As “Guerreiras” do Bairro da Torre

O Bairro da Torre, a 15 minutos de Lisboa mas longe de holofotes, exceptuando quando rusgas polícias fazem notícias criminais.

As “Guerreiras” do Bairro da Torre

Desde 19 de Outubro que cerca de 70 famílias e mais de 250 pessoas vivem sem electricidade. Já foi a parlamento, correu a imprensa e passado um inverno a escuridão regressa sempre que o sol se põe. Para lá deste cenário há quem não baixe os braços. A política também se faz no feminino e várias mulheres têm sido agentes activas/os numa luta por melhores condições de habitabilidade.

O Bairro da Torre, a 15 minutos de Lisboa, fica em Camarate, junto ao aeroporto, em terrenos ocupados. Outrora formado por centenas de barracas, restam agora cerca de 50. Fora de holofotes, exceptuando quando rusgas polícias fazem notícias criminais, ficou mediatizado por um corte de energia que, sem aviso prévio, deixou centenas de pessoas sem energia e à mercê de um Inverno rigoroso. Várias organizações mostraram a sua solidariedade e da escuridão emergiram rostos femininos que encabeçam uma luta por mais direitos.

Quitéria (esquerda) e Maria da Conceição (direita), umas das habitantes mais antigas, vive há 19 anos no bairro e garante que “as pessoas se têm unido”. Durante a distribuição de roupa levado a cabo pela Reagir Social no salão de convívio da Torre Amiga.

Numa manhã solarenga de sábado, o verde intenso das ervas e o castanho das estradas de terra batida contrapõem-se com o cinzento das barracas que irrompe, ora mais concentrado ora mais disperso, por um vasto território, claramente dividido em dois pólos. Numa entrega de roupas realizada dia 22 de Abril pela Associação Reagir Social a Torre Amiga, associação de moradores, retoma mais um dia de funções sociais. À entrada estão duas mulheres que, em limpezas, dão as boas vindas e mandam chamar a presidente da Associação.

Para Quitéria o bairro faz-lhe lembrar São Tomé, sente-se “como se estivesse mesmo em África”, o problema “é que falta electricidade”.

Em conversa com estas duas mulheres, Quitéria e Nicolaiva, de pele negra e uma voz poderosa que mistura português com crioulo, contam como é viver no Bairro da Torre. Quitéria é uma habitante recente, chegou há cerca de dois meses de São Tomé, já tinha visitado o bairro várias vezes, mas quando chegou não esperava encontrar “tudo escuro”. Embora ainda tenha passado “muito mal” com o frio que se fez sentir em Fevereiro gosta de viver no bairro, a proximidade ao aeroporto faz-lhe lembrar a ilha onde vivia. Aponta para a origem de todo o problema, defende “que há aqui uma questão de racismo” acrescentando que também são seres humanos.

Nicolaiva considera que “quem cortou a energia não tem a educação”.

Nicolaiva também partilha do carinho pelo Bairro da Torre. Vive lá há pouco mais tempo que Quitéria, há cerca de 1 ano. Diz sentir que “há muita energia no bairro”. Descreve a sua comunidade como um local “sem confusões, sem guerra, uma vida calma e sem dores de cabeça, uma vida que todo o mundo vai querer para uma pessoa”, no entanto, as condições mudaram, “a dado momento haviam condições” e sem saber o porquê cortaram a energia, deixando-a numa situação pela qual nunca tinha passado em toda a sua vida. A única coisa que “falta é a energia, está tudo escuro”. Acredita que com esta adversidade as pessoas não se desmoralizaram, concluindo que estão “sempre unidos, graças a Deus (…) para o que der e vier”.

Ricardina, presidente desde 2012 da Associação Torre Amiga.

É uma mulher que lidera o Bairro, e pela qual muitas pessoas guardam muita confiança e admiração. Ricardina Cuthbert tem sido o rosto de uma luta que começou em 2012. Diz que o bairro se uniu em torno da Torre Amiga, uma associação criada inicialmente para travar “demolições sem aviso prévio”. Por já estar há muito tempo neste cargo político, diz querer descansar, no entanto, parafraseia as pessoas que a apoiam que estão dispostas a “trocar de muitas coisas menos da presidente”.

Esta representante do bairro aponta outro motivo para a sua actuação em torno da vida pública, diz sentir “muito com a situação das pessoas” e as condições em que estas vivem, “situações muito precárias e miseráveis” acrescenta. Quando questionada para os motivos da falta de condições não hesita em afirmar: “falta de amor ao próximo”. Para ela o “amor não tem cor, não tem raça e não tem nacionalidade”, o que se passa nesta “situação desumana” deriva da “maldade humana” e da “falta de vontade” de “quem tem o poder na mão”. Não baixa os braços e fala dos projectos que tem desenvolvido com a associação. Desde recolhas de lixo até à consciencialização das pessoas perante as demolições.

