Oportunidade de revisitar “o último surrealista vivo português”, Cruzeiro Seixas

A Bienal de Cerveira expõe 120 peças do pintor português entre mais de 600 obras.

A Bienal de Cerveira é um dos certames de arte mais antigos de Portugal, este ano chega a sua 20ª edição no seu 40º ano e para o assinalar da melhor forma a organização escolheu homenagear um nome também ele ímpar no panorama artístico português, Cruzeiro Seixas.

O evento decorre até 23 de Setembro, na pacata Vila Nova de Cerveira e estará subordinado ao tema “Artes Plásticas Tradicionais e Artes Digitais – O Discurso da (Des)ordem”, “mantendo o formato adoptado desde a primeira edição, em 1978, afirmando-se como um local de encontro, debate e investigação de arte contemporânea, num programa concertado com o ensino superior das artes a nível Europeu”, segundo explica a organização à agência Lusa.

Publicado por Fundação Bienal de Arte de Cerveira em Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

A homenagem a Cruzeiro Seixas surge entre a exposição de dezenas de outros pintores e um programa vasto e variado. Segundo a organização do festival escreve no próprio site, é uma forma “assinalar o quadragésimo aniversário desta que é a bienal de arte mais antiga do país e da Península Ibérica e um exemplo de resiliência a todas as adversidades”.

Para concretizar essa homenagem, a bienal promove uma retrospectiva sobre a obra de pintura e de poesia do artista portuguesa, propondo uma reflexão sobre o movimento artístico de que Seixas, agora com 97 anos, fez parte.

“Tendo-se manifestado muito agradado com este tributo, Cruzeiro Seixas considera fundamental a organização de exposições sobre os artistas da sua geração que, num tempo de ditadura, foram impulsionadores da implementação de novas ideias”, afirmou Cabral Pinto, director artístico do festival, numa nota publicada no site do evento.

Aos 97 anos Cruzeiro Seixas tem muitas obras para mostrar e histórias para contar mantendo uma sobriedade, clareza de ideias e uma memória prodigiosa que o tornam uma figura interessante de colocar em foco.

A XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira é um dos destaques no “Portugal em Direto”.Para acompanhar na RTP1 a partir das 17h30!#40anos#bienaldecerveira

Publicado por Fundação Bienal de Arte de Cerveira em Segunda-feira, 13 de Agosto de 2018

Do “homem que pinta” – como disse numa entrevista – e escreve poesia, Cruzeiro Seixas, estarão em exposição 120 peças provenientes de colecções públicas e privadas e habitualmente dispersas. Entre o seu espólio são frequentes as peças de pequena dimensão, um detalhe curioso que o próprio explica numa simples frase que se foi tornando viral entre memórias – “era o que cabia na gaveta”, como repetiu recentemente em declarações sobre Júlio Pomar ao Expresso.

Nunca tivemos nada em comum. Ele ao longo da vida dedicou-se sempre à pintura e eu fui mil coisas para ganhar dinheiro, para me manter. Ele era um grande pintor, com uma obra de sucesso considerada por muita gente, e eu fiz coisinhas dentro das gavetas dos empregos.

Esta é assim uma oportunidade única e imperdível de conhecer ou recordar a obra de um dos nomes maiores da arte portuguesa no último século, amigo de outros como Mário Cesariny ou António Maria Lisboa, figuras marcantes no panorama artístico português mesmo durante os tempos de ditadura e restrita liberdade criativa.

Numa nota, uma curiosidade: é possível encontrar à venda uma edição do livro A Comunidade, de Luiz Pacheco, com ilustrações de Cruzeiro Seixas, uma edição da Perve Galeria com o preço entre os 1000 e os 1250 euros, números que mostram bem a relevância destes artistas que foram caindo no esquecimento das gerações mais novas.