Muslimgauze: música eterna sobre um conflito que teima em durar

Muslimgauze, projecto musical de Bryn Jones, surgiu em 1982 como reacção do artista à invasão de Israel ao Líbano e foi, durante os 16 anos em que esteve activo, uma janela artística para a situação do Médio Oriente.

Muslimgauze

Não nasceu nem morreu há uma série de anos que perfaçam um número redondo que nos sirva como justificação para este artigo. Não está no activo há mais de 20 anos e também não estamos perante nenhum novo lançamento póstumo deste músico. Contudo, a sua música e o contexto que retrata e que, passado duas décadas, permanece igual ou pior são razões suficientes para te dar a conhecer Bryn Jones e o seu projecto Muslimgauze.

Apesar do nome soar brandizado, decomposto explica-nos o intuito do projecto de Jones. Muslimgauze surgiu em 1982 como reacção do artista à invasão de Israel ao Líbano e foi, durante os 16 anos em que esteve activo, uma janela artística para a situação do Médio Oriente com especial ênfase, nos últimos lançamentos, para o conflito israel-palestiniano.

Sem voz, nem qualquer registo humano que indiciem quem é o artista por de trás das criações, as músicas de Muslimgauze são hipnotizantes colagens de samples, na sua maioria com proveniência do mundo árabe com batidas rápidas que nos envolvem neste universo. A rasgar as harmonias ouvem-se frequentemente vozes de homens, crianças e mulheres, em loops repetitivos que parecem contar a história destas pessoas.

Devido à conotação política do som de Muslimgauze, o músico viu-se envolvido em correntes de desinformação que diziam que parte das receitas das vendas dos seus discos revertiam para grupos terroristas na Palestina. De resto, em algumas entrevistas, o músico mostrou a sua simpatia por líderes e movimentos políticos árabes, algo que não foi totalmente bem aceite no mundo ocidental.

Hoje em dia, o espírito da sua obra continua a inspirar algumas pessoas como é o exemplo de Mo, o designer responsável pelo seu site, que, no mesmo, garante já ter mostrado a música do artista a toda a gente que conhece dos 8 aos 80. Para além desta divulgação, Mo, fã de Bryn Jones desde os 14 e criador do seu primeiro site oficial no ano da sua morte (1999), tem convidado músicos apreciadores e amigos do artista para criar ou recriar músicas com a mesma inspiração. Para Mo, o som de Muslimgauze é um dos mais revolucionários do século pela fusão de universos. A música de Muslimgauze sai muitas vezes do enquadramento musical, tornando-se num verdadeiro discurso político e é isso que, para Mo, o distingue.

Os seus amigos e quem o conhece conta que Bryan Jones desenvolveu uma adoração quase obsessiva com países de maioria muçulmana como o Iraque, a Chéchénia, o Afeganistão, Irão ou Paquistão. Num artigo da Pitchfork de 2003, Mark Richardson ironiza mesmo, dizendo que talvez tenha sido melhor para Jones ter morrido para não ver a escalada de conflitos que se seguiu a esse ano.

Apesar de ter todo este foco nos conflitos do Médio Oriente, a música de Jones não estava directamente motivada por uma experiência pessoal do local ou da religião. O substrato da música de Muslimgauze era, sobretudo, a raiva contra o estado de Israel, que alguns apelidam mesmo de anti-semita e contra as tendências imperialistas do ocidente, muitas vezes supressoras e repressoras de formas de expressão social e política de grupos minoritários. Neste aspecto, de notar que Jones também não era um absoluto pacifista – embora as suas músicas fossem infinitamente mais pacificas que outra forma de fazer política, expressou em algumas entrevistas a sua concordância perante actos terroristas e outras tácticas radicais.

Mais do que um projecto artístico, Muslimgauze parecia ser uma espécie de terapia para Bryan Jones como prova a quantidade absurda de recortes e músicas que foi criando. No total, Jones terá criado mais de 90 discos, editado por mais de 30 editoras e composto cerca de 2 mil músicas, algumas delas editadas mais recentemente por quem quer dar continuidade ao seu legado.

Por exemplo, o disco Wish of the Flayed, editado em 2003, terá sido passado por Muslimgauze a Steve Wilson em 1996, um dia depois de ter sido gravado em apenas um dia, algo que não é estranho para o artista atendendo o seu tipo de relação com a música.