Bons Sons e uma aldeia que continua a dar que viver

A 9ª edição do festival foi a mais concorrida de sempre. Mas os números são por si só incapazes de espelhar a essência de um festival único, que soube uma vez mais acolher e cativar aqueles que visitaram e viveram a aldeia durante estes quatro dias de festa.

Concerto de Rodrigo Amado Motion Trio (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

O festival Bons Sons 2018 encerrou em festa no passado domingo, dia 12, depois de quatro dias quentes de grandes concertos e inúmeras surpresas e actividades que uma vez mais trouxeram vida e encanto à aldeia de Cem Soldos, em Tomar. Apresentando-se sob o novo mote de “o teu amor de Verão”, a 9ª edição do Bons Sons bateu recordes de bilheteira, tendo chegado aos 38 500 festivaleiros num evento que envolveu mais de 200 artistas diferentes em 52 espetáculos distribuídos pelos 8 palcos da aldeia. Os números, contudo, são por si só incapazes de espelhar a essência de um festival único, que soube uma vez mais acolher e cativar aqueles que visitaram e viveram a aldeia durante estes quatro dias de festa.

Logo na quarta-feira, dia da tradicional recepção ao campista, era palpável o sentimento geral de entusiasmo no rosto dos vários residentes e voluntários que aguardavam ansiosamente o início de mais uma edição do Bons Sons. Cerca de 420 voluntários, 100 dos quais provenientes de fora da região de Tomar, juntaram forças nos preparativos para a 9ª edição do Bons Sons, desdobrando-se nas mais variadas tarefas de forma a assegurar o bom funcionamento daquele que é apropriadamente conhecido por alguns como “o festival dos voluntários”. A antecipação de uma semana de árduo trabalho – mas também de companheirismo e camaradagem –, terminava com a chegada dos primeiros visitantes à aldeia, que depressa começavam a preencher os cantos e recantos da pequena aldeia ribatejana.

Ambiente (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

Desde 2006 que o Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) ergue o seu festival num esforço comunitário de partilha e altruísmo, assente em ideais de respeito e preservação da terra e das suas gentes. No que começou por ser uma celebração do 25º aniversário da associação cultural da terra, o festival Bons Sons, que decorreu num regime bienal até 2014, tem ao longo dos seus 12 anos de existência vindo a crescer em qualidade e em dimensão, consolidando de ano para ano o seu estatuto de excelência enquanto plataforma de promoção da música portuguesa e assumindo-se cada vez mais como paragem obrigatória no roteiro de festivais de música nacional. A ideia de uma programação musical exclusivamente portuguesa que combine no mesmo cartaz projectos emergentes e artistas consagrados mantém-se intacta desde a primeira edição, sendo este o festival ideal para quem queira ouvir os clássicos de sempre e possivelmente vir a descobrir os de amanhã.

Um dos palcos do festival (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

Ainda assim, mais do que a música, é a componente da aldeia-cultura, que abre as portas de casa e recebe com carinho quem vem de fora, que verdadeiramente distingue o Bons Sons dos seus pares e o torna num projecto sem igual dentro e fora do país. Enquanto evento sem fins lucrativos, todas as receitas geradas pela organização do festival são utilizadas em iniciativas sociais e culturais com vista a beneficiar as condições de vida dos habitantes de Cem Soldos. A comunidade, por sua vez, sente na sua maioria um sentimento de orgulho pelo maior projecto da terra, e adere em massa aos preparativos do festival durante todo o ano, ciente do retorno que este lhe trará a si e aos seus.

À medida que o início do festival se aproxima a passos largos, comentam-se na aldeia as alterações introduzidas na edição deste ano. Alguns dos palcos foram renomeados em homenagem a figuras incontornáveis da música e cultura portuguesas, como é o caso do adro da Igreja de São Sebastião – novo Palco Amália – ou do auditório local, rebatizado Auditório Agostinho da Silva. Outra das novidades foi a substituição do Palco Eira pelo novo Palco Zeca Afonso, uma espécie de anfiteatro natural localizado num acolhedor espaço aberto repleto de oliveiras situado por detrás da sede da associação. Ainda que capaz de criar uma agradável sensação de envolvência com a natureza, o terreno irregular e o espaço mais limitado deixaram alguns visitantes com saudades dos concertos na antiga eira.

