Happy End: voltamos às famílias disfuncionais de Haneke

“Happy End” não é excepção a esta infelicidade imposta, onde entramos num jogo de uma família abastada que vive uma vida burguesa na cidade de Calais.

Não é surpresa para quem está minimamente familiarizado com o trabalho do cineasta austríaco que se vá embarcar em duas horas de desconforto – a mestria de Haneke em desconstruir convenções da sociedade contemporânea acaba sempre por deixar o espectador no limbo entre desconforto e mau-estar, questionando a natureza humana, as relações pessoais e toda a ligação calma e feliz com o mundo que nos rodeia. “Happy End” não é excepção a esta infelicidade imposta, onde entramos num jogo de uma família abastada que vive uma vida burguesa na cidade de Calais.

O filme começa com a imagem de um telefone, numa aplicação semelhante ao Snapchat (se não for mesmo) que com a câmara filma uma mulher de meia-idade com a porta da casa de banho aberta. A mulher prepara-se, rotineiramente, para dormir – a câmara filma, observa e descreve de uma maneira bastante analítica e desprovida de grande sentimento ou emoção. Comentários de um certo voyerismo, com certas abreviaturas de linguagem e calão, que rapidamente percebemos pertencerem a Eve (numa surpreendente interpretação da até agora praticamente desconhecida, Fantine Harduin), uma miúda de treze anos que é subjectivamente apresentada com leves traços de psicopatia familiares a quem conhece Haneke.

A mãe de Eve comete uma tentativa de suicídio, ficando a miúda entrega aos cuidados do pai, Thomas Laurent (Mathieu Kassovitz) numa mansão dos Laurent em Calais. Da família temos também o patriarca (aqui representado por Jean-Louis Trintignant) , também ele perdido no desejo do suicídio enquanto libertação do corpo e da mente que aos poucos se perde na demência, que passou os encargos da empresa à filha (Isabel Huppert) que vai balanceando a sua vida pessoal com a tentativa de manter a empresa familiar à tona. Um evidente turbilhão, seja pelo recente desastre industrial num dos locais de obra ou pelo filho claramente problemático, que vive em desequilibro e com os problemas existenciais de um outcast numa família quase aristocrática (Franz Rogowski).

O filme tem uma estrutura linear, ainda que as cenas tenham pouca ou nenhuma malha de ligação – não há muitas transições convencionais, há pontas que parecem soltas, alguma aparente falta de densidade e de desenvolvimento de certas situações e mudanças abruptas que lembram um pouco o corte e a rapidez da informação das redes sociais, da tecnologia e até dos canais de televisão. Um zapping familiar entre pessoas, situações e dramas. Tudo isto é mostrado através do olhar de Eve – ela cai, sem aviso prévio e preparação, no meio dos Laurent e tem um olhar extremamente objectivo e analítico vendo coisas que mais ninguém vê.

São vários os temas que este filme aborda. É passado em Calais, epicentro da crise dos fluxos migratórios em França; o trabalho precário e os emigrantes vai tingindo esta rede familiar, onde se nota uma certa alienação face ao problema e um anonimato das pessoas, que serão apresentadas quando o filme entra na sua recta final, destapando finalmente um assunto que se foi vendo escondido durante todo o filme. O distanciamento familiar e esta estranheza das relações é particularmente marcante na relação de Eve e do pai, que claramente não sabe como lidar com a filha com quem não se relacionou durante anos. O suicídio, em três gerações, e que dá lugar a uma das cenas mais bonitas do filme, onde há um intimismo macabro entre a recente relação avô/neta cria espaço para um diálogo. Há pequenas histórias, há um aprofundar da psicologia das personagens e há até um bonito momento de paralelismo entre Trintignant e o último filme de Haneke, Amour.

Como vários dos filmes do Haneke das últimas décadas, este é também passado em França e falado em francês. O elenco é forte e com algumas surpresas. Fantine Harduin conduz subtilmente o filme com o seu olhar distante e observador, mas é praticamente impossível sair da sala sem sentir que o filme pertence a Trintignant. Aqui, num papel praticamente sem movimentos, preso como a sua personagem, é apenas com o mexer de um dedo, de um olhar ou da força de algumas palavras, quase cómicas e satiricamente cruas, que agarra o filme e o consegue levar mais longe quando sentimos que é preciso. É com ajuda da neta, numa ligação que nasce também desta cena, que o fim se vai construindo – a tão familiar manipulação de Haneke deixa-nos novamente assim: impotentes espectadores, numa frágil manta de retalhos desta família que se vai construindo, uma crítica social a esta louca burguesia, com um toque de humor negro, até ao último segundo.

Texto de: Elisabete Magalhães