Marine Le Pen no Web Summit: vir ou não vir, é a questão?

Se ao pai da Web as reacções não se fizeram sentir acima do esperado, o nome da francesa conhecida pela sua tendência xenófoba fez soar alarmes e gerou uma autêntica revolta, sobretudo nas redes sociais e com epicentro no Twitter.

Web Summit 2019

Foi durante o sábado e no meio de mais um anúncio em barda de nomes para o Web Summit 2018 que, no site do evento, surgiu a fotografia de Marine Le Pen, líder do partido de extrema-direita francês Frente Nacional. A inclusão no separador speakers não deixava dúvidas sobre o porquê da sua fotografia figurar entre os restantes e o assunto rapidamente se espalhou pelos principais órgãos de comunicação social nacionais. Marine Le Pen e o “pai” da Web juntam-se à lista de oradores da Web Summit escrevia, para dar um exemplo, o Diário de Notícias na sua edição online.

Se ao pai da Web as reacções não se fizeram sentir acima do esperado, o nome da francesa conhecida pela sua tendência xenófoba fez soar alarmes e gerou uma autêntica revolta, sobretudo nas redes sociais e com epicentro no Twitter. Sem qualquer comentário ou explicação mesmo depois da tentativa de contacto, para dar outro exemplo, dos jornalistas do Público, a fotografia e referência a Le Pen acabou por ser subtraída da lista que já conta com 250 oradores.

Assim o assunto acabou por desmaiar mas entre os revoltosos do primeiro momento a questão permaneceu: porque figurava a líder da extrema-direita francesa entre a lista de convidados do gigante certame tecnológico a decorrer em Lisboa? A esta questão somou-se quase sempre o argumento da incompatibilidade entre a sua vinda e o apoio do Governo Português e da Câmara Municipal lisboeta, que numa das edições passadas até ergueu à entrada do festival um cartaz com uma mensagem contrária à propagada habitualmente por Marine Le Pen, nesse caso em resposta à eleição de Donald Trump.

Se a esta questão é impossível deixar de reconhecer legitimidade – a retórica de Le Pen é quase sempre divisionista, anti-imigração e anti-integração – mais importante seria neste caso tentar perceber, à falta de uma justificação concreta por parte da organização, se a escolha é assim tão surpreendente uma vez que deve ser unânime a ideia de que propagar mensagens xenófobas ou racistas é uma forma de normalização deste discurso seja o seu locutor mais ou menos reconhecido por tal. Neste contexto é útil reflectir sobre os convidados que passaram anteriormente pelo palco do Web Summit e para a extensa lista de escolhidos para este ano que já vai em mais de 250 nomes.

Da edição do ano passado há um nome especialmente polémico e, simultaneamente simbólico para a análise desta questão. Alexander Nix que subiu ao palco do Web Summit apelidado de “génio das redes sociais”, gabando-se de contactos próximos junto do facebook e cultivando uma imagem de guru, acabou por se ver envolvido no gigante escândalo da Cambridge Analytica. A empresa que representara no palco principal do evento tecnológico vira afinal as suas acções “geniais” reprovadas à luz das políticas de utilização da rede social e das leis internacionais, acusada de uso indevido de dados e, pior que isso, da sua utilização para influência de resultados de eleições políticas. Se é apelável dizer que o seu discurso não é xenófobo nem nada que se pareça, é importante perceber o papel destes personagens na normalização de práticas abusivas e anti-democráticas.

Para além deste, também Brad Parscale, director de campanha de digital de Trump, marcou presença no palco principal do Web Summit gabando-se do sucesso da sua estratégia para a eleição do POTUS e incentivando-o “to keep on tweeting” fazendo parecer normal o discurso inflamado de que Donald Trump se tornou um habitué.

Le Pen diferencia-se destes casos por não ter nenhum domínio técnico ligado às tecnologias que torne a sua presença normal ou indiferente mas importa questionar o peso desse domínio no assimilar de ideias entre os presentes ou assistentes do evento. Importa perceber que todos os avanços tecnológicos e formas de inovação aportam uma dimensão política a considerar na criação das narrativas que moldarão a sociedade. Ferramentas que permitem vigilância em massa, algoritmos que suplantam o espírito crítico individual, tecnologias que desregulam sectores cruciais ou sistemas treinados para se tornarem eficientes em tarefas perigosas são alguns dos exemplos.

Assim, se pode ter sido a coisa certa mostrar a oposição às posições políticas de Le Pen antes mesmo que a sua presença fosse confirmada; revelar-se-à certamente incompleta se o escrutínio dos restantes presentes, dos seus discursos, das suas ideias, da sua inovação, não for igualmente atenta e incisiva. Basicamente detectar “fascistas” no Web Summit em representação de um partido de extrema-direita não terá valido de nada se não detectarmos criticamente as mesmas ideias diluídas nos ditos normais.

Durante o período de redação deste artigo a decisão voltou a conhecer uma nova fase e o nome de Le Pen voltou a constar entre os oradores. As questões aqui levantadas mantêm-se, ganhando nova vida a discussão que deu mote a este artigo. A organização do Web Summit será certamente convidada a explicar as motivações por de trás da sua escolha como, do lado do público, se esperam novas demonstrações do desagrado e um debate aceso e alargado com participantes provenientes de vários quadrantes da sociedade.

O Web Summit mostra-nos mesmo o que não queremos ver