Do Andanças, cheios de esperanças

OAndanças volta a afirmar-se como um festival que se valoriza pelo todo e não pelas partes. Não é tanto um festival de música como é um festival de artes.

Acrobacia e consciência corporal: um workshop apropriado para as pessoas que têm vergonha em 'fazer figuras'.

A chegada e Castelo de Vide

De Lisboa a Castelo de Vide são cerca de duas horas e meia de viagem. Pela A1 e A23, primeiro entre as serranias da Serra de Aire e Candeeiros e depois pela Serra de São Mamede, segue-se como se os vales e as encostas destas montanhas tivessem sido feitos para ter homens a cruzá-los e carros a serpenteá-las. As vistas de cortar a respiração sucedem-se umas às outras e, à medida que nos aproximamos do destino, a certeza de que vir ao Andanças foi a escolha acertada vai-se cada vez mais cimentando enquanto a ansiedade que pairava sobre aqueles que vêm pela primeira vez ao festival se vai dissipando dando lugar ao primeiro assombro da semana.

Prestes a entrar na vila, os quase 30º que se sentiam ao cair da tarde da véspera do início do festival anunciavam já as temperaturas infernais que se viriam a sentir durante os 5 dias seguintes, e obrigaram a que se fizesse uma paragem na Fonte Nova. Aqui jorra incessantemente uma água ‘bem geladjinha’, como se ouviu no festival diversas vezes, proveniente das inúmeras ribeiras que contornam a vila – a mesma água que, de resto, enche as garrafas da Vitalis (passe a publicidade) – isto porque Castelo de Vide é uma das povoações da região com mais água. Não é por acaso que as gentes mais velhas da vila dizem, a brincar, que quando as povoações das redondezas precisam de água, os castelo-videnses se sacrificam e bebem vinho para que os outros a possam beber!

A Maria, na única vez em que bebeu água no festiva

A vila e o festival

Uma vez chegados à vila, é preciso ser-se lesto para encontrar as indicações para o Festival. Seria de esperar que o festival estivesse espalhado pela vila e que, portanto, entrando por onde entrássemos daríamos de caras com ele. Mas a verdade é que o festival acontece sobretudo na parte sul-nascente da vila, imediatamente encostada à zona central da mesma, onde estão os cafés, os restaurantes e os hotéis. Isto significa que o impacto causado na circulação da vila é mínimo e os visitantes têm várias ofertas de maior comodidade mesmo ali à mão de semear, que na anterior localização do festival, na barragem, não tinham. Para além, claro, do enorme benefício trazido para o comércio local de Castelo de Vide durante a semana do Andanças.

Para além disso, o artesanato surge fora do recinto pago do festival, o que quer dizer que não só os visitantes do festival podem fazer lá compras mas também os locais. Cria-se assim uma sinergia da qual ambas as partes beneficiam, os visitantes e os locais. Esta questão é de suma importância quando se for discutir a continuidade ou não do festival na vila e o regresso à barragem mais à frente. Mas já lá vamos.

Junto do artesanato, entre o coreto e o jardim, há quem descanse e aproveite para fumar uma.

Música, dança, meditação e… iniciação à tecelagem

Se é verdade que a maior parte dos festivais de música se faz valer de grandes nomes para atrair pessoas aos seus recintos, havendo mesmo a designação de “cabeças de cartaz”, o Andanças volta a afirmar-se como um festival que se valoriza pelo todo e não pelas partes. Acontece também que o Andanças não é tanto um festival de música como é um festival de artes. Por esse motivo, a questão de trazer grandes nomes que se sobreponham a outros não tem grande sentido, porque o objetivo aqui é acima de tudo a partilha de elementos culturais de vários países e não tanto a admiração singular deste ou daquele artista ou performer.

Acrobacia e consciência corporal: um workshop apropriado para as pessoas que têm vergonha em ‘fazer figuras’.

