O modelo low-cost da Ryanair está a chegar aos comboios da Europa

Em 2019, o transporte ferroviário de passageiros será liberalizado em Portugal. Ou seja, existirão mais empresas além da CP a operar nos caminhos-de-ferro portugueses. E os modelos de low-cost da Ryanair e EasyJet poderão chegar à ferrovia.

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A partir de 2019, a CP poderá deixar de ser o único operador a poder assegurar ligações ferroviárias entre Lisboa e o Porto, por exemplo. É que, nesse ano, o transporte ferroviário de passageiros será liberalizado em Portugal, o que permitirá a entrada de empresas estrangeiras e de outros operadores nacionais nos caminhos-de-ferro portugueses.

Foi em 2016 que o Parlamento Europeu aprovou o quarto pacote ferroviário, destinado a concluir a criação de um espaço ferroviário único europeu, sem restrições no acesso às linhas de cada país. O transporte de mercadorias e os serviços internacionais de passageiros foram abertos à concorrência em 2007 e 2010, respectivamente, com a adoptação dos anteriores pacotes ferroviários; faltando apenas a abertura dos serviços nacionais de passageiros para a criação de uma verdadeira União Europeia sem fronteiras ferroviárias, o que será concretizado até 2020.

A CP deixará de estar sozinha

Essa abertura dos serviços nacionais de passageiros significa que deixa de ser um mercado restrito a uma ou duas empresas, definidas pelo Estado. Em Portugal, existem dois operadores ferroviários a transportar pessoas: a CP, que é uma empresa pública e que opera a nível nacional; e a Fertagus, empresa do Grupo Barraqueiro a quem foi concessionada a ligação entre Lisboa e Setúbal. Com a liberalização do transporte ferroviário de passageiros em 2019, prevê-se a entrada de empresas estrangeiras, como a espanhola Renfe, a alemã DB ou a francesa SNCF.

Transportadoras portuguesas também poderão entrar neste jogo e começar a operar lado a lado com a CP. Em 2019, termina o contrato de concessão da ligação Lisboa-Setúbal à Fertagus e mais de cem personalidades antecipam o momento com a subscrição de um manifesto pelo fim daquela Parceria Público-Privada (PPP), pedindo a integração na CP na exploração da travessia ferroviária da ponte 25 de Abril. Com a liberalização prevista para aquele ano, o Grupo Barraqueiro poderá mesmo vir a perder a exclusividade daquela ligação e começar a olhar para a ferrovia a nível nacional, reforçando a sua operação em Portugal a nível de transportes – além de proprietário da Fertagus, o grupo empresarial é detentor de uma parte da TAP e dono de uma série de transportadoras rodoviárias de norte a sul do país, incluindo da Rede Expressos.

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A “Ryanair/EasyJet dos comboios”

A liberalização pode ser uma oportunidade para surgirem nos vários países mais serviços ferroviários, de maior qualidade e mais baratos. Os modelos low-cost que empresas como a Ryanair e a EasyJet trouxeram ao mercado aéreo, agitando as antigas companhias, poderão agora acontecer na ferrovia. A mudança já está a começar lá fora, em países que já abriram as suas linhas de passageiros, segundo conta a revista Bloomberg Businessweek.

Na República Checa, Suécia e Áustria, a entrada de novos operadores fez duplicar o tráfego em algumas linhas com bilhetes mais baratos. Por exemplo, a liberalização fez a movimentação na ligação entre Viena e Salzburgo aumentar até 92% e os preços diminuírem até 42%, escreve a mesma fonte. A Bloomberg Businessweek diz também que a concorrência pode estimular o aproveitamento dos mais de 9 mil quilómetros de alta velocidade existentes na Europa, que em grande partes estão subutilizadas. A linha do Canal da Mancha, por exemplo, está a 58% da sua capacidade; é lá que a Getlink, empresa que gere o túnel, quer criar um serviço low-cost de passageiros que permita ligar Londres a Paris e que não custe os 450 euros que a Eurostar pede. Na Alemanha, a dona do FlixBus já opera em duas rotas de alta velocidade com tarifas a 10 euros. E em Itália, a companhia low-cost Italo controla actualmente 30% do mercado de alta velocidade do país, tendo transportado cerca de 13 milhões de passageiros no último ano.

Em França, a estatal SNCF gere uma subsidiária low-cost chamada Ouigo, que serve uma dezena de cidades e também tem algumas ligações em alta velocidade. Portugal vai liberalizar o mercado de passageiros em 2019, outros países já o fizeram. Até 2020, todos os Estados-membro da União Europeia terão de o ter feito.