25 álbuns deste 2018 para ouvir antes que saiam mais

Reunimos um grupo de melómanos, de vários estilos e origens e desafiámo-los a partilhar contigo os projectos mais entusiasmantes deste 2018. Embarca connosco nesta viagem que vai da Nova Zelândia a Nova Iorque com passagens pela Alemanha, Islândia ou claro, Portugal.

A partir de Setembro, ano corrente já sabe ao seguinte. Na rentrée, depois de um ano em cheio e de um Verão acabadinho de encerrar – ainda sem o fecho oficial –, é altura de digerir o ano e começar a preparar o próximo. Um ponto importante é garantir que não se deixou passar nada e, neste mundo musical, louco de lançamentos e edições, a tarefa não se afigura fácil.

Com o advento do YouTube e das plataformas de streaming, o consumo de música mudou e a sua distribuição também; com a globalização cada vez mais vincada alarga-se também a nossa base de selecção para a próxima grande cena e tudo isto complica a missão. Por isso, reunimos um grupo de melómanos, de vários estilos e origens e desafiámo-los a partilhar contigo os projectos mais entusiasmantes deste 2018. Embarca connosco nesta viagem que vai da Nova Zelândia a Nova Iorque com passagens pela Alemanha, Islândia ou claro, Portugal.

Arctic Monkeys – Tranquility Base Hotel & Casino

Por Alexandre Couto

O disco mais recente de Arctic Monkeys foi um balde de água fria para a grande maioria dos fãs. Ninguém estava à espera que depois do rock de arena do AM, a banda se lançasse para a lua, numa mescla de influências que pôs de lado todo o seu percurso até agora. Era para ser um projecto a solo de Alex Turner, mas onde a banda não o deixou seguir sozinho, acabou por se tornar num dos discos mais originais dos quatro de Sheffield.

As influências de um tempo em que a música se queria lounge e dramática são o que mais se nota num disco em que assumem o papel de banda de hotel – só que o hotel é na lua. Este universo permite justificar uma série de comentário à contemporaneidade. Chega-nos através de piadas à gentrificação e à turistificação do mundo, conseguido ser sério e divertido quando fala de, por exemplo, a abertura de uma taqueria na cratera da lua. Com uma coesão extraordinária e o poder de alienar todos os que só gostavam da banda pelo AM, esta é uma viagem que nem os fãs mais dedicados de Arctic Monkeys conseguiriam esperar.

O resultado é o disco mais crescido que a banda alguma vez apresentou – mesmo que isso possa arrefecer as apresentações em concerto.

Travis Scott – AstroWorld

Por Alexandre Couto

Este era o disco mais esperados por todos os que preferem o seu hip hop na versão mais moderninha possível. Com um período de espera antecipado por revistas de músicas, blogues e, claro, memes, o parque de diversões de Travis Scott abriu as portas para revelar o seu melhor disco até à data.

A produção característica, entre o espacial e o néon, confirma a posição de La Flame como um dos curadores mais originais no universo do Hip Hop norte-americano. Um bom exemplo disso é faixa de homenagem ao D.J. Screw, o inventor das remisturas Chopped & Screwed – originário de Houston, a cidade que também é berço de Travis Scott. É uma das homenagens mais suaves de sempre no Hip Hop. Uma figura muito mediatizada e com uma legião de fãs que compram merchandising tão disparatado como figuras action man de Travis Scott a peluches, o músico faz por justificar o culto com estas faixas repletas de grandes beats.

A lista de convidados também ajuda ao quanto é épico – vai desde Frank Ocean e Drake a John Mayer e Kevin Parker. Só é pena que a lírica de Travis Scott (as frases estilosas que diz revelam uma profunda falta de conteúdo) ainda não estejam à altura do parque de diversões sónico que conseguiu construir.