Foto de Filipa Vieira Dias/Shifter

As mudanças passaram também pela aplicação do plano ecológico do festival, que foi claramente reforçado nesta edição com a adição de urinóis fardo de palha na zona do campismo, novas garrafas de água reutilizáveis, um conjunto de pratos e talheres biodegradáveis feitos a partir de farelo de trigo, bem como a aposta na iluminação por lâmpadas de LED. O objectivo é continuar a diminuir os resíduos, reutilizar os recursos e aumentar a eficiência energética de forma a reduzir a cada edição a pegada ecológica produzida pelo festival. De forma a possibilitar aos visitantes um festival mais cómodo e prático, o Bons Sons introduziu pela primeira vez este ano o sistema de pulseiras cashless, que substituiu o dinheiro “vivo” dentro do festival por um crédito virtual recarregável em vários pontos do recinto. A medida, inovadora, foi bastante elogiada pelo público, que realçou a redução do tempo de espera nas filas do festival.

No que às atividades paralelas diz respeito, a programação do Bons Sons continuou particularmente recheada, como de resto é já imagem de marca do festival. Entre visitas orientadas à aldeia, aulas e passeios com os carinhosos burros de Miranda, espectáculos de artes performativas, visionamento de curtas e vários tipos diferentes de workshops, não faltaram opções no que fazer na aldeia para além da música. A feira de marroquinarias voltou a encher de cor as ruelas da aldeia, enquanto os didáticos “Jogos do Hélder” voltaram a ser uma das opções favoritas para passar o tempo entre o público mais jovem.

Os Jogos do Hélder (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)
Os Jogos do Hélder (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)
Os Jogos do Hélder (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

Seguindo para o plano musical, o festival contou com um cartaz rico e diversificado, figurando inúmeras opções de peso para todos os gostos musicais. Foram vários os concertos memoráveis ao longo dos quatro dias, tendo o festival voltado a comprovar, sem margem para grandes dúvidas, que a música lusa continua carregada de talento e recomenda-se. Salvador Sobral foi o nome forte do dia inaugural do festival, e foi logo o primeiro a surpreender os visitantes com um curto concerto inesperado logo a meio da tarde, no topo de uma escadaria perto do palco Lopes-Graça. Ao longo do festival, também Selma Uamusse, Tomara, António Bastos, Miguel Calhaz, Zeca Medeiros, Moonshiners e Lena d’Água marcaram presença com pequenos concertos espontâneos nos recantos mais escondidos do Bons Sons, numa iniciativa introduzida pela primeira vez no ano passado que revelou ser novamente uma aposta ganha a julgar pela receção dos festivaleiros.

Um concerto inesperado de António Bastos (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

Num dia que contou com fortes prestações por parte de Lince, Tia Graça, Jerónimo, The Lemon Lovers e Fado Violado, Salvador Sobral presenciou o público com um concerto emotivo e repleto de improvisos, habilmente acompanhado pelo pianista Júlio Resende e restantes músicos, em que não faltou um “Amar pelos Dois” cantado a meias com o público efusivo. Depois de Selma Uamusse ter posto toda a gente a dançar ao som dos seus contagiantes ritmos de influência africana, o rapper Slow J apareceu de guitarra em punho no Palco Zeca Afonso, assinando uma prestação imaculada para agrado dos fãs que o acompanharam sem vacilar praticamente durante todo o concerto. Por fim, Xinobi ficou encarregue de inaugurar o Palco Aguardela, num DJ Set animado que se estendeu noite fora.

