Twitch: o salva-vidas do entretenimento online

Uma espécie de escape para os jovens adultos e crianças saídas da casca, que procuram entretenimento enquanto passam um bom bocado em "comunidade".

O barco do YouTube atravessa marés conturbadas (#conteúdo) com maremotos de vídeos criados em prol das políticas de conteúdos da plataforma, um particular enfoque nas camadas mais jovens e muito pouco bom senso por parte de alguns dos novos criadores ou influencers. O Twitch, por seu lado, apresenta-se como uma espécie de escape para os jovens adultos e crianças saídas da casca, que procuram entretenimento enquanto passam um bom bocado em “comunidade”.

Um espaço de sátira, critica social, gaming, memes e essencialmente de liberdade. Se na década passada – e quando a televisão ainda era rainha – o ritual dos mais jovens porventura seria chegar a casa, após um dia de aulas, e ligar na SIC Radical para ver os grandax malukux Unas, Alvim ou Nogueira, agora os role models do entretenimento juvenil são outros e recomendam-se. A comparação pode soar meio descabida, mas pessoalmente faz particular sentido. Humor, gaming, música, momentos cringe e sobretudo jovens capazes de criar conteúdo para jovens – com o conhecimento de causa, autonomia e margem de erro necessárias (e até mesmo indispensáveis) – definem o Twitch como uma colecção singular de momentos honestos e amadores. Porque errar é humano. Porque é a errar que se aprende, e porque… (não tenho mais frases feitas, desculpem).

Alguns youtubers bem conhecidos – como Casey Neistat – acompanhando o fenómeno, começaram a criar conteúdo na Twitch, não deixando de fazer o que já faziam no YouTube. Compreendendo que são plataformas com linguagens e públicos distintos. Outros criadores “nasceram” na Twitch – como o português MoraisHD – e conhecem melhor que ninguém os cantos à casa. Agora, até o Maluco Beleza, podcast da autoria de Rui Unas, começou timidamente a dar os primeiros passos na plataforma graças à “pressão” do patrono Francisco. Ainda que a sua presença na Twitch ainda não tenha a notoriedade que atinge no YouTube (ficamos à espera de um Pichudo Beleza com o Unas como convidado para resolver isto).

Certo é que as grandes marcas também estão atentas ao fenómeno Twitch. O lançamento do Galaxy Note 9, da Samsung, é prova disso. MoraisHD, Darkzonee e ImpaKtTV foram os twitchers escolhidas para a campanha nacional na plataforma que culminou com um jogo de Fortnite entre eles. Um dos trunfos do lançamento do novo smartphone da gigante sul-coreana em parceria com o jogo da Epic.

E não são só marcas a olhar para o Twitch do ponto de vista comercial. Recentemente, o Facebook, atento ao fenómeno da live streaming de videojogos, lançou um concorrente ao Twitch. Uma tentativa de chamar de volta os jovens para uma plataforma que envelhece diariamente, com o crescimento dos nichos nas outras redes sociais como o Instagram, YouTube ou Twitter. A Valve, gigante dos videojogos, e responsável pela Steam, foi a última anunciar um modelo de negócio semelhante, com a apresentação da Steam TV.

O gaming creditou e elevou a plataforma, sendo ainda o principal abono de família da Twitch; contudo, a empresa – que faz parte da gigante Amazon – tem ambições maiores. Recentemente, Emmet Shear, CEO do Twitch, afirmou que pretende duplicar a faturação em vendas de anúncios na plataforma, tendo como objectivo atingir os mil milhões de dólares. Actualmente a Twitch ainda está bem atrás do fenómeno YouTube, com “apenas” 15 milhões de espectadores por dia, longe dos abismais 1,9 mil milhões de pessoas que o YouTube atrai diariamente. Segundo a Bloomberg, para diminuir esta diferença, a Amazon tem vindo a abordar diversos youtubers com ofertas de acordos exclusivos. O actor Will Smith terá sido um dos abordados, resultado dos seus populares vlogs.

O Twitch não será apenas o salva-vidas do entretenimento online pelas alternativas e ferramentas que oferece, poderá ser também o “salva-vidas” de muitos entretainers e artistas diversos, que aos poucos vão abandonando o barco do YouTube, enquanto apostam na Twitch e na potencialidade do seu livestreaming, seja devido às baixas receitas ou dificuldade em monitorizar os seu vídeos, principalmente para quem está a iniciar a sua aventura no site de vídeos da Google.

Importa ter em conta que na Twitch a relação entre o público e o streamer é priveligiada e directa. Aqui é normal que os protagonistas dos vídeos vão lendo todos os comentários no chat e acedendo a alguns temas de conversa sugeridos pelos espectadores. Neste ponto também entram em cena os mecanismos de doação do Twitch: o espectador pode doar directamente durante uma livestream como subscrever mensalmente, recebendo o merecido agradecimento do streamer, além da possibilidade de entrada em canais privilegiados de Discord ou TeamSpeak e a oportunidade de jogar com o mesmo.

MoraisHD, zorlaKOKA, TheTjiDarkzoneeImpaKtTV, shikai são alguns dos twitchers portugueses mais relevantes, num mar de talento a descobrir e explorar num futuro próximo.