À selva urbana… só falta mesmo a selva

Todos conhecemos, celebramos ou distanciamos-nos do termo iconicamente popular "selva urbana" – a famosa "concrete jungle" – mas… percebêmo-lo?

Ilustração de João Ribeiro/Shifter

As palavras, frases e parágrafos que se seguem contam-vos a minha relação com a dita selva. Basicamente, a minha viagem de aprendizagem – as frustrações e revelações – do que é a cidade e quem são os membros que compõem a fábrica urbana.

Tendo crescido numa aldeia algarvia um q.b dormente e distante do ritmo cosmopolita, lembro-me de em puto odiar as idas à capital, à cidade, a Lisboa“Pah! Aquilo é enorme… está tudo sujo, cheio de carros e as pessoas nem se falam, argh!”.

O culminar deste sentimento ‘bateu-me’ todo de uma vez só. Eis o episódio: eu puto e hyped AF a fazer a Vasco da Gama ao nascer do sol e a caminho da premiere da Expo 98, foi Gil, foram Pastéis de Belém e foram outros tantos clichês… mas tudo rapidamente perdeu o seu glamour a sua newness naquela azáfama que eu não compreendia, na verticalidade dos edifícios e das pessoas… tudo me parecia sem alma, sem razão.

Praia da Salema (foto de Tony Fernandez via Flickr)

À cidade faltava-lhe aquela espiritualidade a que me tinha habituado – o ‘verde’ da Serra e o ‘azul’ do Atlântico. Tendo crescido “ensanduichado” pelo Atlântico e o campo Algarvio, faltava-lhe o verde, os animais e a leveza da Natureza. Rejeitei e opus-me durante muito tempo à ‘urbanização da sociabilidade’.

Foi só já emigrado, quando decidi que estava na altura de ir para (no meu caso ‘odiar’ ) Londres – €€€ a man gotta do what man gotta do $$$ – que compreendi realmente o que são cidades, porque existem e porque gravitamos na sua direcção.

Fumava eu à janela, numa noite de verão londrina, perdido em contas insignificantes – “Tchii boy só nesta rua 6 autocarros x 84 pessoas, mais o pessoal nos carros… as pessoas, o banco, o supermercado, as lojas … edifícios… Tchii só aqui estão mais pessoas que em Budens [aldeia onde cresci] e depois ainda tens mais uns quantos milhares de ruas, avenidas, bairros, becos e ruelas…”. Enquanto tentava compreender a escala da coisa, e concluía que havia mais pessoas em Londres que em Portugal, eis senão quando, naquele scroll cego de Facebook, deparo-me com um daquelas partilhas baratas de um amigo qualquer – esse vídeo foi o meu momento Eureka:

As formigas e as suas metrópoles subterrâneas

A cidade é realmente o que acontece quando mentes brilhantes e corpos inquietos – pensadores e fazedores – coabitam o mesmo espaço, procuram, interagem e dão forma a novas ideias, comportamentos, culturas e tecnologias.

Tal como as formigas têm uma missão, um propósito, uma direcção e os formigueiros como epicentro, nós temos as cidades como epicentro e zênite de cultura, inovação e … humanidade ( ?! ) – o tal projecto civilizacional de que já falei na minha reflexão sobre a L!B€®DAD£.

A cidade é aquilo de que somos capazes. Daí a nossa necessidade de ‘urbanizar a sociabilidade’.

Ok… visto agora ser um confesso apaixonado pela cidade e toda a sua fábrica urbana, o que não me convence e continua a frustrar é o facto de na dita selva urbana haver muito pouca selva… a meu ver, necessária à sociabilidade – pelo menos a saudável e sustentável.

É sabido que beneficiamos de ‘verde’ e ‘azul’ nas nossas vidas. Basta olhar para certas trends para o percebermos – todos nós procuramos o escapismo na Natureza, seja em viagens aos fjords da Noruega ou num retiro em Trás-os-Montes, em vídeos de gatos e outros ‘fofinhos’ do YouTube, nas plantas lá de casa ou nos produtos orgânico-biológicos-hisptershit que compramos. Nós experienciamos isso mesmo e estudos comprovam-no também – tens este, por exemplo.

Foto de Elijah O Donell via Unsplash

Em jeito de resumo, o que os estudos nos dizem é que (i) o estar ao ar livre, em contacto com a Natureza –- as árvores, os passarinhos, o céu e tudo mais – está directamente associado a níveis mais elevados de bem-estar mental; e que (ii) os efeitos benéficos da Natureza são especialmente evidentes em indivíduos com níveis mais elevados de impulsividade e com maior risco de vir a sofrer de problemas de saúde mental.

O estudo mais recente – este, que aqui quero presentear como ‘pontapé no cu’, tanto das autoridades como do povo português – diz-nos que a conversão de terrenos baldios em espaços verdes (que reduzem drasticamente os sentimentos de inutilidade e depressão, particularmente em bairros ‘segregados’) pode custar menos de 1 500 dólares (aproximadamente 1.000 e tal euros).

