Whataboutism: a técnica que desconheces mas provavelmente dominas

Apesar da aparente inocência da expressão, utilizada nos contextos certos pode ser o suficiente para desviar atenções sobre algumas temáticas.

‘Whataboutism’, ‘Whataboutery’ ou, numa tradução prática, ‘E-aquilismo’ pode parecer um novo conceito introduzido por algum internauta nos tempos recentes para caracterizar as discussões online mais dispersas mas não é. É uma figura retórica conhecida e utilizada há alguns anos que agora ganha nova tração, sendo recuperada para junto do léxico que se vai consolidando para falar de informação online. A saber, temos, pelo menos, para dar o exemplo: Fake News, Alternative Facts, Spin e, agora, Whataboutery.

O conceito tem proveniência anglo-saxónica e, segundo é possível aferir na internet terá começado a ser utilizado ainda no tempo da União Soviética como prática retórica para dissipar as críticas sobre este bloco político, devolvendo-as sob a forma de “E aquilo que os americanos fizeram [inserir aqui data ou local]?”. Todavia ganhou uma nova vida tornando-se particularmente popular no Twitter, nomeadamente em discussões sobre Donald Trump, o Estado de Israel, ou sob forma de crítica às discussões públicas recheadas de trocas de acusações deste género simplista.

Apesar da aparente inocência da expressão, utilizada nos contextos certos pode ser o suficiente para desviar atenções sobre algumas temáticas. Sem contra-argumentar, este mecanismo retórico é ‘ideal’ para tirar peso ao facto em comentário, sem o justificar, relativizando-o apenas em comparação com outro facto.

A prova de que o conceito já não é novo é que a sua definição surge num dos mais conhecidos dicionários, o Oxford Dictionaries:

  • The technique or practice of responding to an accusation or difficult question by making a counteraccusation or raising a different issue.

    ‘the parliamentary hearing appeared to be an exercise in whataboutism’
    Also called whataboutery

No fundo, o whataboutism é uma derivação da falácia tu quoque, em que B descredibiliza a utilização do argumento X, por A, alegando algo que A fez como incoerente ou contraditório. Mais um da lista de argumentos falaciosos que podem ser usados para manipular uma discussão.

O problema associado a esta prática discursiva é que tira importância ao argumento ou ao facto apresentado enfatizando quem o diz, algo que numa discussão rigorosa e isenta deve ter o mínimo peso.

De qualquer modo importa salientar que a utilização da expressão ‘E aquilo’ ou ‘What about’ nem sempre é uma aplicação da falácia lógica do ‘whataboutism’, podendo por vezes ser uma forma de introdução de uma questão séria e rigorosa, importante ao debate. Tal como na Lei de Godwin, é importante que se verifique a proporcionalidade entre as premissas para se perceber se a lógica do argumento se mantém ou é dizimada.