Asia Argento, voz do #MeToo, pagou a jovem que a acusou de “agressão sexual”

Foi um dos rostos do movimento de denúncia pós-Weinstein, e vê-se agora confrontada com a revelação de que terá pago a um menor que a acusou de violação.

Asia Argento (via Instagram)

O caso remonta a 2013, quando Jimmy Bennett, hoje um actor e músico de 22 anos, tinha 17 e Asia Argento tinha 37. Conheciam-se por terem interpretado no grande ecrã uma mãe e filho na história ficcional conturbada do filme The Heart Is Deceitful Above All Things (2004), realizado, protagonizado e co-escrito pela actriz e realizadora italiana. Em Maio de 2013, num (re)encontro que Argento chegou até a divulgar nas redes sociais, envolveram-se sexualmente. Bennett diz ter ficado prejudicado emocional e profissionalmente. Por ter interpretado o papel de filho da personagem de Argento no filme de 2004, sentia que tinham desenvolvido “uma relação mãe-filho da sua experiência juntos”. A idade legal para relações sexuais consentidas na Califórnia, onde se encontraram, é de 18 anos.

Os pormenores constam nos documentos agora revelados pelo New York Times, que recebeu de uma fonte anónima o acordo judicial feito entre ambos no ano passado, que revela que Argento pagou 332 mil euros a Bennet, 175 mil euros dos quais já foram pagos em Abril.

O acordo não silencia as partes envolvidas, mas impede a divulgação de uma de várias selfies tiradas na alegada agressão sexual – e que o New York Times terá recebido juntamente com a documentação legal agora vinda a público – e proíbe também que Bennett processe Argento. Numa carta escrita pela advogada de Argento e enviada ao Times, Carrie Goldberg refere que a actriz “decidiu não usar a linguagem de acordos de sigilo porque sentia que era inconsistente com as mensagens públicas que tem transmitido sobre os danos sociais dos acordos de não-divulgação”.

A italiana, filha do cineasta de culto Dario Argento, é um dos rostos do movimento MeToo e um dos primeiros nomes destacados na investigação da revista New Yorker ao padrão de alegados comportamentos de violência sexual e assédio laboral de Harvey Weinstein. Asia diz ter sido forçada ao sexo com o produtor quando tinha 21 anos e afirma depois ter mantido uma relação intermitente com ele por medo de retaliações na sua carreira.

A investigação da New Yorker sucedeu à do New York Times que desencadeou toda esta história a 5 de Outubro de 2017, e que se focava no padrão de “acordos judiciais de sigilo, pagamentos e ameaças legais” que Weinstein aplicava depois de cometer os alegados actos de assédio, usando a figura do produtor para o que viria a ser um padrão generalizável a outras figuras e indústrias.

Vinte e um anos depois do abuso que relata, Argento tornou-se uma das vozes mais audíveis sobre as relações de poder entre géneros na sua indústria, incentivando a discussão entre o que constitui ou não consentimento, as relações de poder entrelaçadas com questões laborais ou etárias e a credibilidade das vítimas. Em Maio, no Festival de Cannes, fez um discurso entusiasmado contra o assédio e recordou que fora ali que o seu caso tinha começado.

Jimmy Bennett, como filho de Asia Argento, no filme de 2004, The Heart Is Deceitful Above All Things.

Terá sido precisamente por ver como “Argento se tornou central como uma das muitas vítimas de Harvey Weinstein”, que Bennet decidiu agir. Segundo o advogado Gordon K. Sattro, Bennet descreve o encontro de 2013 como “extremamente confuso, mortificado e enojado”. Inicialmente iam processá-la, depois chegaram a acordo que implica que ele não pode processá-la, mas que pode falar sobre o caso.

Jimmy Bennett, que tal como Argento não comentou a notícia do New York Times, pedia inicialmente 3 milhões de euros de compensação por danos emocionais intencionalmente infligidos, agressão e perda de oportunidades profissionais. Segundo o jornal norte-americano, o jovem actor e músico tinha acumulado 2,3 milhões de euros de rendimentos nos cinco anos anteriores ao encontro sexual com Argento e desde então os seus rendimentos baixaram para cerca de 52 mil euros por ano.

Segundo a advogada, a verba paga destinou-se a “ajudar Bennett”. Dirigindo-se ao actor e músico, a carta indica ainda: “Esperamos que nada como isto te volte a acontecer. És um criador poderoso e inspirador e é uma miserável condição da vida que se viva entre pessoas merdosas que atacam tanto os teus pontos fortes quanto as tuas fraquezas”. 

SonnySunny thank you for the sunshine you gave to me @jimmymbennett

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A polícia de Los Angeles está entretanto a investigar as acusações de agressão sexual feitas por Benett, uma vez que não foi feita nenhuma queixa oficial junto das autoridades à data do alegado abuso.

O advogado de Harvey Weinstein, que começa a ser julgado em Setembro por seis crimes sexuais de que é acusado por três mulheres, veio a público considerar “hipócritas” as acusações de Asia Argento.

Outras representantes do movimento #MeToo também vieram dizer publicamente que as acusações contra a actriz não devem desacreditar o movimento.