Depois do 1º encontro, Putin e Trump são um só

Foi, como disse o antigo Secretário da Defesa dos EUA, Ash Carter, "como assistir à destruição de uma catedral".

Donal Trump

Em Junho, foi notícia o início do romance entre Donald Trump e Kim Jong-Un. Depois de vários meses de trocas de acusações e picardias, o primeiro encontro entre os líderes norte-americano e norte-coreano foi, segundo ambos, “honesto, directo e produtivo” e deixou o mundo de olhos postos no futuro, ainda que se preveja incerto. Tudo parecia indicar que Donald e Kim eram os protagonistas do romance do ano, uma espécie de BrAngelina do mundo político, com possíveis efeitos nucleares e uma página certamente conquistada nos livros de história contemporânea.

Mas enquanto pouco se sabe acerca do futuro da relação explosiva, se dá casamento ou divórcio, Trump vai-se entretendo no seu arriscado Tinder diplomático. Na passada segunda-feira, o Presidente dos Estados Unidos parece ter-se voltado a apaixonar à primeira vista. No primeiro encontro oficial com Vladimir Putin, os dois líderes parecem ter unido definitivamente as linhas de destino. A Casa Branca tinha previsto que o encontro privado entre ambos durasse 90 minutos e acabou por durar mais de duas horas. Seguiu-se um almoço, ao qual se juntou o secretário de Estado, Mike Pompeo, e o embaixador dos Estados Unidos na Rússia, Jon Huntsman. No final, Trump e Putin deram uma conferência de imprensa conjunta, na qual anunciaram ao mundo o sucesso do seu primeiro date.

Os conflitos na Síria e na Ucrânia, o desarmamento nuclear e a suposta interferência de Moscovo nas eleições dos Estados Unidos constavam da agenda da reunião, mas este último tema roubou as atenções, tanto que ainda ecoa e promete ressoar por mais tempo.

Depois de o Presidente norte-americano ter admitido que os dois passaram “muito tempo” a discutir as acusações de ingerência russa nas Presidenciais, Putin afirmou que queria que Donald Trump vencesse a eleição presidencial de 2016, mas rejeitou que tenha tomado alguma atitude durante a campanha eleitoral para que isso acontecesse. O líder russo referiu que pretendia a vitória do agora homólogo por causa das suas políticas. Donald Trump também reafirmou que não houve “conluio” entre a sua campanha e os russos, depois de Putin insistir em negar tudo. “Fizemos uma campanha brilhante, por isso é que eu sou o Presidente. As sondagens são um desastre no nosso país, não existiu nenhum conluio“, afirmou Trump. Além disso, disse que não tinha motivos para acreditar que a Rússia tivesse sido responsável por tal acto.

É essa a declaração no centro da polémica. Como aquelas pessoas que quando se apaixonam e entram numa relação se esquecem dos amigos, do que ficou para trás, Trump esqueceu-se da lealdade que deve por inerência às instituições do estado que governa.

Na sexta-feira anterior, o procurador-geral adjunto dos Estados Unidos, Rod Rosenstein, revelou a acusação a 12 oficiais de inteligência russa, por práticas de pirataria informática no acto que elegeu Donald Trump para a Presidência.

Os russos são acusados de invadir as redes de computadores do Comité Nacional Democrata, do Comité Democrata de Campanha do Congresso e da campanha presidencial de Hillary Clinton, libertando depois os e-mails roubados na Internet durante os meses que antecederam a eleição.

Anteriormente, 20 pessoas e três empresas tinham já sido indiciadas na investigação à alegada ingerência russa nas últimas eleições, que o procurador especial Robert Mueller lidera.

Importa lembrar que isso inclui quatro ex-elementos da campanha de Trump e assessores da Casa Branca e 13 russos acusados de participar numa campanha de redes sociais, para influenciar a opinião pública norte-americana na eleição de 2016.

Acusado de traição pelos Democratas, pela comunicação social e pelo povo americano de uma forma geral, Trump viu-se obrigado a vir a público por os pontos nos is e, qual Trump, piorou a situação. Depois da enxurrada de críticas de que tem sido alvo até dentro do próprio Partido Republicano, o Presidente norte-americano veio esclarecer que “se exprimiu mal” e não se explicou da melhor forma na conferência conjunta com Vladimir Putin. Naquilo que descreveu como um mal entendido por causa da diferença entre “would” e “wouldn’t”, Trump esclareceu que em vez de dizer que “não vê razões nenhumas para que tenha sido a Rússia”, responsável pelo ataque informático, queria ter dito que “não vê nenhuma razão para que NÃO TENHA SIDO a Rússia”.

Justificou o comentário à revelia das mais recentes conclusões de agências e serviços de informações dos EUA com um erro gramatical numa das frases-chave captadas pela imprensa, esquecendo-se de adicionar um “sufixo negativo” e acabando por enviar uma mensagem no sentido contrário ao desejado. Devia ter sido uma dupla negativa.

Fez questão depois de esclarecer que tem “plena fé” nos serviços secretos e agências norte-americanas e que “aceita” as conclusões que tornaram públicas. O Presidente norte-americano explicou que esteve a reler a transcrição da conferência de imprensa após a cimeira com Putin e que entendeu “que havia necessidade de fazer uma clarificação“. Nesta declaração, Trump não faz qualquer menção às duras críticas de que foi alvo nas 24 horas que se seguiram às suas declarações.

Para fechar uma semana de muita emoção, Trump pediu que a sua equipa convidasse o líder russo para a Casa Branca no outono, pouco antes das midterm. Enquanto se especula como estará o romance nessa altura, o primeiro encontro de Trump com Putin em Helsínquia, garantiu um lugar nos livros de história. No que é que vai dar afinal de contas este relacionamento enigmático do Presidente dos Estados Unidos com a Rússia?

O mais incrível é que, apesar de toda a diplomacia intrigante e descuidada, e do coro de críticas de todo o espectro político norte-americano e internacional, o episódio parece ter causado pouco dano a Trump entre os seus leais seguidores, apenas reforçando a suspeita dos seus críticos.

Depois das duas horas em que os dois protagonistas desta história estiveram sozinhos, apenas com a companhia dos tradutores – as autoridades de segurança nacional de Trump admitem que ainda não têm ideia do que foi dito ou prometido, – Trump declarou: “O nosso relacionamento com a Rússia nunca foi pior do que é agora. No entanto, isso mudou à cerca de quatro horas”. O rosto de Putin era inescrutável. Houve risos involuntários entre os jornalistas da Casa Branca.

No rescaldo: teria mesmo o Presidente norte-americano ficado do lado do líder de um país historicamente considerado hostil, em vez de apoiar as suas próprias agências de inteligência e de aplicação da lei? Sim. Foi, como disse o antigo Secretário da Defesa dos EUA, Ash Carter, “como assistir à destruição de uma catedral”.