O dia em que a imprensa norte-americana se uniu contra os ataques de Trump

Mais de 350 jornais decidiram responder ao Presidente dos EUA, publicando editoriais em defesa da liberdade de imprensa.

Foto via New York Times

Os ataques de Donald Trump à imprensa tem sido constantes desde que tomou posse. Ao Presidente dos EUA devemos a banalização da expressão “fake news”, que este usa para classificar tudo aquilo que não vai ao encontro da sua ideologia e da sua linha política. Trump já chegou mesmo a dizer que os jornais são o “inimigo do povo norte-americano”, não o seu inimigo.

Donald Trump não é um Presidente conhecido por medir as suas palavras e aquilo que diz (ou tweeta) deve ser interpretado com o devido distanciamento. Contudo, apesar da força de palavras como “inimigo” ou “falso”, que usa recorrentemente, a posição de Trump em relação à imprensa não deixa margem para dúvidas: é violenta e desajustada. Depois de sucessivos meses a ouvir os ataques do Presidente dos EUA, mais de 350 jornais decidiram fazer algo quanto a isso e uniram-se esta quinta-feira, 16 de Agosto, numa iniciativa inédita – numa acção coordenada, publicaram editoriais nos quais se defendem e defendem a liberdade de imprensa.

A campanha foi organizada pelo Boston Globe e contou com a adesão tanto de jornais mais pequenos como de publicações de peso como o New York Times. À rádio NPR, Marjorie Pritchard, editora-executiva adjunta do Globe, esclarece que “este projecto editorial não é contra a agenda da administração de Trump. É uma resposta para nos [imprensa] colocar no discurso público e defender a Primeira Emenda”. Nesta página, é possível navegar pelos editoriais publicados por todos os Estados Unidos na imprensa nacional e local, grande e pequena.

Foto via Boston Globe

Entre esses textos, destaca-se, claro, o promotor Globe, no qual é dito que: “Substituir a imprensa livre por imprensa estatal foi uma prioridade para qualquer regime corrupto que domine um país. Hoje, nos Estados Unidos, temos um Presidente que criou um mantra de que os membros dos media que não apoiam descaradamente as políticas da actual administração dos EUA são os ‘inimigos do povo’. Essa é uma das muitas mentiras que têm sido ditas por este Presidente, como que um charlatão dos velhos tempos que atira pó ou água “mágica” para cima de uma multidão esperançosa.”

Já o New York Times escreve: “Criticar as empresas de media – por subestimarem ou exagerarem nas histórias, por fazerem algo errado – está inteiramente certo. Os jornalistas e editores são humanos, e comentem erros. Corrigi-los é essencial para o nosso trabalho. Mas insistir que verdades de que não se gosta são ‘notícias falsas’ é perigoso para a essência da Democracia. E chamar aos jornalistas de ‘inimigos do povo’ é perigoso, ponto final.”

Na quinta-feira de manhã, no mesmo dia em que os mais de 350 jornais norte-americanos publicaram os editoriais, Donald Trump voltou a insistir na sua posição anti-media no Twitter. “Os media de notícias falsas são o partido da oposição”, escreveu em letras gritantes, acrescentando que esses órgãos estão preocupados apenas com “uma agenda política” ou em “magoar as pessoas”. “Felizmente”, diz o Presidente dos EUA, “nós estamos a ganhar” e a “honestidade ganha”.

Nem todos os jornais aderiram a esta iniciativa. Um dos que optou por ficar de fora foi o Wall Street Journal, propriedade do magnata dos media, Rupert Murdoch, um aliado de Trump. O colunista do jornal, James Freeman, disse que a iniciativa do Boston Globe vai contra a independência dos conselhos editoriais e que Trump tem direito à liberdade de expressão como os seus adversários da imprensa.