Hannah Gadsby desvenda “Picasshole” em Nanette, um stand-up atípico

É um "especial" atípico, sem dúvida, e nele entra (entre muitos outros) um tema que sublinha esse fator: a História de Arte. É dele que vou falar.

No seu espetáculo de stand-up da Netflix, a humorista australiana Hannah Gadsby despiu-se de personas e foi direta ao assunto. Sem perder o humor protagonizou um discurso capaz de fazer abanar as nossas estruturas internas. No fim, recebeu uma ovação.

São vários os aspetos que o tornam especial e de caráter quase-obrigatório. Pelo meio, quase como um bónus, fui apanhado de surpresa no cruzamento entre humor e História da Arte.

A Netflix pode não agradar a todos, mas temos que admitir que nos trouxe coisas fantásticas. Uma dessas coisas são os especiais de comédia. Há-os para todos os gostos. O último a andar nas bocas do mundo pelo seu caráter peculiar e controverso é “Nanette”, de Hannah Gadsby. Para quem não viu fica um conselho simples: vejam. É agridoce, por isso preparem-se.

A partir daqui o texto contém spoiler, achei por bem avisar.

Hannah aborda temas sensíveis e pungentes, a partir do seu testemunho pessoal. O humor persiste ao longo do discurso, mas ganha forma de manifesto. Constrange, angustia e causa tensão, como a própria refere. É um “especial” atípico, sem dúvida, e nele entra (entre muitos outros) um tema que sublinha esse fator: a História de Arte. É dele que vou falar.

As desmitificações da obra e identidade de Van Gogh e Picasso, a crítica à romantização da ideia de “Génio” e as referências à representação da mulher ao longo dos séculos conquistaram-me. Tal como Hannah, também eu me formei em História de Arte. Daí uma maior familiaridade com o assunto. E se há coisa que aprendi durante o meu percurso, foi a questionar sempre estas conceções e a tentar desvendá-las.

Se já há muito me debruçava sobre os assuntos abordados pela humorista, no fim daquela hora de espetáculo reacenderam-se os pensamentos. Principalmente sobre uma questão: O Génio.
Como sociedade, vivemos num período onde os “Génios” (não só na arte) vendem mais do que nunca, nos livros, nas séries e nos filmes. Só que esses “Génios”, retratados dessa forma, simplesmente não existem. São fruto da nossa imaginação e um produto de séculos, talvez.

No Renascimento, por exemplo, numa obra de 1550 chamada “As Vidas dos mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos” de Giorgio Vasari, o autor acrescentou algum “sensacionalismo” às biografias de artistas e intelectuais (principalmente florentinos) como Leonardo Da Vinci. Neste período, o artista passou a ser visto cada vez mais como um intelectual e não como um artesão, e a pintura começa a ser vista lentamente como a mais importante de todas as artes. Ora, a “fama”, pode ter sofrido um grande impulso aqui, visto que o Homem começou a dar cada vez mais valor às suas capacidades. Neste contexto, vai-se moldando a ideia de Génio intelectual, que atinge proporções importantes a partir do Iluminismo. Com isto quero dizer que esta romantização do “Génio”, nos nossos dias, é mais um fruto da evolução ao longo de muitos antes. A diferença é que nunca ninguém a comercializou como nós.

É sabido que o ser humano possui um instinto de curiosidade enorme. O mistério e a ideia de inacessibilidade instiga-nos esse impulso e daí serem tão bem sucedidas as vendas deste tipo de material. Pois bem, eu não sou contra a ficção, mas sim contra gato a fazer-se passar por lebre. E por aí, há muita história “verídica” cujo 90% é especulação. Eu sei que este sensacionalismo apimenta a realidade, mas também cria preconceito. As massas não são obrigadas a saber tanto como um Doutor na área. Cabe a esses mesmos defender a sua verdade. Na arte, até os próprios museus exploram estas conceções e tiram lucro delas! E o mau de tudo isto é que se cria um afastamento constante à realidade.

Leonardo foi genial, mas foi um humano. Picasso foi importantíssimo na arte, mas segundo Hannah Gadsby, era um “Picasshole”.Quanto a Beethoven a obra foi majestosa, a vida nem tanto.

Quando Hannah diz que a História de Arte a ensinou a compreender o mundo, partilho completamente da opinião. A mim, fez-me admirar a beleza da criação Humana e compreender a evolução dos nossos fenómenos. Mas também me fez querer admirar a verdade, que consegue muitas vezes superar a ficção.

Texto: Paulo André Soares

Revisão: João Ribeiro