Por isso, o sistema de workshops/oficinas durante o dia e os concertos/bailes durante a noite confirmam o sucesso de uma aposta já antiga e garantem a diversidade de atividades, uma parte importante da identidade do festival. Se por um lado é difícil não notar a diminuição do número de concertos não associados a bailes na edição deste ano em que, apenas os acostumados Nação Vira Lata, os Ethno Portugal, Fernando Lobo e a dupla de irmãos israelo-australiana Stav & Dudi tiveram algum impacto, por outro lado, a proximidade à vila permitiu um aumento da proporção de oficinas relacionadas com a gastronomia, o artesanato e os costumes da região, sendo por isso possível aprender a fazer pão, rebuçados de ovos moles e papas de milho, mas também ter uma iniciação à tecelagem, descobrir como reciclar papel, compor pulseiras de macramé e perceber os segredos que estão por detrás duma boa máscara!

No palco Horizonte, o par sensação do workshop mostra a todos os newbies como se dança o Lindy Hop

Para além de tudo isto, é importante notar algo que deixou os mais leigos na matéria surpreendidos: a existência de tantos tipos diferentes de yoga – hatha, vinyasa, acroyoga, suspenso, yin yoga. O crescimento do número de workshops de relaxamento e de meditação é uma opção que parece refletir a demanda crescente por este tipo de atividades nas grandes cidades e a vontade do festival em cativar um público cada vez maior.

Ethno Portugal – música dos quatro cantos do mundo

Se existe alguma coisa que transmite com fidelidade o espírito e o objetivo deste festival é sem dúvida o projeto Ethno Portugal – uma residência artística de 10 dias em que músicos e bailarinos de várias partes do mundo se juntam para partilhar músicas tradicionais dos seus países e as reinterpretam, culminando o projeto no festival Andanças. Já na sua quinta edição, o projeto tem sido pródigo na criação de novas ligações artísticas internacionais e intercontinentais e a edição deste ano contou com 22 artistas de países tão diversos como França, Hungria, Suíça, Egipto, Estados Unidos da América, Irão, Argentina, Brasil, Venezuela e até de algumas regiões que têm a sua própria cultura e língua como seja o Curdistão, sendo que a música oriunda deste último é um grito de emancipação às mulheres curdas – país em que já existe, na região síria de Rojava, uma milícia inteiramente constituída por mulheres, o YPJ, e onde para cada cargo ocupado por um homem existe um equivalente para uma mulher.

Concerto Ethno no Andanças – 1

Nas palavras de Teresa Campos, uma experiente cantora e compositora com formação na Guildhall School of Music & Drama de Londres e que é também a coordenadora de vozes do projeto, “pretendemos que as músicas escolhidas sejam em parte mais para festa e outras mais de meditação”, motivo pelo qual assistir a um dos vários concertos do Ethno é qualquer coisa como estar, num momento, em profunda comoção a assistir a um concerto de Jordi Savall e no outro aos pulos como se tivéssemos à nossa frente os No Smoking Orchestra!
Assim, quando interrogámos o coordenador e organizador do projeto, Juanra Campos, porque é que um trabalho tão bem conseguido como aquele se esfuma ao fim de 10 dias e não continua a ser exibido em mais salas do país, Juanra foi perentório em responder que em 2014 houve uma tentativa no sentido de impedir isso, o “Ethno on the Road”, mas que a falta de divulgação, as salas de espetáculo vazias e os constrangimentos financeiros precipitaram o fim da iniciativa no ano em que começou. Porém, Teresa não considera isto um drama, admitindo que todos os “projetos têm o seu tempo de vida”.

Onde andam as ‘freaks do andanças’?

Já aqui tinha sido falado do aumento do número de workshops de meditação e aquilo que parece ser uma tentativa de acompanhar uma tendência eminentemente urbana de procura por este tipo de atividades. Com efeito, este é um dos indicadores que pode levar a crer que o festival está a tornar-se cada vez mais urbano e menos alternativo. Indicativo disso é evidentemente a sua inserção na vila mas também a perda dum certo espírito de comunhão e partilha – em que havia muitos sorrisos trocados com desconhecidos e ainda mais conversas espontâneas à beira dos pontos de água – que parece coincidir com a saída do festival da barragem. E se B Fachada falava, na música “Como Calha”, em encher as freaks todas do andanças de esperanças, parece que daqui para a frente vai ter de procurar outros festivais para o fazer.