Salvador Sobral (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

Entramos no segundo dia de festival, e a malha humana que compõe o festival continua a crescer a olhos vistos à medida que se mistura com os habitantes em clima de festa e celebração. Com o sol abrasador a não dar tréguas, São Pedro e Tomara tomam para si o Palco Giacometti durante a tarde, assinando duas prestações que fizeram virar os olhos (e os ouvidos) aos festivaleiros que não os conheciam até então. À noite, Mazgani, 10 000 Russos e Mirror People são os mais aclamados pelo público, mas é o concerto de Sara Tavares que rouba todas as atenções, com direito a um pedido de casamento in loco que viu juntar um casal que se conheceu, ironicamente, neste mesmo festival, em 2012. Depois do aguardado “sim”, Sara dá a sua bênção ao casal com o hit Bom Feeling, enquanto o público dança e festeja junto dos recém-noivos. António Bastos e Forol DJ set encerraram a contenda num dia que fez jus ao novo mote do festival, e que ficará certamente marcado na história do Bons Sons.

São Pedro (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)
Mazgani (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)
Sara Tavares (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

Sábado foi dia de O Gajo, Ela Vaz e QuartoQuarto animarem a tarde dos festivaleiros, num dia que contou ainda com actuações de relevo por parte de Miguel Calhaz, Zeca Medeiros, Sean Riley & The Slowriders, Conan Osiris e Colorau Som Sistema. À passagem da meia-noite, Paus foram donos e senhores do novo Palco Zeca Afonso, num concerto aguerrido, com muitas moches à mistura, que contou provavelmente com a maior enchente de sempre do festival – os bilhetes diários estavam a esta hora praticamente esgotados, algo inédito na história do festival. A multidão seguiu depois para o Palco Lopes-Graça, onde foram presenteados por uns Cais Sodré Funk Connection que deixaram poucos indiferentes com a sua vibrante presença e ritmos repletos de energia.

O Gajo (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)
Cais Sodré Funk Connection (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

Aproximamo-nos da recta final do Bons Sons, e as pernas cansadas dos festivaleiros e voluntários são insuficientes para os demover de vivenciar o último dia do festival no ambiente alegre e comunitário sentido pela aldeia. Monday, Peltzer e Luís Severo foram alguns dos nomes que se destacaram ao longo da tarde, enquanto os Dead Combo encantaram no seu regresso à aldeia, protagonizando um concerto intenso que valeu o rótulo de melhor da edição no entender de muitos dos festivaleiros presentes. O psicadelismo de Moonshiners entusiasmou os fãs mais acérrimos do género no Palco Amália, seguindo-se-lhes Lena d’Água e Primeira Dama, que acompanhados pela Banda Xita falharam em convencer o público mais generalista do festival, num concerto algo desinspirado que deixou a desejar do ponto de vista técnico. Iguais a si próprios, os Linda Martini foram o último cabeça-de-cartaz a actuar na aldeia e não o fizeram por menos, numa prestação irrepreensível que contou com moches e cantorias a plenos pulmões praticamente desde o acorde inicial.

Dead Combo (foto de Filipa Vieira Dias/Shifter)

A fechar a 9ª edição do festival, Foque e Godot assumiram as hostes do Palco Aguardela, numa celebração final inspirada e irreverente que juntou madrugada fora todos aqueles que, vivendo ou trabalhando, foram parte integrante deste belo festival das gentes de Cem Soldos. Findadas as festividades, a aldeia respira e despede-se uma vez mais dos visitantes com o sentimento de dever cumprido. Quanto àqueles que vieram pela primeira vez, é quase impossível ficar indiferente à aldeia, sendo muitos aqueles que prometem regressar a Cem Soldos, invariavelmente com um sorriso estampado no rosto. Numa edição que bateu recordes de bilheteira, o festival Bons Sons soube manter-se fiel a si próprio e aos seus valores, voltando a afirmar-se – como se dúvidas ainda existissem – como uma das melhores experiências culturais e musicais que o nosso país tem para oferecer. Enquanto houver em Cem Soldos quem acredite neste projeto, o futuro será certamente risonho para todos os que anseiem voltar, e Viver a Aldeia.

Foto de Filipa Vieira Dias/Shifter
Foto de Filipa Vieira Dias/Shifter