Jorja Smith – Lost & Found

Por Alexandre Couto

Que Jorja era uma voz preciosa e repleta de entrega já não era segredo nenhum. Só que lançar um disco tão sensível quando se tem vinte anos apenas vinte anos de idade foi um momento que lhe despertou sucesso mainstream e grandes louvores por parte da crítica. Depois de activar a alavanca mediática com uma faixa fresquíssima chamada “On My Mind”, apresenta-nos um disco em que a emoção, seja ela qual for, não se importa de ocupar um papel mais importante do que um clique fácil no YouTube. Uma viagem onde a pop passa despercebida, tal é a sinceridade com que estas batidas R&B nos apresentam uma cantora com o seu próprio estilo, sem problemas em assumir a sua identidade artística.

Por Rita Pinto

Esperávamos por isto há muito tempo. Dois anos e meio depois de se ter estreado com “Blue Lights”, Jorja Smith escolheu 2018 para nos apresentar Lost & Found, o seu primeiro álbum. São 12 canções que mostram que há uma qualidade na sua música que não parece actual – a sua voz profundamente ressonante seria a banda sonora perfeita de um bar de jazz renascentista em Harlem, da disco soul dos anos 70 ou dos tempos áureos do UK Garage – se pensarmos na sua colaboração com Preditah “On My Mind”. Com Lost & Found, Jorja arranjou a forma ideal de falar de amor: é a forma como consegue ser expressiva sem recorrer a ginásticas vocais que a faz sobressair. Destaque para “3rd February”, “Lifeboats (Freestyle)” e “Goodbyes”.

Kali Uchis – Isolation

Por Rita Pinto

Foi durante muitos anos um tesouro guardado por nomes do Hip Hop como Tyler, The Creator, Snoop Dogg, A$AP Rocky ou Earl Sweatshirt, a quem emprestou a sua voz para os coros, mas nem por isso a sua carreira foi feita de trabalho de bastidores. Desde Por Vida (2015) – que poderia facilmente ser confundido com uma colecção de inéditos da Motown anos 60 – que nos tem habituado às melhores companhias (BadBadNotGood, Diplo, Kaytranada, Tyler, The Creator) e ao seu “lowrider soul”, o seu R&B moderno com laivos de pop sexy.

Depois do EP de estreia, faltava um álbum para consolidar esse seu jeito effortless, sem mise-en-scènewhat you see is what you get, a universalidade que já se previa que haveria de a levar para fronteiras cada vez mais longínquas. Isolation chegou em Abril para nos fazer apaixonar pela colombiana. O género continua o mesmo, com 15 faixas consistentemente boas, simultaneamente vintage e futuristas. Destaque para “In My Dreams” que co-compôs com Daman Albran, “Tomorrow” onde contou com a ajuda de Kevin Parker dos Tame Impala e o melhor reggaeton que alguma vez vais ouvir “Nuestro Planeta”.

Oneohtrix Point Never – Age Of

Por Cláudio Soares

Acabei de comprar. Mesmo antes de começar a escrever. Foi boundle e tudo: Age Of LP, We’ll Take It EP, The Station t-shirt (com back print da capa e tudo), e ainda três cartas de tarot para colecção. Queria o disco e a t-shirt é do caralho, tasse bem. Noites não são noites e, se é para escrever sobre o último disco do Oneohtrix Point Never (0PN), quero que saibam que, até agora, é dos que mais valeu a pena em 2018.

Mas vamos antes do disco. Primeiro nasceu MYRIAD – um “concertscape” imaginado de uma perspectiva alienígena inteligente que olha para o nosso planeta, comenta, critica e tudo o que conseguirem interpretar deste espectáculo. MYRIAD é o projecto mais ambicioso do músico e compositor, onde reúne performances teatrais, coros e visuais de outro universo, apresentados em locais como o Park Avenue Armory, Barbican, MoMA ou Tate Britain. Incrível, não é?

Age Of é o resultado sonoro desta performance, lançado pela Wrap Records, editora de nomes como Aphex Twin. Depois de sete discos originais, bandas sonoras premiadas em Cannes com o filme Good Time, nomeações ao Mercury Prize e colaborações com nomes como NiN, Anohni ou Tim Hecker, este é o lançamento mais ambicioso de Daniel Lopatin (OPN). A sua produção atingiu o pico mais coeso e rico do artista até à data, atravessando o folk, a música clássica, melódica, samples e drum machines e computer glitch.