Nu é a melhor maneira de subir umas escadas e é de pequenino que se torce o pepino – © Simão Rodrigues

Andanças na barragem ou em Castelo de Vide?

Entre os frequentadores do festival encontram-se aqueles que vieram pela primeira vez este ano e aqueles que vêm ao festival há mais de uma década. Os primeiros desconhecem as virtudes do festival junto da barragem e por isso não estabelecem quaisquer comparações. No entanto, entre os últimos há naturalmente os saudosistas da barragem, mas também os comodistas que descobriram o quão bom é estar mesmo ao lado duma vila com cafés, restaurantes, mercearias, farmácia, banco, etc.
O autor deste artigo faz uma declaração de interesses e assume-se como um saudosista convicto.

Embora na vila haja vários restaurantes, no interior do recinto havia também uma boa oferta de tascas e bares. – © Simão Rodrigues

É importante antes de mais perceber o que se perdeu e o que se ganhou quando o festival abandonou a barragem. A mudança de localização foi precipitada há dois anos por um incêndio que deflagrou no parque de estacionamento do festival e que destruiu mais de 400 carros.

Na barragem, o Andanças assumia-se como dono e senhor do espaço, podendo este ser moldado de acordo com as necessidades do festival e, por outro lado, sendo menos limitado, havia mais palcos e a programação era muito mais diversificada. Para além disto, a proximidade à barragem tornava mais fácil suportar o calor, e as zonas ao redor da ribeira que circundava o recinto ofereciam uma ótima sombra para tirar umas sestas nas horas mais quentes.

Figure 10: As medidas de segurança faziam-se sentir um pouco por todo o festival. – © Simão Rodrigues

E depois há claro o factor que as pessoas mais sentem falta: o isolamento em que se encontravam – só andando durante uma hora se chegava à povoação mais próxima, Póvoa e Meadas. Isto, aos olhos de muita gente, tornava o festival numa experiência mais imersiva, em algo mais importante do que uns dias bem passados junto da natureza.

Existia, de certa maneira, uma dimensão do Andanças que impelia a questionar a crença na organização social vigente e fazia crer que é possível viver apenas de dança, música e natureza. Na vila, essa sensação que se levava com o fim do festival perdeu-se quase por completo. Em suma, o festival hoje é mais um simples desvio à rotina do que uma rotura com a rotina. Agora, para além das vantagens já mencionadas na seção “A Vila e o Festival” falta mencionar as vantagens da realização do festival na vila ao nível da logística e de segurança que existem. A verdade é que a proximidade a uma vila como Castelo de Vide torna muito mais rápida e eficaz a resposta dos meios de socorro e combate a incêndios do que se este se realizasse na barragem, e como “gato escaldado de água fria tem medo” todo o cuidado é pouco, especialmente com as temperaturas que se sentiram impiedosamente acima dos 40 graus. A isto acresce também a facilidade na logística da organização, uma vez que o festival se limita a retocar os espaços preexistentes na vila, poupando o esforço de desmatação e terraplanagens necessário na barragem.

A cantina é uma das instalações do festival que está fora do recinto e que se encontra incorporada na vila – ©Simão Rodrigues.

Assim, resta saber se a organização do Andanças será fiel à sua génese e fará todos os possíveis para regressar à barragem, ou se simplesmente optará por uma solução que é, sob vários pontos de vista, mais lucrativa (os bilhetes para o festival inteiro continuam a ser os 100 euros praticados na barragem, e deixaram de haver os bilhetes mais baratos de vários dias), menos trabalhosa e que menos riscos corre. Naturalmente que esta decisão não decorre apenas da organização do festival mas também da autarquia de Castelo de Vide. Por esse motivo, o Presidente da Câmara de Castelo de Vide, António Pita, adiantou que se está neste momento a estudar três alternativas em relação ao futuro do festival: na vila, na barragem e na barragem e na vila. Sendo que esta última opção é a que mais tração tem tido nos últimos tempos e que seria praticável graças a transfers gratuitos que ligariam a vila à barragem. Resta esperar para ver qual será o destino da próxima edição do Andanças.

Texto de: Afonso Anjos