Ora, o que aqui proponho é que se vá um passo mais à frente e se faça disto não só legislação mas cultura. Isto é, que as autoridades, governo ou quem quer que seja o ‘patrão’, implemente uma legislação verde (regulamentação, incentivos, etc. ) e que o povo adopte uma cultura sociabilidade verde (lifestyle, comunidade, etc. ).

A nível de princípios, acho que se devia seguir o processo e directriz da permacultura, que se traduz em agricultura permanente – em inglês explica-se assim: agriculture by design, ou seja, a criação de ecossistemas sustentáveis, auto-suficientes e com propósito. O que é a permacultura mesmo? Por um lado, uma filosofia de vida, regida por um código ético; por outro, uma lógica inteligente e um conjunto de ferramentas e técnicas que permitem desenhar ou redesenhar qualquer sistema humano (quintas, aldeias, cidades, etc ). Técnicas, muitas vezes simples, rudimentares e milenares, praticadas por muitos povos que ‘sobrevivem’ em locais com recursos escassos como água ou vegetação, mas que por ‘viverem’ a Natureza, entendem-na e tiram proveito desta de maneira sustentável.

Então, e porquê esta fanfarra toda? Porquê as cidades?

Simples, é onde a maioria das pessoas vive (densidade populacional bruh!) e isto para não falar das megacidades! Por exemplo, o Departamento das Nações Unidas para Assuntos Económicos e Sociais estima que dois terços da população mundial venha a viver em cidades ainda antes de 2050checka aqui. As cidades serão importantíssimas para o futuro da permacultura aplicada, através da sua capacidade de proliferação e potenciação. E… porque acima de tudo, depois de anos de abuso industrial (agora desactivado) e de consumismo desmedido (ainda presente), precisam urgentemente de restauração ecológica.

É altura de nos responsabilizamos e pensarmos na economia enquanto gestão de recursos, por oposição à mera exploração dos mesmos (o Jacques Fresco levou a vida dele a falar da resource-based economy, leiam que vale a pena ou vejam os Zeitgeist), como forma de podermos  atender às necessidades da flora e fauna locais com que co-habitamos e tirar partido da topografia do ‘nosso habitat’ – os edifícios, as estruturas e lugares enquanto montanhas, vales, etc. – e para aumentar a abundância, diversidade e a fertilidade da paisagem urbana.

Pronto. Agora, vale a pena avisar que algumas das ideias que se seguem podem facilmente ser mal interpretadas, vistas como radicais, utópicas, imaturas… ou o que quer que seja que lhes queiram chamar, mas caguei, aqui fica. Discutam, critiquem, melhorem… façam!

Legislação verde

Que se faça dos low-cost hacks (a cena dos 1 500 dólares de que falei acima) um urban-fix-kit implementado pelas autoridades sempre que possível. Que se siga o exemplo de Madrid, que em 2016 decidiu ‘esverdear’ a cidade e determinar que qualquer espaço, parede, telhado ou edifício que possa ser ‘verde’ tenha que ser ‘verde’ – expandiram-se os parques existentes, transformaram-se baldios em jardins e cobriram-se telhados e paredes com tanta vegetação quanto possível, onde possível, sempre que possível. Madrid prepara-se agora para, em Novembro, banir a utilização de carros a não-residentes no centro da cidade; só residentes, veículos de entrega com emissões zero, táxis e transportes públicos serão permitidos no coração da ‘selva’. A longo prazo, o plano passa por transformar algumas destas ruas do centro em parques também.

Uma Madrid mais verde (foto via Arup/DR)

E como já foi dito lá para cima, proponho que estas medidas sejam feitas em prol do bem-estar público, especificamente a saúde mental e espiritualidade, mas as razões pelas quais Madrid as tomou não são menos nobres ou importantes, fizeram-no para ajudar a cidade a adaptar-se a alguns dos maiores desafios que advêm das alterações climáticas: as temperaturas ‘loucas’,  as secas severas e o facto de que quando chove, chove ‘como se não houvesse amanhã’ resultando em cheias ‘estúpidas’ – yup, looking at you Albufeira!

Outra coisa que se combatia também, era o smog. Bora fazer da plantação de árvores, arbustos e tudo mais na cidade e fora dela uma ‘indústria’. Por exemplo, seed bombingisto – é algo bem fixe, será que não há marca nenhuma em Portugal que pegue nisso e faça uma campanha de activismo em que vai largar bombas por Portugal inteiro? Pah, parece-me fixe… mas fogos e conspirações é história para outra altura. Ah… ou até mesmo uma máquina de vendas que dispense sementes para guerrilla gardening de borla (?!) ou uma saqueta de sementes em vez de açúcar com a bica?! Hun, Delta!? Sim, porque quem gosta de café bebe-o sem açúcar lol.

Basicamente, é isto que se quer…

Uma Nova Iorque imaginada. Submersa e onde as estradas deram lugar a canais e passadiços pedonais (foto via Clouds Architecture/DR)

Imagina só, parares ao semáforo com a tua bicicleta e teres ali umas framboesas para ‘picar’ e dar aquele spike de energia para pedalar… fedges ( food edge ) bro, jardins on-the-gooh yeah! Ao som do “Ride A Bike” do Mike El Nite.