Oneohtrix Point Never é dos projectos mais avant-garde do momento e Age Of guia-nos por uma viagem a um novo mundo inclassificável. Vão nerdar mais sobre isto, que vale muito a pena.

Nils Frahm – All Melody

Por Cláudio Soares

Quantos de vocês esperariam ver um projeto como o de Nils Frahm no iTunes? Quantos lá estiveram antes dele? All Melody é já o 9º disco da sua carreira, fora os EP’s, as bandas sonoras ou ainda as colaborações com Ólafur Arnalds, Dj Shadow, Woodkid e até Robert De Niro. O que o torna tão especial?

A electrónica ambiental, tanto clássica como moderna, que sai do trabalho por entre pianos, Rhodes, drum machines, Roland e mais aquilo que ele quiser, é incrível e sempre esteve ao lado de uma estética bastante melancólica. Mas All Melody é mais que isso e Nils mostrou como consegue manter a personalidade depressiva e dançar ao mesmo tempo. A atenção ao detalhe e as texturas neste disco são fantásticas, mas até isso pareceu durar tempo demais depois de umas semanas em loop. Mas depois do que aconteceu no Primavera Sound, nada é demais. Se em 2003, a “Says”, do disco Spaces, tinha aberto os olhos à malta, All Mellody chegou para comprar discos, encher festivais e permanecer na playlist para o teu trabalho.

E a partir do Nills Frahm, quantos vão entrar no iTunes? Se ainda não passaste por lá, sugiro Ólafur Arnalds, Peter Broderick ou Braveyoung.

Johan Johansson – Englaborn & Variations

Por João Ribeiro

Johan Johansson era uma jóia bem guardado na coroa islandesa — ao lado de outras como Bjork. No activo pelo menos desde 2002, data do seu primeiro disco, foi nos anos recentes, especialmente desde 2016, que o compositor foi dando os primeiros passos em direcção ao mainstream. Teve o seu momento de consagração mundial quando começou a ser um recorrente compositor para alguns dos filmes mais mediáticos de Hollywood, como The Theory of Everything, Sicario ou Mother ou Mary Magadalene – este último editado depois da sua morte.

Johan Johansson faleceu aos 48 anos, a 9 de Fevereiro de 2018, uma notícia que apanhou de surpresa a comunidade de seguidores que iam começando a dissecar as suas composições que misturavam delicadamente o melhor do passado e do futuro.

Englaborn & Variations é uma reedição de um dos seus primeiros trabalhos, 15 anos depois, preparada pelo músico mas editada num momento agridoce depois do seu falecimento. O disco que Johan queria como uma celebração da sua carreira, recuperando registos antigos e adicionando remisturas e novas criações, acabou por se tornar numa elegia e numa forma de prestar uma última homenagem ao músico.

Kamasi Washington – Heaven and Earth

Por João Ribeiro

Depois de Thundercat, Kamasi Washington é um dos nomes da cena jazz norte-americana que vai acolhendo mais notoriedade e consenso entre as gerações mais jovens – como mostra a sua vinda a Portugal recentemente. Em 2018 ,apresenta-nos um novo álbum e, depois de 2017 ter sido dominado nesta frequência por Drunk do baixista, esta é a vez de Heaven and Earth do saxofonista nos prender a atenção.

É o segundo álbum do compositor e pleno de intenção para se tornar no disco referência da sua carreira. Com 2 horas e 25 minutos, o álbum divide-se em duas partes fisica e conceptualmente distintas, como de resto o título e a capa indiciam. A primeira parte, Earth, é marcada pela citação “our time as victims is over”, que se pode ouvir a abrir o disco em “Fist of Fury”, numa toada mais realista; já a segunda parte, Heaven, que se inicia com “The Space Travelers Lullaby”, é um convite para uma viagem mais espiritual.

Apesar da especialização de Kamasi no saxofone, é preciso ter em conta que assume um papel mais amplo neste registo, encarregando-se da composição de quase todo o disco e da coordenação de uma extensa banda onde encontramos nomes como Ronald Bruner Jr., Terrace Martin ou Thundercat.

