Apple, YouTube, Facebook, Spotify, Vimeo… numa “guerra à desinformação”

As principais empresas de tecnologia decidiram banir o InfoWars e Alex Jones das suas plataformas, alegando violações das suas regras. Um caso sobre a liberdade de expressão e os seus limites, e o contributo das grandes tecnológicas.

Screenshot via InfoWars

InfoWars e Alex Jones são dois nomes que muitas vezes se confundem. O primeiro é o órgão de comunicação social do segundo, detido através da empresa Free Speech Systems LLC. Alex Jones não é apenas o dono do InfoWars mas também o seu principal rosto, apresentando o programa (e também podcast) The Alex Jones Show, um apanhado de teorias da conspiração e de notícias maioritariamente falsas – tal como todo o website InfoWars, que conta com 10 milhões de visitas todos os meses.

Tal número faz do InfoWars tão ou mais visitado que alguns dos mais respeitados órgãos de comunicação social, como o The Economist ou a Newsweek. O InfoWars é resultado da democratização no acesso às ferramentas de publicação e distribuição que a Internet permite, e o seu sucesso baseia-se também na existência de plataformas sociais – do Facebook ao YouTube –, cujos algoritmos privilegiam as interacções e outros dados quantitativos (e não qualitativos) na hora de “decidir” o que mostrar ou não aos utilizadores.

Moderar plataformas como o InfoWars requer um debate sobre liberdade de expressão em que as empresas que gerem as redes sociais preferem não entrar; como partilhou a empresa de Mark Zuckerberg repetidamente no início de Julho, “seria abrir um precedente” e nesta matéria, o Facebook disse sempre preferir actuar publicação a publicação que “calar” uma página inteira, ignorando as responsabilidades de moderação que poderiam dificultar o negócio.

Um mês depois, o Facebook removeu quatro páginas que pertenciam a Alex Jones por “repetidamente ao longo dos últimos dias” terem publicado conteúdo que violava os Padrões da Comunidade, definidos pela rede social para – segundo a própria – garantir a segurança dos utilizadores. As páginas de Alex Jones, associadas ao InfoWars e nas quais era possível encontrar vídeos, entre outros tipos de conteúdos, não foram definitivamente eliminadas, mas “despublicadas” para que Alex possa “recorrer” da decisão.

A decisão do Facebook de desactivar as páginas de Alex Jones surgiu depois de outra – mais suave – de remover alguns dos conteúdo deste e de a Apple ter eliminado cinco podcasts do InfoWars, incluindo o The Alex Jones Show, da sua plataforma. A empresa da maçã foi a primeira tecnológica a banir por completo Jones, tendo explicado ao BuzzFeed News que procura “representar uma ampla variedade de pontos de vista, desde que as pessoas respeitem aquelas que têm opiniões divergentes”, não sendo esse o caso do InfoWars.

Depois da Apple, outras empresas começaram a apertar o cerco a Alex Jones e ao InfoWars. Algumas delas já tinham apagado alguns conteúdos – tal como fizera o Facebook –, mas decidiram fazer mais depois da acção da companhia liderada por Tim Cook. Falamos do Spotify, YouTube, Vimeo, LinkedIn, Pinterest, MailChimp, Twitter e até o YouPorn.

Logo no início de Agosto, o Spotify tinha removido alguns episódios do The Alex Jones Show por “violarem a nossa política de discurso de ódio”, mas depois da Apple o serviço de streaming sueco optou por banir todos os episódios desse programa, deixando, contudo, outros podcasts do InfoWars disponíveis no serviço. Já o YouTube tinha estado atento ao caso deste órgão de comunicação social difamador desde pelo menos Fevereiro, quando começou a tomar algumas medidas, como a remoção de algum conteúdo ou a desmonetização do canal. Contudo, a empresa detida pela Google acabou, já em Agosto, por eliminar mesmo o canal do InfoWars, com cerca de 2,5 milhões de subscrições e mais de um mil milhões de visualizações, e que alimentava o website de Jones.

O conteúdo de Alex Jones e do InfoWars desapareceu também do YouPorn; a página de LinkedIn foi eliminada; o MailChimp decidiu bloquear a sua conta, impedindo-o de enviar newsletters; e até o Vimeo apagou o canal, onde Jones começou a carregar conteúdo banido de outros lados, de acordo com o TechCrunch.

O Twitter foi das últimas empresas a reagir, tendo tomado medidas apenas esta semana e depois de se ver debaixo de muito questionamento por parte dos seus utilizadores. Jack Dorsey, CEO do Twitter, começou por falar sobre o assunto numa longa thread, na qual passa a responsabilidade de verificação do que era publicado por Alex Jones para os jornalistas e diz que não pode sucumbir a pressões externas e tomar medidas segundo a tendência. Passado cerca de uma semana passou das palavras aos actos colocando a conta de Alex Jones num estatuto especial de “apenas leitura” durante sete dias, permitindo ao proprietário aceder e ler conteúdo, mas não publicar, comentar ou partilhar tweets de outros (retweet). Em causa, está um tweet de Jones que o Twitter considerou violar as redes da sua plataforma.

No website do InfoWars, surge a mensagem de que o projecto está “debaixo de um ataque sem precedentes e que está a ser censurado ao longo da internet, pedindo aos visitantes para subscrever o conteúdo e os podcasts através de feeds RSS, lutando, assim, por aquilo que se diz ser a “liberdade de expressão”. Apesar do banimento por parte das grandes empresas, Alex Jones e a sua equipa parecem empenhados em manter o InfoWars e em alimentar o The Alex Jones Show com uma série de publicidade duvidosa.