O objectivo é que espaços verdes não sejam pensados como sendo ‘verdes’, pois visões imaturas, deseducadas e pedantes à vivência com estes poderão rejeitá-los pela sua sazonalidade, isto é, quando não são tão verdes assim… o que me leva ao argumento da cultura verde – a tal revolução espiritual de que precisamos.

Projecto criado pela Factory Design para Londres, em 2012 (foto via Vimeo)
Projecto criado pela Factory Design para Londres, em 2012 (foto via Vimeo)

Cultura verde

Que se faça disto cultura, em que todo e qualquer acto de solidariedade, amor, revolta e / ou protesto seja ‘verde’ também. Então, o que é que se pode fazer?

Hiper-localizar a produção da nossa comida. A meu ver, algo primeiramente iniciado por nós, o povo, mas que poderia beneficiar tanto de apoios do Estado como de investimentos privados ou de incentivos a start-ups que se dediquem a resolver isto. Falo de cenas como agricultura vertical, hidropónicos, kits de cultivo para janelas, etc. Aliás, esta proposta recente imagina Londres enquanto um centro urbano de produção agrícola, com vista a intensificar a produção de alimentos e permitir que a terra agrícola/rural seja devolvida a um estado natural mais selvagem.

Proposta do estudante Joseph Mercer para Londres (foto DR)

Tudo resultando em menos importações e na consequente redução da pegada ecológica – e no desenvolvimento de novas culturas ‘bairristas’ no que toca a comida e petiscaria. Imagina os pimentos recheados da Baldaya, a sopa de abóbora do Restelo ou o medronho da Baixa de Faro. Eis o que podes fazer:

  • Em casa, seja com kits de cultivo para janelas, plantações verticais, hidropónicos, mini-estufas, planetários ou o que quer que seja que queiram engenhar, podem ver crescer de tudo um pouco. Eu, de momento, tenho chillis, tomate cherry e manjericão. Ah e não se esqueçam de arranjar umas quantas plantas purificadores de ar como a clorofito!
  • Nos jardins lá de casa, orientem umas paletes de madeira (peçam nos supermercados) e construam plantações verticais para maximizar espaço. Plantem pepinos, tomates, batatas, etc. Certifiquem-se que cobrem o jardim com flores de múltiplas variedades (anuais e perenes) garantindo que polinizadores e outros insectos têm um habitat seguro. Galinhas e tal também bate, mas isso já requer mais disponibilidade e ‘coragem’ lulz.
  • Nas ruas, guerilla gardening. Nos buracos da estrada, nos casebres, naqueles espaços perdidos em que não cabe nada, em todo e qualquer lado podemos trazer e gerar vida, verde.
  • Nos parques públicos perto de onde moram, façam hack da cena, plantem morangos silvestres ou amoras e mandem seed bombs de flores que atraem polinizadores – o Tyler agradece.
Foto de Tyler The Creator via Instagram

Desligar as luzes. A poluição luminosa é um problema de que não se fala muito, poucos sabem dele e não é algo que consigamos resolver sozinhos, mas a sua consciencialização deve ser dissipada. A nossa relação com o céu é algo que também ao longo dos tempos se tem vindo a perder… aquela espiritualidade oriunda do além, de olhar um céu estrelado e não ter respostas, em vez de olhar um ecrã iluminado e sofrer uma overdose informacional. A poluição luminosa não só afecta o céu nocturno e nos impede de ver o céu estrelado, mas também tem um impacto astronómico (peço desculpa pelo trocadilho lol) nos ecossistemas (a fauna, a flora, os recursos naturais), no consumo de energia, na forma como contribui para as alterações climáticas e até mesmo na relação entre tipos de luz (natural vs. artificial ) e a saúde.

Só para que se perceba a escala do problema, Nova Iorque tem uma equipa especializada no socorro de aves que se perdem do grupo, durante viagens migratórias, por confundirem as luzes da cidade com o ‘dia’, o calor da terra prometida. Este documentário, The City Dark, mostra-nos isso mesmo e este website faz o mapeamento do problema globalmente.

Screenshot via Light Pollution Map

Soltar os animais. A ideia mais maluquinha. O que não faltam são culturas e/ou sítios em que os animais partilham tempo e espaço mais livremente connosco. Istambul tem os gatos, Montevidéu os cães, Índia tem as vacas e os macacos… os dois primeiros exemplos podem ser acusados de negligência e de falta de estrutura, concordo. Mas é com cultura e estrutura que se cria algo para a integração e potenciação destes animais e outras espécies na sociedade. Bora encher Lisboa de burros prontos a nos ajudar a carregar as compras?! Beneficiaríamos da relação com estes e garantidamente consumiríamos muito menos proteína animal lol.

Pronto já chega! Agora é com vocês… comecem por comprar uma bicicleta e uma planta para a secretaria do trabalhoaqui fica o link. O nosso símbolo de resistência. Haja saúde. Bora salvar o mundo!

Foto de Michael Aleo via Unsplash