J. Cole – KOD

Por João Ribeiro

O quê?! Ainda não ouviste KOD do J. Cole? É normal: não teve o hype de outros rappers, tal como não o tiveram os seus anteriores registos – isto apesar de, como neste caso, os seus álbuns acabarem entre as listas intermináveis que resumem o mais excitante. KOD significa “Kids on Drug”s e o álbum é uma reflexão séria sobre o estado da América.

Tal como nos discos anteriores, J. Cole usa e abusa da sua posição de rapper para partilhar as suas visões do mundo e esse acaba por ser o ponto de mais difícil absorção. Num registo especialmente dedicado aos problemas da adição, J. Cole apela à abstenção com uma postura que tanto pode soar séria e sensata, como, por vezes, ligeiramente cota e careta. J. Cole é como aquele amigo mais velho que por vezes irrita de tão certinho que consegue ser, mas que consegue sempre deixar-nos a pensar.

Filho da Mãe – Água-Má

Por João Ribeiro

Água-Má é uma composição de excelência com espaço para a organização e para a desorganização, para o rigor e para a criatividade, capaz de criar verdadeiras sequências de imagens mentais despoletadas por simples acordes. Água-Má é mais do que um álbum a solo de um homem com uma guitarra, a demonstração da simbiose que Rui Carvalho, o filho da mãe, criou com a sua – uma relação feita de detalhes em que a abordagem a cada toque, a intensidade e a intenção são milimetricamente trabalhadas.

Elza Soares – Deus É Mulher

Por Carolina Valentim

Logo na primeira faixa, a voz rasgada de Elza anuncia a que se propõe com o seu novo álbum: “Minha voz uso pra dizer o que se cala / O meu país é meu lugar de fala”. Deus É Mulher chega ao mundo para dar voz a quem o sistema tenta calar. E Elza, como mulher negra nascida e criada na favela, tem autoridade máxima no assunto. A força e superação da Mulher é o assunto principal que oferece não só o nome ao álbum, mas talvez também o ritmo punk e rock a todas as 11 músicas, que contam com a produção de músicos de peso como Guilherme Kastrup, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos ou Romulo Fróes. Religião, política, sexualidade feminina e violência são cantadas sem tabus por Elza, num ano em que o Brasil passa por um dos momentos políticos mais opressores desde a ditadura. Deus é Mulher é mais do que um álbum em 2018. É um grito de todas as minorias a quem o Brasil hoje nega um lugar de fala.

Maria Beraldo – Cavala

Por Carolina Valentim

Por incrível que pareça, Cavala é o primeiro disco solo da cantora, compositora e clarinetista Maria Beraldo. Estreou-se de peito aberto para o público, num álbum que fala de forma autobiográfica sobre a sua sexualidade. Música popular brasileira funde-se com ruídos electrónicos num disco pop experimental que nos leva à intimidade da artista e a uma desconstrução do que conhecemos da música brasileira. Com participações de músicos como Tim Bernardes e Mariá Portugal, Cavala é o grito de liberdade de uma mulher lésbica ao qual ninguém consegue ficar indiferente.

Anelis Assumpção – Taurina

Por Carolina Valentim

Filha de Itamar Assumpção, Anelis honra o nome que carrega do pai ao mesmo tempo que traça um caminho próprio cheio de personalidade. Taurina é o seu terceiro disco e convida-nos a fazer um mergulho ao quotidiano poético de Anelis, repleto de cenas que nos desvendam a alma de uma mulher madura, sensível e intensa. A abordagem feminista feita através de metáforas gastronómicas em conjunto com a participação de familiares – como o filho, a irmã e o pai – e amigas artistas de Anelis – como Ava Rocha, Tulipa Ruiz ou Céu – faz de Taurina um álbum particularmente íntimo e muito representativo do poder feminino brasileiro.

Ty Segall – Freddom’s Globin

Por Pedro Arnaut

Guardar um tempo para ouvir atentamente um disco em 2018 tornou-se um luxo, pelo que, quando embrenhado no multitasking regresso várias vezes ao início da primeira canção, o álbum passou à próxima fase que já merece uma audição mais concentrada – mais à antiga. No caso de Ty Segall, bastou ouvir uma vez “Fanny Dog”, a 1.ª faixa, para passarmos à então segunda fase. E nem sou um aficcionado. Não ouvi nem metade da discografia do homem. É provável que esteja numa altura da minha vida em que, por andar a vasculhar os anos 1960, linguagem que Segall domina tão bem, esteja mais vulnerável a um registo que podia ter saído há muito. Não é fácil isto de ser relevante em 2018 e fazer música à 1968. Mas olhem para a capa do disco: parece tão psicadélica como produto da Internet.

