O que é o novo Óscar de Melhor Filme Popular? E o que é um “filme popular”?

Novidade faz parte de um pacote de alterações que a Academia fez à cerimónia para atrair mais público.

Foi uma das novidades anunciadas pela Academia no início do mês. O cineasta e director de fotografia John Bailey foi reconduzido como Presidente da associação, o tempo de duração de apresentação da cerimónia vai mudar para uma transmissão de 3 horas, “mais acessível”, e a data da gala vai ser antecipada em 2020: está prevista para 9 de Fevereiro (a de 2019 mantém-se marcada para 24 de Fevereiro). Todas estas alterações são interessantes se fores fã da maior entrega de prémios da indústria de Hollywood, mas há outra que tem deixado os verdadeiros aficionados da Sétima Arte a sentirem-se “insultados”.

Está relacionada com a criação de uma nova categoria para premiar “filmes populares”. Os critérios ainda estão por anunciar e grande parte da polémica relacionada com a decisão centra-se, por isso, no óbvio: o que é afinal um “filme popular”? É o oposto de um filme indie? Não são todos os filmes nomeados para Melhor Filme já populares que cheguem para o Óscar? Estará a definição – de algo que não pode ser pura e simplesmente fixado assim – a querer referir-se às receitas das bilheteiras? Uma crónica do IndieWire dá, e bem, o exemplo de Get Out. O filme, que no ano passado venceu o prémio de Melhor Argumento Original contra todas as expectativas da crítica, arrecadou mais de 255 milhões de dólares em todo o mundo e não foi só uma declaração arriscada sobre raça e classes sociais, foi um verdadeiro fenómeno cultural, e isso parece algo bastante popular.

Se pensarmos na etimologia e nos focarmos no “POP” da palavra, talvez nos aproximemos daquilo que a Academia quis transmitir, mas nem por isso deixa de ser uma definição de contornos líquidos, que varia consoante os contextos de cada um. No anúncio oficial, defenderam-se referindo que a nova categoria pretende premiar blockbusters, filmes de super heróis que acabam por só conquistar as categorias técnicas.

A inclusão da categoria é vista por muitos como uma tentativa desesperada da Academia reconquistar o público que a cerimónia foi perdendo ao longo dos anos – a deste ano bateu recordes negativos, com a pior audiência de sempre com cerca de 26.5 milhões de telespectadores – mas muda completamente as regras do jogo.

Este assumir da sua própria fragilidade e até da sua potencial irrelevância ao inventar um prémio de consolação para os blockbusters, funciona também como uma espécie de apelo de joelhos da indústria de Hollywood para que gigantes como a Marvel e a DC compareçam à festa e tragam as suas legiões de fãs como convidados, depois de anos de um preconceito quase padronizado da Academia perante os super-heróis.

Seja-se ou não fã do género, não há dúvida para os seguidores do cinema norte-americano que a Academia estabeleceu há muito um padrão a ser seguido e, consequentemente, uma lista de artistas e géneros injustiçados, vítimas de um snobismo injustificado – fora do universo fantástico, pensa por exemplo em nomes como Quentin Tarantino, Alfred Hitchcock ou Stanley Kubrick. Se não for um drama de orçamento considerável, receitas respeitáveis, protagonizado por astros consagrados ou actores-revelação consensuais, realizado por um dos preferidos da Academia está fora do jogo. Mas se for um épico de guerra, um filme histórico sobre assuntos queridos do público, uma biografia, de preferência dramática e de lágrima fácil, então, a hipótese de ser nomeado ou vencedor aumenta exponencialmente.

Terror, ficção científica, comédias e super-heróis, são todos géneros historicamente descartados nos maiores prémios do cinema ainda que, em sentido contrário, sejam os que costumam levar mais espectadores às salas de cinema.

Apesar de ainda não serem conhecidos os critérios que, para a Academia, tornam um filme “popular”, e de ser um erro usar as bilheteiras tão controladas pela publicidade para o categorizar dessa forma, a nova categoria tem contornos ainda mais intrigantes. É que esta novidade foi uma sugestão da ABC, estação televisiva que tem o contrato de exclusividade para transmitir a cerimónia até 2028, a mesma ABC que é vinculada à Disney.

Não vale a pena iludimo-nos: o Óscar sempre foi o prémio da indústria. Não foi criado por críticos ou estudiosos de cinema. Existe desde 1927 para promover a linha de montagem dos estúdios, visando o lucro. A história da cerimónia mostra-nos que desde os primórdios o prémio de Melhor Filme andou de mãos dadas com os êxitos de bilheteira – entre as dez maiores bilheteiras com valores actualizados nos Estados Unidos, nove foram indicadas ao Óscar de Melhor Filme. Nem todos ganharam, como Star Wars (1977) ou Shark (1975), mas estavam na lista final.

O problema não é só a hipocrisia de querer incluir de repente numa gala um género que sempre foi o patinho feio da indústria para ter audiências, também não é a hipocrisia de, mesmo querendo (ou precisando) de o incluir, deixá-lo na categoria de prémio de consolação, sem hipótese de alguma vez chegar ao grand prix de Melhor Filme, também não é só a hipocrisia de querer definir e fechar o termo “popular” com todos os preconceitos que lhe existem associados e à questão da tipificação da cultura – a Cultura e a cultura/educação da população. A questão é que o Óscar devia celebrar o cinema em todas as suas formas, não dividi-lo.

É um contra-senso que a Academia queira levar os heróis para a cerimónia para ter audiência, mas sem querer perder a fachada de elite artística. Quer ser popular, mas continua com a postura de se achar melhor que o público.

Depois da primeira dose de comentários negativos, feita entre membros da própria Academia, foi divulgado um comunicado para esclarecer que todos os filmes são elegíveis tanto para Melhor Filme, como para Filme Popular, podendo receber indicações nas duas categorias, mas ainda não adiantou mais. A Academia premeia, em teoria, os melhores produtos recentes do cinema norte-americano, não os melhores filmes dramáticos feitos para te fazer chorar, ou os Oscar bait. É preciso que haja espaço para todo o tipo de produção cinematográfica e, acima de tudo, sem manobras regulamentares.