livre é algo potencialmente positivo para as duas potências. Em relação a medidas concretas, Trump reiterou a expectativa de um maior impacto exportador do sector agrícola americano na economia europeia. Do lado europeu, o sector automóvel foi aquele que requereu maior atenção numa futura negociação transatlântica.

Antes da visita da comitiva de Juncker aos EUA, Trump escreveu no Twitter que a ideia de comércio livre, para ele, seria uma queda das tarifas e barreiras aduaneiras entre as duas partes. Rapidamente se percebeu que o TTIP podia ser a resposta para este ideal. Todavia não se sabe ao certo se os moldes de um novo acordo partirão com as bases do TTIP ou se a resposta consistirá num novo processo de raiz.

Se existem muitas inquietações e interrogações, há pelo menos uma certeza. O jogo de pressões e contra-pressões está aceso e a China é o jogador mais falado. A potência asiática é o grande alvo a combater em matéria de trocas comerciais. Aceitando esta premissa, UE e EUA percebem que juntos podem ser mais fortes nessa disputa pela ordem comercial mundial. Por seu lado, e cada potência isoladamente tenta à sua maneira estabelecer pontes de contacto com a China de modo a manter a diplomacia económica estável, sem extremar de posições.