Brigid Mae Power – The Two Worlds

Por Pedro Arnaut

Há algo de transcendente neste álbum pelo que não me vou esforçar demasiado para explicar o porquê de aqui estar. Só dizer que, tal como Freddom’s Globin de Ty Segall, é um disco que vai buscar inspiração lá atrás, à folk tipo Joni Mitchell e Vashti Bunyan, mas que se debruça nos assuntos contemporâneos como o #MeToo (“Don’t Shut Me Up (Politely)”).

Scarlxrd – DXXM

Por Marco Brandão

Scarlxrd é um rapper britânico que se afasta do característico estilo grime de UK. Conhecido por combinar géneros como o heavy metal e o trap (e uma boa dose de insanidade), não é um artista para todos os ouvidos nem para todos os moods. O cepticismo e o “nojo” de uma sociedade tremendamente hipócrita servem de mote para boa parte das músicas de Scarlxrd, soltas através de constantes gritos de raiva e frustração. O ano passado mesmo chegou a marcar presença em Portugal, naquela que foi uma das suas primeiras exibições fora do seu país natal, num evento com carimbo RapNotícias.

XXXTENTACION – ?

Por Marco Brandão

Uma das vozes mais controversas e singulares desta geração partiu este ano, após lançar um dos discos mais aclamados de 2018. Envolto em 1001 escândalos durante a sua curta carreira, dificilmente será recordado somente pelo seu historial artístico, tendo para sempre aliada a sua obra um tremenda sombra em torno das acusações que foi alvo, principalmente da ex-namorada que o acusou de graves agressões. Porém, musicalmente falando, e apesar de todas as criticas à linguagem obscena ou falta de “conteúdo”, XXXTENTACION influenciou uma série de artistas a libertarem-se das “amarras” de um só género.

Papillon – Deepak Looper

Por Marco Brandão

Um dos discos mais bem recebidos da primeira metade de 2018 em solo nacional. Papillon, membro dos Grognation, lançou o seu primeiro disco a solo e a comunidade Hip Hop e não só não ficou indiferente. Na era digital ,ver nascer um projecto com pés e cabeça parece complicado – muito possivelmente devido à ideia de que lançar singles soltos – é que vale a pena.

Todavia, sabemos o quão bom é viajar num álbum, na verdadeira ascensão da palavra, ficando desde já o nosso agradecimento ao rapper por nos oferecer este voo musical.

Dead Combo – Odeon Hotel

Por Mário Rui André

Carlos Paredes deixou-nos há 30 anos. E os Dead Combo começaram há cerca de 15 anos em tributo ao eterno guitarrista português. O conjunto é composto por Tó Trips e Pedro V. Gonçalves; Odeon Hotel é o seu sétimo álbum de estúdio, o sucessor de A Bunch of Meninos (2014). É um disco onde a densidade da guitarra a que a dupla nos habituou é praticamente trocada por uma bateria mais vincada; no fundo, é um registo mais rock – menos português, mais global. Tal como os hotéis: Odeon Hotel é um ponto de passagem, um cruzamento de pessoas, expressões e estilos.

Os Dead Combo não são alheios a esta mudança e é bom quando as bandas conseguem mudar, surpreender, evoluir. Odeon Hotel já não é a Lisboa do “Anadamastor” ou do “B. Leza” que Dead Combo nos contaram em álbuns anteriores, mas essa Lisboa também já não é a mesma.

Jon Hopkins – Singularity

Por Miguel Mestre

Pode parecer um contra-senso dizer que se domina o experimentalismo, mas depois de ouvir este Singularity é justo admitir que Jon Hopkins controla como poucos a mistura de sintetizadores e acordes extremos. Passaram 5 anos desde o último álbum do britânico e poder embarcar nestas viagens novamente lembra-nos que estivemos demasiado tempo sem isto.