Para Ricardina, a criação da associação tornou a comunidade “numa família” e um dos projectos que mais contribuiu foi a criação de “uma festa em Setembro que já dura há quatro anos tem unido muito o bairro”. O bairro da torre é hoje um lugar “seguro”, “calmo” e “bonito” onde qualquer pessoa pode “entrar e sair a qualquer hora”. Para contrapor a imagem negativa ligada a “roubos, tiroteios e droga” há um projecto colectivo “uma outra imagem” que se espelha neste projecto associativo que já conta com uma cozinha e lavandaria comunitárias. Por fim, remata que o importante, no meio de tudo isto, é “as pessoas sentirem-se unidas e verem que a vida é uma coisa que têm de viver com dignidade e amor”.

Maria Cardoso, residente desde 1992.

Na zona baixa do bairro há uma maior representação cigana. Um dos pólos desta comunidade órbita em torno da casa de Maria Cardoso, residente desde 1992. O problema do corte da electricidade ocupa grande parte do seu discurso. Não podendo conservar comida tem de despender os seus dias a comprar comida diariamente, preocupa-se também com as crianças que, por não terem luz para estudar, “não vão ter aproveitamento escolar”. Maria Cardoso fala por experiência própria quando diz “vive no escuro e no sofrimento” até que haja “uma resposta da câmara”. Tem esperança que tudo mude, em parte pela confiança que deposita no trabalho de Ricardina. Define-a como uma pessoa “que vai sempre à frente” e que se não fosse ela não saberia “como é que o Bairro da Torre estaria”. Não tem dúvidas, “sempre que alguém precisa de uma informação recorre-se sempre à Ricardina” ou como por vezes a intitula: “nossa presidente”.

As queixas obscurecem-se, relata existir violência policial e denuncia um clima de medo, principalmente pelas crianças que diz estarem traumatizadas. As revistas são constantes e “sem motivos” e caso haja “desconfiança levam para a esquadra e levam porrada”. Acusa a polícia de racismo pois “só fazem isto com os pretos e os ciganos”. Para Maria Cardoso a violência parte da polícia, o bairro “não é como dizem, é muito sossegado e as pessoas não são violentas”. Acrescenta que as/os policias “estão sempre em cima” não permitindo que sejam feitas puxadas.

“Uma luta muito no feminino”

Noémia acompanhada pela filha Mery e pela sogra Maria.

Já a uns 10 minutos a pé, e por entre barracas e entulho de demolições, há um outro espaço comunitário do bairro. Noémia Neves vive aqui há catorzes anos, numa vida de “sofrança”. Com uma boa disposição e amabilidade notáveis, está acompanhada pela filha Mery e pela sogra Maria das Neves, fala-nos do marido que a ajuda por não poder trabalhar devido a um problema de saúde. Ainda assim, reúne forças para manter o espaço em que está, uma espécie de salão onde semanalmente são organizadas festas. Encara a vida como uma “luta” e um “desafio” e reconhece que é “uma luta muito no feminino”. Tem esperança num realojamento e considera que, apesar de algumas queixas, “acha bem e é bom”, afirma que as pessoas têm “de arranjar uma nova comunidade lá e gostar do outro lugar também”.

Com explicar estas presenças matriarcais?

Maria Avelino, vice-presidente da direcção da Reagir Social, explica o porquê desta política no feminino. Vê nestas mulheres “o suporte e a armadura contra tudo o que se passa naquele contexto e o grande elo de ligação com o exterior”. São várias as condicionantes que empoderam as mulheres a tomar uma posição política. Maria aponta para o facto de muitas vezes estarem “sozinhas a criar os seus filhos” o que lhe dá um “espírito de luta, de guerreiras” na defesa do seu espaço doméstico. Esta situação pode ser proporcionada “pelo poder cultural” patriarcal que as leva a afirmarem-se como gestoras da comunidade. Finaliza atribuindo a estas mulheres uma enorme capacidade de mediação “de conflitos existentes no bairro” e “a capacidade que têm de relacionamento com exterior” que conflui num “destaque de liderança”.

Espaço comunitário onde se encontrava Noémia Santos.
Sem electricidade as pessoas voltam a usar formas tradicionais de lavagem de roupa.
Igreja do Bairro, neste espaço realizam-se assembleias de moradoras/es, culto católico e evangélico.
Interior de uma barraca.

Nota: situação no Bairro da Torre está longe de estar resolvida mas já começaram a ser realojadoas as primeiras famílias; as respostas a esta entrevista podem estar em certos pontos datadas, mas a sua realidade é intemporal e quase sempre desconhecida dos nossos olhos.

Texto de João Miguel, revisto por João Ribeiro