“Singularity”, a faixa que abre o álbum e que lhe dá nome, abre caminho a “Esmerald Rush”, ““Neon Pattern Drum” e “Everything Connected”, que marcam o ritmo acelerado da primeira metade deste longa duração. “Feel First Life” traz-nos o lado consciente e introspectivo que sempre marcou o trabalho de Hopkins que se estende até ao final do álbum, onde nos reserva os edits mais curtos das faixas que nos agarraram em primeiro lugar.

Singularity é por tudo isto um disco que gosta de ser ouvido mais do que gosta que estejamos apenas a ouvi-lo. É um universo que faz valer a pena os 5 anos que Jon Hopkins demorou a criar esta nave espacial que nos leva a sítios que nem sempre soubemos que existiam.

Unknown Mortal Orchestra – Sex & Food

Um disco que adopta o nome de duas das melhores coisas da vida podia parecer destinado a lembrar-nos como é bom estarmos vivos mas quando o ouvimos percebemos que tem coisas bem menos agradáveis para nos dizer sobre o mundo do que seria expectável. “Major League Chemicals”, “Ministry of Alienation”, “Everyone Acts Crazy Nowadays” , “American Guilt” ou a incrível “This Doomsday” falam-nos de coisas que nem sempre nos apetece ouvir, mas o rock psicadélico com desconstruções pop a que Ruban Nielson sempre nos habituou volta a conseguir cativar-nos sem grande esforço.

Talvez por isso a doce e orelhuda “Hunnybee” se tenha convertido facilmente num nos grandes êxitos destes neozelandeses, lembrando o sucesso que já tinham conseguido com “So Good at Being in Trouble”. Pelo meio, “The Internet of Love(That Way)”, “How Many Zeros” e “Not in Love We’re Just High” confirmam que, depois de um “Multi-Love” em que explorou até ao limite os temas da sua vida pessoal, Nielson volta a querer falar-nos sobre o mundo que o (e nos) rodeia e o resultado é um Sex & Food com muitas coisas interessantes de se ouvir.

A Perfect Circle – Eat The Elephant

Por Paulo André

Após um hiato de catorze anos, o quarto álbum de A Perfect Circle foi finalmente apresentado em 2018. Durante este período, o único single novo – “By and Down” –, lançado em 2013, foi um sucesso imediato e uma premissa do que estaria para vir. A espera dos fãs acabou em Abril deste ano, quando o supergrupo disponibilizou o Eat The Elephant online. Contudo, a recepção não foi unânime. Isto porque: se por um lado a sonoridade se mantém fiel ao que Maynard e companhia nos habituaram, por outro, surgiram novos registos neste reencontro que não agradaram a alguns.

As músicas “Hourglass” e “Get the Lead Out”, por exemplo, são uma espécie de fusão entre o rock progressivo e a electrónica, um pouco ao estilo de Puscifer, um dos projectos de Maynard James Keenan. O liricismo mordaz e a melancolia que marca a imagem da banda estão presentes em força, simplesmente têm agora uma nova máscara. De qualquer das formas, pelo impacto que teve após catorze anos, pelo conteúdo que apresenta e por tudo que representa A Perfect Circle, este é um dos álbuns do ano.

Mac Miller – Swiming

Por Pedro Leal

Não podia deixar de mencionar o novo álbum do Mac Miller, o Swiming. Um álbum que veio marcar uma ausência algo alargada do rapper e que nos leva para uma introspecção deste novo momento “pós break-up” com a Ariana Grande, onde assumiu uma atitude super positiva com a vida e onde, pelo que diz, se assume “limpo” de todas as drogas.

Amaral – Últimos Dias

Quero ainda deixar-vos aqui um projecto que me foi apresentado há relativamente pouco tempo e que me surpreendeu: o EP Últimos Dias do rapper Amaral. Com apenas 4 músicas, num estilo cru como todo o “street rap” que se digne, mas com uma escrita muito mais elaborada do que a que, normalmente, esse tipo de rap nos habitua, aliada a uma produção fantástica em cada uma dessas 4 músicas.